
A Assembleia Geral da ONU acumulou, ao longo das décadas, discursos que entraram para a história por ataques entre líderes, teorias conspiratórias, ameaças e gestos inusitados. Um dos episódios mais lembrados ocorreu em 2006, quando o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chamou o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de “diabo”.
Chávez falou um dia depois de Bush, em meio à tensão nas relações entre Caracas e Washington. Ao abrir seu pronunciamento, fez o sinal da cruz e afirmou: “Ontem, o diabo esteve aqui. Neste mesmo lugar, ainda cheira a enxofre”. O venezuelano acusava o governo estadunidense de apoiar a tentativa frustrada de golpe contra ele em 2002.
O Debate Geral reúne representantes dos 193 países membros das Nações Unidas. Guerras, crises humanitárias, disputas geopolíticas e conflitos entre grandes potências levaram chefes de Estado e governo a usar a tribuna para confrontos públicos e performances que ultrapassaram o protocolo diplomático.
Da Guerra Fria aos discursos-recorde na ONU
Em 1960, durante a Guerra Fria, o líder soviético Nikita Khrushchev reagiu a críticas do representante das Filipinas à política da União Soviética. A ONU confirma que ele bateu na mesa durante a sessão e depois subiu à tribuna para responder em um longo discurso.
A versão de que Khrushchev teria retirado um sapato e batido com ele sobre a mesa se tornou uma das histórias mais famosas sobre a organização, mas não há vídeo que comprove o gesto. A própria ONU trata o episódio como cercado de dúvidas, embora o ex-líder soviético tenha assumido a responsabilidade anos depois, em suas memórias.
Também em 1960, o então líder cubano Fidel Castro fez o discurso mais longo da história da Assembleia Geral. Apesar de prometer uma fala breve, ele permaneceu mais de quatro horas e meia na tribuna. Atualmente, a orientação prevê pronunciamentos de até 15 minutos para chefes de Estado, embora algumas falas mais longas cheguem a cerca de uma hora e meia.
Muammar Kadhafi, que governou a Líbia por 42 anos, criticou o Conselho de Segurança em seu discurso de 2009. O país ocupava naquele momento um assento temporário no órgão. Após falar por cerca de 100 minutos, ele pegou uma cópia da Carta das Nações Unidas e atirou o documento para trás do ombro.
Trump, Netanyahu e Ahmadinejad protagonizaram confrontos
Donald Trump estreou como presidente dos Estados Unidos na Assembleia Geral em 2017 com ameaças à Coreia do Norte. Ele disse que Washington poderia “destruir totalmente” o país caso precisasse defender os Estados Unidos ou seus aliados e chamou o líder norte-coreano Kim Jong-un de “homem-foguete”.
Em 2012, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, levou à tribuna um cartaz com o desenho de uma bomba para sustentar o alerta de que o Irã se aproximava da capacidade de desenvolver uma arma nuclear. A ilustração simples virou alvo de piadas, mas expôs a disputa entre os dois países sobre o programa nuclear iraniano.
O então presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad provocou uma reação diplomática imediata em 2010 ao defender a teoria conspiratória de que os ataques de 11 de setembro de 2001 teriam sido organizados pelos Estados Unidos. Delegações do Reino Unido, da União Europeia e dos Estados Unidos deixaram o plenário durante a fala, e o governo estadunidense classificou as declarações como “detestáveis e delirantes”.