Os registros de crimes classificados como “exercício arbitrário das próprias razões”, conhecidos como casos de “justiça com as próprias mãos”, aumentaram 25% no Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 2026. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram 504 ocorrências entre janeiro e março, contra 402 no mesmo período do ano passado.
O cenário ganhou destaque após a morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, espancado em Copacabana depois de ser acusado, sem provas, de roubar uma bicicleta. Entre os quatro investigados estão dois homens que trabalhavam como seguranças na região.
Imagens obtidas pelo g1 também mostram homens contratados para atuar como seguranças circulando pelas ruas de Copacabana com cassetetes e realizando rondas. De acordo com a regulamentação da Polícia Federal, esse tipo de patrulhamento em vias públicas caracteriza segurança privada clandestina, salvo situações específicas previstas na legislação.
Investigação
A Polícia Civil investiga comerciantes que teriam contratado os profissionais. Segundo o delegado Ângelo Lages, da 12ª DP, os investigadores já identificaram pelo menos uma pessoa responsável pela contratação de seguranças que atuavam na região.
A polícia também apura se comerciantes tiveram algum envolvimento ou conhecimento sobre a atuação dos homens nas ruas.
A regulamentação determina que a segurança privada seja exercida por empresas autorizadas pela Polícia Federal ou por estruturas próprias de empresas e condomínios. Vigilantes não podem atuar como profissionais autônomos.
Segundo especialistas, a função do vigilante está limitada ao local para o qual foi contratado e, em determinadas circunstâncias, ao entorno imediato. O patrulhamento de ruas é atribuição do poder público.
Morte
Cláudio foi agredido na madrugada de 12 de agosto após ser acusado de ter roubado uma bicicleta que, segundo a investigação, pertencia à irmã dele.
As agressões começaram depois de uma abordagem em Copacabana e continuaram em outra rua do bairro. Imagens mostram a vítima sendo cercada e atacada. A investigação aponta que foram utilizados socos, chutes e objetos semelhantes a porretes e cassetetes.
Cláudio foi levado ao Hospital Municipal Miguel Couto, mas morreu em decorrência dos ferimentos.
A Polícia Civil identificou quatro suspeitos: dois seguranças e dois entregadores. Os dois seguranças foram presos, e a Justiça manteve as prisões temporárias neste sábado (22).
Um dos investigados teria entrado em um estabelecimento comercial durante o episódio, pegado um porrete e retornado para atacar a vítima. A polícia investiga também quem forneceu os objetos usados nas agressões.
Lei
A Polícia Federal estabelece diferenças entre vigilantes, vigias, porteiros e fiscais de loja. Apenas profissionais habilitados como vigilantes podem realizar determinadas atividades de segurança privada, como abordagens e rondas dentro da área autorizada.
O vigilante deve possuir a Carteira Nacional de Vigilante (CNV) e trabalhar para uma empresa regularmente autorizada. A contratação de segurança clandestina pode resultar em multas e outras penalidades para prestadores e contratantes.
Equipamentos como cassetetes e outros instrumentos de menor potencial ofensivo podem ser utilizados por vigilantes habilitados, mas dependem de treinamento específico e de aquisição pela empresa dentro das regras estabelecidas pela Polícia Federal.
Estrutura
Depoimentos dos presos indicaram a existência de grupos de WhatsApp utilizados para organizar os serviços de segurança na região. Um dos investigados afirmou que havia grupos destinados à segurança de ruas e da orla de Copacabana.
A polícia também apura a informação de que um policial militar estaria relacionado à organização de um desses grupos.
Além de esclarecer a participação de cada suspeito na morte de Cláudio, os investigadores querem identificar quem contratava os seguranças, como o trabalho era organizado e quais estabelecimentos mantinham esse tipo de serviço.
No primeiro trimestre de 2026, o Rio registrou média de aproximadamente 5,6 casos por dia de exercício arbitrário das próprias razões. Em todo o ano passado, foram 1.609 ocorrências.
A investigação em Copacabana agora busca determinar se a atuação de grupos de segurança clandestina tem relação com outros episódios de violência no bairro e quais comerciantes podem estar envolvidos na contratação desses profissionais.
*Com informações do g1.
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