Na política, algumas relações são construídas pelo cálculo.
Outras são construídas pelo caminho.
Minha admiração pelo camarada Orlando Silva nasce justamente daí: da possibilidade de reconhecer, na trajetória de alguém, uma disposição para caminhar ao lado das lutas sociais antes que determinadas pautas ganhem os holofotes das disputas eleitorais.
Quando olho para a relação de Orlando com a pauta LGBTQIA+, não vejo apenas declarações recentes. Vejo uma trajetória parlamentar que pode ser acompanhada por registros públicos.
Em 2015, Orlando apresentou o Estatuto das Famílias do Século XXI (PL 3369/2015), propondo o reconhecimento jurídico das diferentes formas de família e enfrentando, no próprio texto da proposta, questões relacionadas a gênero e orientação sexual.
No ano seguinte, seu projeto esteve no centro do debate do XIII Seminário LGBT do Congresso Nacional, ao lado de representantes e organizações do movimento.
Em 2017, outro episódio me chama especialmente a atenção.
Orlando apresentou requerimento para a realização do seminário “LGBTfobia e Racismo no Mundo do Trabalho”. Não estamos falando apenas de discutir diversidade como conceito: estamos falando de reconhecer que a LGBTfobia também produz exclusão econômica, limita oportunidades e atravessa a vida concreta de trabalhadores e trabalhadoras.
No mesmo período, houve a realização do XIV Seminário LGBT do Congresso Nacional, com o tema “Cidadania TRANS”.
São registros que demonstram uma preocupação em levar para dentro do Parlamento debates que há muito tempo já eram travados nas ruas pelo movimento social.
É por isso que, para mim, existe uma diferença importante entre estar próximo de uma pauta e simplesmente aparecer ao lado dela.
Quem vive a militância LGBTQIA+ sabe que nossa história não começou com as redes sociais, com a fotografia oficial ou com a campanha eleitoral.
Ela foi construída em reuniões, manifestações, enfrentamentos, projetos, conferências, organizações, coletivos e muitas vezes em momentos nos quais estar ao lado de uma determinada luta significava enfrentar incompreensão e resistência.
Antes do close, existe a caminhada.
E talvez seja justamente isso que mais admiro em Orlando: a capacidade de compreender a política como instrumento de construção coletiva.
Não significa dizer que tudo foi conquistado. Muito pelo contrário.
O próprio Estatuto das Famílias, apresentado em 2015, continua em tramitação. Isso mostra também os limites e as dificuldades que existem quando uma pauta social precisa atravessar as estruturas do Estado.
Mas uma trajetória política deve ser analisada também pelas sementes que planta, pelos debates que abre e pelos espaços que ajuda a construir.
Para quem atua no movimento LGBTQIA+, isso importa.
Importa porque representação não pode ser apenas presença em uma fotografia.
Representação também é abrir portas, criar espaços institucionais, ouvir movimentos, apresentar propostas e colocar determinados assuntos na agenda pública.
É nesse sentido que vejo o camarada Orlando Silva.
Não como alguém que chegou agora para falar sobre diversidade, mas como um parlamentar cuja trajetória registra momentos concretos de diálogo com essa agenda.
E, para mim, essa diferença tem significado.
Porque diversidade não é concessão. É direito.
E porque, antes da eleição, antes da campanha e antes do close, existe algo que considero ainda mais importante:
a caminhada.
É nela que aprendemos quem realmente escolheu andar ao nosso lado.