Empreendedorismo e o sucesso do lulismo na região Nordeste
por Jorge Alexandre Neves
Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.
Caetano Veloso (1977)
No segundo governo Lula, fui lecionar um curso de métodos quantitativos junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFMA. Fiquei hospedado em um hotel próximo ao centro histórico de São Luís. Quase que diariamente, eu almoçava em um pequeno restaurante a quilo, bastante simples, que ficava próximo ao hotel. Um dia, tive uma conversa com a dona do estabelecimento e ela se revelou uma eleitora fiel do presidente. Para justificar seu forte apoio a Lula, me mostrou o que, para ela, materializava a transformação socioeconômica que havia passado e o que considerava ser um relativo sucesso econômico. Aproximando-se de mim, tirou um cartão bancário da bolsa, mostrou-o e perguntou: “sabe o que é isso, professor?”. Eu respondi que não, no que ela foi logo esclarecendo tratar-se de um cartão do BNDES. Em seguida, veio a revelação do que para ela seria a chave final do seu sucesso: “professor, isso é algo que, antes de Lula, só rico tinha na carteira!”. E completou: “só mesmo Lula, que também foi pobre e conseguiu vencer na vida, para fazer isso”.
Naquele dia, percebi como nunca que os governos de Lula estavam promovendo a concretização do desejo de Caetano Veloso revelado na canção “Gente”, cujo trecho está no cabeçalho deste texto. Percebi naquela conversa que os governos Lula tinham agido não apenas para erradicar a fome, mas também para propiciar às pessoas de menor nível socioeconômico a oportunidade de brilhar!
Neste terceiro governo Lula, vejo que os discursos do presidente continuam valorizando muito o efeito de algumas de suas políticas – em particular, as educacionais – sobre as chances de sucesso socioeconômico de pessoas de origem relativamente baixa. Todavia, não percebo nos discursos do presidente Lula qualquer entusiasmo com as importantes iniciativas dos seus governos na promoção do empreendedorismo. A impressão que tenho é que o tal “cartão do BNDES”, que foi muito importante no seu segundo governo, não tem mais tanta relevância. Por outro lado, algumas iniciativas importantes de promoção do empreendedorismo dos dois primeiros governos Lula criaram fortes raízes com o tempo.
O Simples Nacional foi criado em 2006 e o MEI em 2008. Portanto, ambos no segundo governo Lula. Todavia, converse com um MEI ou com um pequeno empresário que opera como Simples Nacional e descobrirá que, quase certamente, ele não faz a menor ideia de que tais sistemas que permitem operações burocraticamente simples e de baixo custo tributário foi uma iniciativa de um governo Lula.
Na região Nordeste (com presença relativa menor, mas relevante, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo), adicionalmente, há um programa de microcrédito operado pelo BNB chamado CrediAmigo (o maior da América Latina), que foi criado em 1998, último ano do primeiro governo FHC, mas que ganhou tração e relevância com a implementação de um novo e virtuoso desenho institucional e operacional, no primeiro governo Lula (para maiores detalhes, ver artigo redigido por Sílvio Salej Higgins e eu próprio, publicado na Revista de Sociologia e Política: https://www.scielo.br/j/rsocp/a/YgsNw3gz9hywSmghfJgtyvk/abstract/?lang=pt). Como tentarei demonstrar adiante, acredito que esse Programa nos ajuda a compreender o sucesso político diferenciado do lulismo na região Nordeste.
Todos já ouvimos falar na hipótese de que a explicação para o relativo sucesso eleitoral do lulismo na região Nordeste seria o Programa Bolsa Família, apesar de que há estados na região Norte com presença relativa semelhante do Programa, nos quais o lulismo tem sofrido duras derrotas nas últimas eleições, como é o caso do Acre. Então, resolvi fazer uma matriz de Correlação Bivariada de Pearson entre três variáveis nos nove estados nordestinos, a saber: a) o percentual de votos no presidente Lula neste primeiro turno da eleição; b) o peso relativo do Programa Bolsa Família (medido pela razão entre o número de beneficiários e a população total); c) o peso relativo do CrediAmigo (medido pelo valor per capita de contratação anual). Os resultados estão nesta tabela abaixo:
| Voto em Lula | Bolsa Família | CrediAmigo | |
| Voto em Lula | 1,000 | ||
| Bolsa Família | 0,366 | 1,000 | |
| CrediAmigo | 0,467 | -0,278 | 1,000 |
Os dados da tabela mostram dois resultados relevantes. Primeiramente, observamos que há uma associação maior entre o peso relativo do CrediAmigo com o percentual de votos no presidente Lula (R = 0,467) do que desta variável com o peso relativo do Programa Bolsa Família (R = 0,366). Ou seja, os resultados indicam que o CrediAmigo é, provavelmente, mais relevante para explicar o sucesso do lulismo na região Nordeste do que o Programa Bolsa Família (como estou lidando com dados populacionais, não vou aqui me deter na consideração de coeficiente de significância, algo que não é de ampla compreensão para todos os leitores). Em segundo lugar, observa-se uma associação negativa entre o peso do CrediAmigo e o peso do Programa Bolsa Família, o que nos sugere que o sucesso relativo daquele reduz a necessidade deste. Ou seja, na região Nordeste, não é apenas a “carteira assinada” que funciona como uma “porta de saída” do Programa Bolsa Família, mas também o CrediAmigo.
Desde o encerramento da apuração dos votos da eleição presidencial de primeiro turno neste último domingo, recebi de várias fontes diferentes o vídeo e o texto de uma entrevista da antropóloga Rosângela Pinheiro-Machado, da University College Dublin, na qual se destaca sua afirmação de que “esquerda que ri de ‘CEO de MEI’ não entende sonhos do trabalhador”. Eu acrescentaria dizendo que esse comportamento de parte significativa da esquerda revela uma profunda dificuldade em compreender que, dada a realidade econômica e a dinâmica do mercado de trabalho no Brasil, o empreendedorismo individual é uma opção adicional para o trabalhador buscar o brilho do qual fala Caetano Veloso. Com o enfraquecimento dos sindicatos, o empreendedorismo individual tornou-se, talvez, o principal instrumento de pressão dos trabalhadores – em particular, de menor nível de qualificação – para pressionar os empregadores.
Por outro lado, pensemos, nos seis anos de governos de direita que tivemos entre 2016 e 2022, que políticas públicas foram desenvolvidas para impulsionar o empreendedorismo individual no Brasil? Eu respondo, pois essa é muito fácil: nenhuma! Todavia, chama a atenção que a extrema direita, em particular, tenha conseguido formular um discurso muito mais eficaz de aproximação junto aos empreendedores individuais. Por que? Essa resposta também é fácil de dar: simplesmente porque o lulismo se recusa a assumir os méritos das importantes políticas públicas de promoção do empreendedorismo individual que implementou!
É frequente ouvirmos que uma grande dificuldade da esquerda com o empreendedorismo é que este necessariamente leva à promoção do individualismo e à corrosão da solidariedade. Primeiramente, é preciso lembrar que o lulismo promoveu a ascensão social por meio do consumo, um processo que também está associado, mas com o qual o lulismo não parece se sentir desconfortável. Em segundo lugar, é importante ressaltar que o desenho institucional do CrediAmigo mostrou que é possível promover o empreendedorismo ao mesmo tempo em que se fortalece a solidariedade e a ação coletiva.
No discurso do presidente Lula após os resultados do primeiro turno, ele fez referências aos grandes projetos econômicos de reindustrialização, energia e exploração de terras raras. É verdade que tais iniciativas são de enorme importância e só se manterão de forma soberana se ele for reeleito. Contudo, além de serem assuntos que parecem distantes para a maior parte dos eleitores, são iniciativas e investimentos que trarão impactos socioeconômicos positivos em um prazo mais longo. Por outro lado, as importantes políticas de promoção do empreendedorismo iniciadas há mais de duas décadas são um ativo que vem produzindo resultados exitosos e que podem ser percebidos como uma realização do lulismo, desde que este o assuma, não recuse reconhecer o seu mérito. Penso que nesta curta campanha de segundo turno, a promoção do empreendedorismo pode ganhar destaque e novas propostas (como a nacionalização do CrediAmigo a partir do BNDES), que podem ser apresentadas para contribuir com a imaginação de um novo sonho para muitos trabalhadores e trabalhadoras, para que nossa gente perceba que governos lulistas lhe darão cada vez mais instrumentos para bilhar.
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
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