
A corrida presidencial de 2026 ganhou contornos de uma inédita disputa pela identidade religiosa da República. No centro do debate, a promessa do senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) de emitir um decreto presidencial afirmando que o “Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo” acendeu o sinal de alerta máximo na liderança católica.
Para além do debate sobre a laicidade do Estado, setores da Igreja Católica Apostólica Romana interpretam a fala como um apito de cachorro — uma mensagem cifrada direcionada à sua forte base evangélica neopentecostal.
O verdadeiro alvo, segundo essa leitura, seria o posto de Nossa Senhora Aparecida como a Padroeira oficial do Brasil. A reação institucional não tardou. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e lideranças regionais elevaram o tom por meio de manifestações e vídeos oficiais voltados ao voto consciente.
Embora a entidade mantenha a postura formal de não indicar partidos ou candidatos, o recado foi interpretado como uma contraofensiva indireta, mas cirúrgica, à candidatura de Flávio. Em posicionamento público, o presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, alertou que a mistura intencional entre religião e política historicamente não traz resultados positivos.
Paralelamente, vídeos de bispos do Regional Norte 1 (Amazonas e Roraima) advertiram os fiéis contra a “manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus”, enfatizando que “as igrejas não são currais eleitorais” — uma clara alusão à estratégia bolsonarista.
O Risco Real ao Status da Padroeira
O temor católico de que um governo de Flávio Bolsonaro patrocine a destituição da Padroeira do Brasil não é uma especulação infundada, mas baseia-se em precedentes do próprio Congresso Nacional. Em 2007, o então deputado e pastor Victorio Galli chegou a apresentar o Projeto de Lei 2623, que tentava alterar a legislação para rebaixar o título de Nossa Senhora Aparecida a apenas “Padroeira dos brasileiros católicos”.
Se há duas décadas a Frente Parlamentar Evangélica carecia de força para avançar com a pauta, o cenário atual é de ampla maioria e forte articulação política de pastores alinhados ao plano de governo do clã Bolsonaro.
O decreto proposto por Flávio serviria como uma espécie de “guarda-chuva jurídico” e moral para validar a transição cultural do país rumo à chamada Teologia do Domínio — uma linha teológica que prega a ocupação de todas as esferas de poder por cristãos evangélicos. Nesse desenho de nação, símbolos católicos tradicionais, mesmo os chancelados por lei federal, perdem espaço institucional.
A Materialidade da Intolerância contra os santos
A resistência católica ganha concretude quando confrontada com o histórico de hostilidade de vertentes extremistas em relação às imagens sacras. A teologia evangélica, fundamentada em uma leitura estrita do Antigo Testamento, condena de forma intransigente a fabricação de estátuas e o que interpretam como idolatria. O problema, contudo, reside na transição do debate teológico para a violência prática e o vandalismo, fenômenos que oferecem a materialidade do risco percebido pela Igreja:
* O precedente histórico: o episódio do “chute na santa” em 1995, protagonizado pelo bispo Sérgio Von Helde na TV Record, permanece na memória coletiva como o ápice do ultraje público a símbolos católicos.
* Ataques verbais institucionais: em outubro de 2023, o pastor Sérgio Fernandes, de Bastos (SP), atacou verbalmente a instalação de um monumento a Nossa Senhora Aparecida na entrada da cidade, classificando a imagem da padroeira como “Satanás fantasiado de azul” e prevendo “maldição” sobre o município.
* Vandalismo físico: casos de depredação física de paróquias e destruição de dezenas de imagens sacras simultaneamente têm sido registrados por autoridades policiais em estados como São Paulo e Paraná, enquadrados como crime de ultraje a culto (Artigo 208 do Código Penal).
Ao unir o histórico de episódios de intolerância e o peso político crescente do segmento evangélico, a Igreja Católica identifica na “canetada cristã” prometida por Flávio Bolsonaro o primeiro passo prático para a desidratação legal e cultural do catolicismo no Brasil.
A mobilização da CNBB e do clero na reta final da campanha reflete a percepção de que a própria coroa da Padroeira do Brasil está em jogo nas urnas, ou, talvez, “O Conto da Aia” não seja apenas uma distopia proveniente da caneta de Margaret Atwood.