Católicos entram em cena contra Flávio Bolsonaro, aponta professor

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Vaqueiro segura Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, enquanto aguarda início da “Missa dos Vaqueiros” no interior de Pernambuco. Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Uma movimentação de lideranças católicas em torno da defesa da soberania nacional, dos mais pobres e do bem comum pode se transformar em obstáculo para Flávio Bolsonaro (PL) na reta final da eleição. A avaliação é do professor Vinicius Rodrigues Vieira, da FAAP, da FGV e do IDP-SP, em artigo publicado no JOTA. Para ele, a entrada mais intensa de bispos e arcebispos no debate público pode favorecer Lula (PT), embora as manifestações não representem apoio formal da Igreja Católica ao presidente.

Um dos exemplos usados pelo professor é Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida. Em homilia que ganhou ampla circulação nas redes, o religioso pediu que os fiéis escolhessem candidatos segundo a consciência e pensando no bem comum. Também fez uma defesa enfática da soberania brasileira, afirmando que nenhum poder estrangeiro deve mandar no país. A íntegra dos principais trechos da pregação mostra que Dom Orlando não citou Lula nem Flávio Bolsonaro.

Vieira também cita vídeos de outros prelados e materiais distribuídos em ambientes católicos que orientam os fiéis a levar em consideração temas como soberania e compromisso com os mais pobres. Para o professor, esses critérios acabam convergindo mais com bandeiras exploradas pela campanha de Lula nesta eleição.

O artigo relaciona essa reação ao crescimento político do evangelicalismo e à proximidade do bolsonarismo com setores que defendem a chamada teologia do domínio, corrente que prega a ocupação de espaços de poder por cristãos comprometidos com determinada visão religiosa da sociedade. Vieira avalia que uma Presidência de Flávio Bolsonaro tenderia a fortalecer esse campo.


A divisão religiosa do eleitorado ajuda a explicar por que essa movimentação merece atenção. Levantamentos ao longo da campanha vêm mostrando Lula com desempenho superior entre católicos e Flávio Bolsonaro com vantagem entre evangélicos. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro intensificou a aproximação com igrejas e lideranças protestantes e transformou a religião em parte explícita de sua estratégia eleitoral. Sua campanha chegou a criar uma frente para ampliar presença entre evangélicos e aproximá-lo de pastores.

Vieira acrescenta um componente internacional à análise. Para ele, o enfrentamento entre o papa Leão XIV e Donald Trump em temas como imigração ajuda a colocar Vaticano e trumpismo em campos políticos distintos. Como Flávio Bolsonaro mantém alinhamento com Trump, a defesa da soberania feita por religiosos brasileiros ganha uma dimensão eleitoral adicional. O professor aponta especialmente Minas Gerais, onde a presença católica é forte e a disputa presidencial costuma ser apertada, como um estado em que esse movimento pode ter consequência relevante.

O efeito real dessa reação só poderá ser medido nas urnas e nas próximas pesquisas. O que já aparece é uma disputa religiosa bastante definido, com Flávio Bolsonaro buscando consolidar sua força no eleitorado evangélico, enquanto Lula parte de posição mais favorável entre católicos. Em uma eleição decidida por poucos pontos, Vieira avalia que a mobilização de setores católicos pode se tornar uma variável importante para impedir o avanço do candidato bolsonarista.

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