“A sanfona de oito baixos não é só forró”

Luizinho Calixto e Luiz José discutem a permanência da sanfona na música brasileira e apresentam as possibilidades do cavaquinho de seis cordas

A tradição da sanfona de oito baixos e as novas possibilidades abertas pelo cavaquinho de seis cordas foram tema do programa Café com Democracia, da Rede de Comitês Populares pela Democracia, exibido na sexta-feira, 2 de outubro. A conversa reuniu o professor e mestre sanfoneiro Luizinho Calixto e o compositor, cantor e pesquisador Luiz José, responsável pelo desenvolvimento do cavaquinho brasileiro de seis cordas. A entrevista, conduzida por Luiz Regadas, percorreu a história dos instrumentos, a formação musical dos convidados e a necessidade de ampliar o espaço dedicado à música instrumental brasileira.

Para Luizinho Calixto, a sanfona de oito baixos representa uma parte decisiva de sua própria trajetória. Foi por meio do instrumento que ele conheceu músicos que se tornariam referências em sua formação e estabeleceu relações que atravessaram diferentes períodos de sua carreira. Entre os nomes citados estão Jackson do Pandeiro, Sivuca, Dominguinhos e Luiz Gonzaga.

“Foi através da música que eu conheci Jackson do Pandeiro, eu tinha 8 anos de idade. Pouco tempo depois, me tornei um dos amigos do Jackson. Foi através da música que eu conheci Sivuca, conheci Dominguinhos, conheci o rei do baião, Luiz Gonzaga”, contou.

A relação entre a sanfona e a transmissão familiar também apareceu na conversa. Calixto lembrou que seu pai trabalhava com o instrumento e que a mesma relação com a sanfona esteve presente na família de Luiz Gonzaga e de Dominguinhos. Para ele, a continuidade dessa tradição passa também pelas novas gerações. O próprio músico relatou que seus netos demonstram interesse pelo instrumento e que outros familiares já começaram a tocar sanfona de oito baixos.

A história do instrumento está ligada a alguns dos principais nomes da música nordestina. Segundo Calixto, Sivuca começou na sanfona de oito baixos antes de ampliar sua atuação para outros instrumentos. Luiz Gonzaga também teve contato inicial com o instrumento, assim como Dominguinhos, cujo pai tocava e consertava sanfonas.

A sanfona, contudo, não aparece na entrevista apenas como símbolo de uma tradição consolidada. Calixto defendeu que os músicos ampliem o repertório associado ao instrumento e explorem gêneros que ultrapassem o universo mais conhecido do forró.

“Eu só acho o seguinte, que os sanfoneiros, principalmente os sanfoneiros de oito baixos, têm hoje em dia que avançar em outros estilos, como, por exemplo, bossa nova, boleros, tangos, valsas, para você mostrar que o instrumento pode tocar outros ritmos”, afirmou.

A proposta está relacionada a uma questão técnica. Calixto explicou que a sanfona de oito baixos exige estudo constante e que sua execução está longe de ser simples. O músico, que também atua como professor, recomenda a prática diária para quem deseja desenvolver domínio sobre o instrumento.

“Se um dia tem 24 horas, você pode separar uma hora para prática do instrumento”, afirmou. Segundo ele, a evolução ocorre de maneira gradual e pode não ser percebida imediatamente pelo próprio estudante. A prática contínua, porém, modifica a relação do músico com o instrumento.

Calixto também rejeitou a ideia de que a sanfona de oito baixos deva ficar limitada aos ritmos mais associados à tradição nordestina. Forró, baião, choro e outros gêneros podem fazer parte de um repertório mais amplo, desde que o músico se disponha a explorar as possibilidades técnicas do instrumento.

A própria trajetória do sanfoneiro demonstra essa relação entre tradição e experimentação. Ele contou que seu primeiro disco foi gravado em 1976 e que, naquela ocasião, teve contato com o cavaquinho em uma formação musical que o impressionou.

“Eu sou um cara, eu sou um fã de cavaquinho”, disse Calixto. Para ele, o instrumento possui uma combinação sonora especialmente interessante com a sanfona de oito baixos. O músico afirmou que, quando pode escolher seu acompanhante, prefere o cavaquinho à guitarra.

“Eu acho que tem tudo a ver o balanço do cavaquinho com o forró e principalmente com a sanfona de oito baixos”, afirmou.

Essa relação entre os dois instrumentos ganhou uma dimensão adicional com a participação de Luiz José. Compositor, cantor e pesquisador, ele desenvolveu um cavaquinho de seis cordas a partir de uma pesquisa iniciada ainda na infância.

Luiz José explicou que começou a estudar cavaquinho aos 10 anos e que sua pesquisa nasceu da vontade de executar no instrumento músicas que não faziam parte do repertório tradicional do cavaquinho. O estudo de outros instrumentos, como o bandolim e o violão, mostrou a possibilidade de ampliar a extensão sonora do cavaquinho.

O músico lembrou que a experiência com um cavaquinho de cinco cordas já havia sido realizada anteriormente por Nelson Alves, músico que tocou com Chiquinha Gonzaga. A inovação de seu trabalho está na sexta corda.

“Então, o ineditismo da minha atuação foi realmente a sexta corda”, explicou. Luiz José acrescentou uma corda correspondente a uma nota presente no violão de seis ou sete cordas, ampliando a extensão do instrumento sem abandonar sua configuração tradicional.

A proposta permite que o cavaquinho mantenha sua identidade enquanto incorpora novas possibilidades melódicas e harmônicas. Segundo Luiz José, o instrumento passa a reunir possibilidades que dialogam com o violão de sete cordas e com o bandolim.

“Eu tenho ali as possibilidades das notas do violão de sete cordas, do bandolim, mantendo a forma do cavaquinho tradicional sem descaracterizar, na mesma afinação que a gente usa”, explicou.

A inovação nasceu de uma trajetória profundamente ligada à música brasileira. Luiz José contou que sua formação passou pelo choro, pelo samba e pelo forró. O contato com diferentes gêneros contribuiu para que ele identificasse possibilidades técnicas para o cavaquinho que poderiam ser desenvolvidas a partir da própria tradição musical brasileira.

Ele também destacou a participação de Luizinho Calixto em sua formação. Segundo Luiz José, foi Calixto quem abriu as portas para que ele se aproximasse do forró e passasse a compreender diferenças entre os gêneros e ritmos presentes na música nordestina.

A relação entre os dois instrumentos ficou evidente durante a entrevista. Os músicos tocaram juntos e demonstraram como o cavaquinho de seis cordas pode dialogar com a sanfona de oito baixos. Em outro momento, Luiz José apresentou a valsa “Santa Morena”, de Jacob do Bandolim, explorando justamente a extensão adicional proporcionada pelo instrumento.

A experiência foi usada para explicar uma das características do cavaquinho de seis cordas. Luiz José mostrou que a extensão permite executar simultaneamente melodia, acordes e linhas graves, aproximando o instrumento de funções tradicionalmente desempenhadas por outros instrumentos.

“Você pode observar que eu estou tocando a melodia, os acordes e também fazendo um pouco da baixaria”, explicou.

A pesquisa de Luiz José parte do cavaquinho tradicional, mas procura ampliar sua capacidade de atuação. O músico ressaltou que não pretende substituir o instrumento convencional, que considera adequado à função para a qual foi desenvolvido. A sexta corda representa uma extensão das possibilidades técnicas e do repertório.

“É apenas um acréscimo de extensão e isso vai fortalecer ainda mais a abrangência do repertório, da técnica”, afirmou.

Para Luiz José, essa expansão pode levar o cavaquinho brasileiro a dialogar com repertórios de diferentes países. A pesquisa também parte de uma perspectiva de valorização da trajetória brasileira do instrumento, que chegou ao país vindo de Portugal e adquiriu características próprias a partir das práticas musicais desenvolvidas no Brasil.

O músico chamou atenção para a diversidade de gêneros que compõem essa trajetória. Choro, samba, forró, polca, valsa e outras formas musicais aparecem como parte de um processo de formação no qual o cavaquinho ocupou diferentes funções.

A conversa também tratou do espaço destinado à música instrumental nos meios de comunicação. Luiz José criticou o que considera uma presença reduzida de diferentes gêneros musicais na televisão aberta.

“Eu tô achando muito limitado. Então existe uma gama de gêneros musicais que deveria estar circulando”, afirmou.

Segundo ele, a falta de exposição também limita o contato do público com instrumentos e músicos que possuem trajetórias relevantes na música brasileira. O compositor relatou situações em que pessoas demonstraram surpresa ao assistir a apresentações instrumentais porque não estavam acostumadas a esse tipo de música.

A questão da circulação cultural foi relacionada por Luiz José à própria experiência de formação de músicos. Para ele, o acesso a diferentes gêneros depende também da possibilidade de ouvir essas manifestações e reconhecê-las como parte da música brasileira.

Luizinho Calixto apresentou uma avaliação semelhante ao defender que os sanfoneiros explorem repertórios mais amplos. Para ele, restringir a sanfona de oito baixos ao forró significa reduzir as possibilidades de um instrumento que pode executar outros estilos.

A dificuldade técnica não deveria, segundo o músico, funcionar como justificativa para evitar essa expansão. Calixto reconheceu que a sanfona de oito baixos exige um grau elevado de dedicação, mas defendeu que a prática diária permite desenvolver novas técnicas.

Essa preocupação aparece também em seu trabalho como professor. Calixto contou que recebe alunos que chegam às aulas sem qualquer experiência anterior com a sanfona. Alguns tiveram apenas contato visual com o instrumento e decidiram aprender por curiosidade.

Entre seus alunos está Anita Farias, filha do cantor e compositor Vital Farias. Segundo Calixto, ela procurou as aulas para realizar um desejo do pai, que queria que um dos filhos aprendesse a tocar sanfona.

A relação entre os dois músicos remonta à própria trajetória de Calixto. Ele contou que sua primeira apresentação em um teatro ocorreu ao lado de Vital Farias. Anos depois, a filha do compositor passou a estudar com ele e já realizou apresentações fora do Brasil.

“Ela vai tocar sanfona de oito baixos, toca as músicas do pai, ela canta as músicas do pai, os sucessos”, relatou.

O episódio foi apresentado por Calixto como exemplo da maneira pela qual a tradição musical pode ser transmitida entre gerações. A relação entre professor e aluno, nesse caso, conecta diferentes momentos da música brasileira e mantém repertórios vivos por meio de novas interpretações.

Luiz José também destacou a importância de Calixto em sua trajetória. Segundo ele, o sanfoneiro foi responsável por abrir caminhos para sua inserção no forró e por proporcionar experiências profissionais que o levaram a viajar por diferentes estados brasileiros.

No encerramento da entrevista, Calixto mencionou outro momento importante de sua trajetória: o reconhecimento acadêmico que deverá receber da Universidade Federal de Campina Grande. Segundo o músico, ele será, até onde sabe, o primeiro sanfoneiro a receber o título de doutor honoris causa da instituição.

“Eu sou o primeiro sanfoneiro a ser agraciado com o título de honoris causa da Universidade Federal de Campina Grande”, afirmou.

O reconhecimento foi descrito pelo músico como algo cuja dimensão ainda era difícil de calcular. A homenagem deverá ser formalizada ainda em 2026, segundo a entrevista.

O encontro no Café com Democracia colocou lado a lado uma tradição consolidada da música nordestina e uma experiência de inovação instrumental. A sanfona de oito baixos apareceu como instrumento associado à formação de importantes músicos brasileiros, mas também como objeto de pesquisa e ampliação de repertório. O cavaquinho de seis cordas, por sua vez, foi apresentado como resultado de uma investigação que procura expandir as possibilidades de um instrumento já profundamente incorporado à cultura musical brasileira.

A conversa também chamou atenção para uma questão que ultrapassa os dois instrumentos: o acesso do público à diversidade da produção musical brasileira. Para os convidados, a permanência dessas tradições depende da transmissão de conhecimento, da formação de novos músicos e da circulação de repertórios que encontram pouco espaço nos meios de comunicação de massa.

No estúdio da TV Atitude Popular, sanfona e cavaquinho dividiram o mesmo espaço e mostraram que tradição e pesquisa podem se desenvolver conjuntamente. A experiência de Luizinho Calixto representa uma longa trajetória ligada ao oito baixos, enquanto a pesquisa de Luiz José busca ampliar as possibilidades do cavaquinho sem romper com sua identidade brasileira.

Referências

Jacob do Bandolim
Músico e compositor brasileiro citado durante a entrevista. A música “Santa Morena” foi apresentada por Luiz José durante o programa.

Chiquinha Gonzaga
Compositora e pianista brasileira mencionada por Luiz José ao explicar que Nelson Alves já havia desenvolvido anteriormente um cavaquinho de cinco cordas.

Vital Farias
Cantor e compositor brasileiro citado por Luizinho Calixto ao relatar sua relação profissional com o músico e a trajetória de sua filha, Anita Farias, como aluna de sanfona de oito baixos.

Luiz Gonzaga
Músico brasileiro mencionado na entrevista como um dos principais nomes ligados à sanfona de oito baixos e à consolidação da música nordestina.

Dominguinhos
Músico brasileiro citado entre os artistas cuja trajetória esteve ligada à sanfona de oito baixos.

Artigo Anterior

Lula critica STF, fala em “promiscuidade” e defende nova reforma do Judiciário

Próximo Artigo

“O Senado será uma casa decisiva nos próximos 4 anos”

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!