A duas semanas do 2º turno, Veja requenta “delação” rejeitada pela PF contra Lula

A duas semanas do segundo turno das eleições, a revista Veja estampou em sua capa um relato atribuído ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso na Operação Compliance. O material, no entanto, foi expressamente rejeitado pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que não o homologaram como delação premiada por falta de credibilidade.

A coligação Brasil Pronto Para Mais classificou a publicação como uma peça eleitoral irresponsável. Em nota, a candidatura destacou que o depoimento “não existe”, não possui registro nos autos da PF e tampouco foi aceito pelo Ministério Público Federal (MPF).

Manobra e “grande acordão”

A publicação da reportagem ocorreu logo após um alerta formal feito às autoridades. Na quinta-feira (8), os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, do grupo de juristas Prerrogativas, apresentaram uma notícia de fato à Polícia Federal pedindo apuração urgente sobre uma articulação entre Vorcaro e a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL). O documento aponta que um HD contendo gravações atribuídas ao banqueiro – com acusações a adversários de Flávio e a ministros – teria sido entregue a terceiros fora dos canais formais de colaboração premiada. Os juristas solicitaram que as informações sejam encaminhadas ao relator da Operação Compliance Zero e ao procurador-geral Eleitoral.

O expediente revela ainda a tentativa de emplacar o material na imprensa televisiva. Segundo a coluna Outro Canal, do jornal Folha de S.Paulo, interlocutores de Vorcaro teriam procurado emissoras de TV para negociar entrevistas exclusivas. Marco Aurélio de Carvalho afirmou que “se o Flávio ganhar, o Vorcaro vai ser solto. Esse é o acordo.” O jurista denunciou a tentativa de construção de um “grande acordão”, cuja contrapartida incluiria a libertação do pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro, e a concessão de prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica para Daniel após o pleito.

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Narrativa sob encomenda

A capa da Veja reproduz áudios e documentos nos quais Vorcaro menciona supostos repasses no valor de R$ 30 milhões “por fora” para o documentário Lula, do cineasta Oliver Stone, citando o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, Paulo Okamotto (do Instituto Lula) e o ministro Alexandre Padilha.

No trecho mais alinhado aos interesses da oposição, o banqueiro estabelece uma comparação conveniente: afirma que a captação para o filme de Lula “foi por fora, foi errado”, enquanto o patrocínio ao filme Dark Horse, ligado a Flávio Bolsonaro, teria sido “normal”.

O presidente Lula e o ministro Alexandre Padilha negaram categoricamente ter solicitado ou recebido qualquer vantagem indevida, além de rebaterem qualquer relação com o banqueiro.

Sem validade jurídica

A contradição processual expõe a fragilidade da denúncia. Fontes da PGR confirmaram que o áudio vazado jamais integrou formalmente as tratativas de delação. As duas propostas apresentadas pela defesa de Vorcaro foram descartadas pelo Ministério Público – a última delas em junho, por ausência de consistência e credibilidade.

Além disso, o entorno do próprio banqueiro admitiu a possibilidade de o áudio ter sido captado de forma clandestina após sua prisão, em 17 de novembro de 2025. Distorções na gravação indicam a presença de terceiros no recinto. O material que a revista vende como depoimento formal não passa de um acervo sem validação jurídica, arremessado na cena pública no momento em que não há tempo hábil para o contraditório antes da votação.

A investida visa blindar o verdadeiro suspeito apontado nas investigações. Em setembro, a PF identificou Flávio Bolsonaro como “interlocutor direto” de Vorcaro na captação de cerca de R$ 134 milhões (US$ 24 milhões) para o projeto Dark Horse. Na véspera da operação da PF, o próprio senador enviou mensagem de apoio ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Como sintetiza a nota da coligação, o episódio escancara o cálculo político da operação: quem liquidou o Banco Master e determinou a prisão de seu controlador foi a atual gestão, o próprio governo Lula. A capa de revista, o HD clandestino e as entrevistas negociadas configuram a tentativa de embalar eleitoralmente uma delação que as instituições do Estado recusaram. E não é a primeira veZ que a capa da revista Veia se presta ao desserviço de atrapalhar o julgamento do eleitor brasileiro, acusando Lula falsamente.

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