“Breque dos Apps” leva entregadores às ruas por taxa mínima e contra bloqueios

Breque dos Apps
Entregadores de aplicativo se reuniram na rua da Consolação e subiram até a paulista em novo breque dos apps. Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Entregadores de aplicativos cruzaram os braços nesta terça-feira (1º) em diferentes pontos do país para pressionar iFood, 99Food, Keeta e outras plataformas por mudanças na remuneração e nas condições de trabalho. O Breque Nacional dos Apps teve manifestações documentadas em São Paulo, Distrito Federal, Salvador, Feira de Santana, Goiânia, Anápolis e outras cidades. Além das reivindicações trabalhistas, a mobilização ganhou um novo front: representantes da categoria levaram ao Ministério Público do Trabalho uma denúncia de que 99Food e Keeta teriam oferecido bônus durante as horas da paralisação para estimular trabalhadores a permanecer conectados.

A pauta dos entregadores vai muito além de um reajuste genérico. O movimento reivindica taxa mínima de R$ 10 nas entregas de até quatro quilômetros e R$ 2,50 por quilômetro adicional. Também cobra que valor e destino sejam apresentados antes da aceitação da corrida, pagamento pelo tempo de espera acima de 15 minutos, seguro custeado pelas plataformas, pontos de apoio com banheiro e local de descanso e critérios transparentes para bloqueios e suspensões de contas, com possibilidade efetiva de recurso. No Distrito Federal, um manifestante resumiu ao Metrópoles a reivindicação: “A gente quer colocar a nossa tabela de preço do nosso frete para que a gente seja valorizado”.

A regulamentação federal é outro foco do breque. A versão mais recente do parecer do PLP 152/2025 apresentada na Câmara prevê R$ 8,50 como mínimo para entregas de até quatro quilômetros, abaixo dos R$ 10 reivindicados pelos trabalhadores. Lideranças também criticam a ausência de demandas como o pagamento integral de pedidos diferentes agrupados numa mesma rota. O relatório foi apresentado em abril, mas a reunião da comissão especial marcada para votá-lo em 14 de abril acabou cancelada. A insatisfação com o projeto não é nova: em abril, após pressão da categoria, o governo retirou apoio a uma versão que, segundo o ministro Guilherme Boulos, havia incorporado alterações favoráveis às plataformas.

No iFood, um dos principais alvos é o +Entregas. O modelo reduz o valor individual da entrega para uma faixa que chegou a R$ 3 a R$ 3,50, enquanto a modalidade tradicional Nuvem pagava R$ 7 a R$ 7,50, segundo dados apresentados pela própria companhia ao governo. O iFood argumenta que o entregador termina o período ganhando de 10% a 30% mais porque recebe valores fixos, garantia mínima e maior volume de pedidos. Em seu próprio material de divulgação, a empresa informa que o participante do +Entregas recebe prioridade na distribuição de pedidos e, para ter direito ao ganho fixo do período reservado, precisa permanecer disponível durante pelo menos 90% dele e não ultrapassar duas rotas canceladas ou rejeitadas. Entregadores contestam justamente os efeitos dessa lógica sobre quem não entra na modalidade e relatam perda de prioridade e pressão algorítmica. O governo considerou insuficientes as explicações apresentadas pelo iFood sobre essas reclamações.

A acusação mais imediata desta terça-feira envolve 99Food e Keeta. Capturas de tela entregues ao MPT mostram adicionais de R$ 3, R$ 4 e até R$ 9 oferecidos durante o período do breque em São Paulo e na região metropolitana. Segundo a representação apresentada por Elias Pereira Freitas da Silva Júnior, o JR Freitas, os incentivos se concentraram entre 9h e 14h, justamente durante a mobilização, inclusive nas proximidades do Pacaembu, onde o ato começou. O pedido ao MPT é para que sejam preservados os registros digitais, identificados horários, regiões e critérios dos bônus e apurado se os valores foram disparados automaticamente ou por decisão humana. Os trabalhadores também pedem proteção contra eventuais retaliações. A denúncia fala em possível prática antissindical; o MPT ainda não concluiu que tenha ocorrido irregularidade.

A Keeta negou que os incentivos tenham sido criados para combater o breque e afirmou que seus bônus fazem parte das políticas regulares da plataforma. A 99Food não havia respondido à Folha até a publicação da reportagem. A Amobitec, que representa empresas do setor, afirmou que as plataformas respeitam manifestações pacíficas, mantêm diálogo com os profissionais e apoiam uma regulamentação que combine proteção social e segurança jurídica. Em São Paulo, a cobertura também registrou divergência sobre o tamanho do ato: o Metrópoles falou em mais de cem trabalhadores na concentração, enquanto o UOL registrou cerca de 300 motos circulando durante a mobilização. Por isso, não há até agora um balanço nacional confiável de adesão. Em Salvador, porém, restaurantes relataram dificuldade para conseguir entregadores; no Distrito Federal houve concentração na Esplanada dos Ministérios.

O dia também teve episódios que escaparam da orientação de paralisação pacífica. No Distrito Federal, vídeos mostram trabalhadores impedindo fisicamente colegas que decidiram continuar fazendo entregas. A Polícia Militar identificou e ouviu envolvidos, mas informou que nenhuma das partes quis registrar ocorrência. Em Salvador, outros registros mostraram pressão sobre não aderentes e, em um dos casos, o pneu de uma moto teria sido furado. Em Anápolis, reportagem local também relatou intimidações e agressões contra trabalhadores que permaneceram conectados. Esses episódios não permitem atribuir esse comportamento ao movimento nacional como um todo, cujas convocações orientaram diálogo e paralisação dos aplicativos, mas mostram uma tensão interna real entre quem pode abrir mão da renda de um dia e quem continua trabalhando.

A disputa entre plataformas e entregadores também não nasceu nesta greve. Em agosto, entregadores acionaram a Justiça contra iFood, Keeta, 99Food, Uber e outros aplicativos por falta de pontos de apoio adequados. Em julho, a Keeta foi denunciada ao MPT por mensagens que cobrariam maior velocidade dos motociclistas e por critérios considerados pouco transparentes de remuneração e bloqueio.

O governo também abriu procedimento contra iFood e Keeta por regras de transparência nos repasses. O novo breque, portanto, recoloca uma disputa antiga em um mercado muito maior: quem controla preço, algoritmo e acesso ao trabalho quando a renda do profissional depende de permanecer conectado a uma plataforma.

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