Dois caminhos para a vitória. Por Miguel do Rosário

O presidente Lula durante evento de campanha. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Miguel do Rosário, publicado no Cafezinho

“Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro!”, escreveu Vladimir Vladimirovitch Maiakovski, um dos grandes nomes da literatura revolucionária russa.

Em 1926, o ainda jovem poeta talvez expressasse a percepção de que o entusiasmo das massas russas e europeias pela possibilidade de um mundo novo, mais livre, não poderia ser satisfeito imediatamente por nenhum governo. Os obstáculos acumulados ao longo de séculos e as adversidades que se levantavam anunciavam uma luta longa e difícil.

Mas, para que o sonho permanecesse ardente e a esperança continuasse viva, era preciso alegria. E de onde arrancá-la, senão do futuro e da capacidade de sonhar?

Nestas eleições brasileiras de 2026, novamente é disso que se trata. A emergência das ruas nos últimos dias mostrou que o povo brasileiro não abandonou o presidente Lula. Ao contrário, centenas de manifestações espontâneas espalharam-se por cidades grandes, médias e pequenas em todas as regiões do país, chegando a se repetir em bairros populosos da periferia metropolitana, como Campo Grande, Bangu e Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

A magnitude desses atos, muitos deles entre os maiores da história brasileira, ressinaliza a possibilidade de mais uma virada épica e emocionante de Lula no segundo turno. Mais do que uma força eleitoral imediata, porém, as multidões oferecem um sinalizador de caminho. Com a juventude à frente, as ruas transmitiram um recado nítido ao mostrar que os jovens querem sonhar e estão propondo ao presidente uma aliança com o futuro.

Lula precisa pegar essa tocha oferecida pelas massas e levá-la adiante, tanto para conquistar a vitória nas urnas agora quanto para melhorar as condições de governabilidade durante o seu quarto mandato, de forma a efetivamente levar adiante realizações ambiciosas e transformadoras. Tudo indica que não será um período fácil para Lula nem para o campo progressista conduzir o país num ambiente doméstico e internacional tão turbulento, marcado pela ascensão da extrema direita. A mobilização popular abriu os portões, mas falta o governo entrar, oferecendo os sonhos necessários para manter essa chama acesa.

Nos últimos anos, a esquerda conseguiu recuperar símbolos fundamentais para a sociedade brasileira. Recuperou a bandeira nacional, a defesa da soberania e o discurso da ética, sobretudo diante da lama que passou a envolver a extrema direita e parte da grande mídia. Ainda assim, responder apenas às pautas imediatas de segurança pública ou reagir à agenda da oposição permanece insuficiente para abrir uma nova fase histórica no país.

Acabar com as apostas predatórias, as chamadas bets, foi uma medida extremamente positiva e corajosa do presidente Lula para interromper uma sangria que drenava recursos das famílias e da economia nacional. Da mesma maneira, assumir medidas firmes na segurança pública é indispensável e sempre foi uma bandeira cara à esquerda histórica e popular.

A violência urbana restringe a liberdade de trabalhar, estudar, circular e manter um pequeno negócio, atingindo sobretudo quem vive nas periferias e não pode pagar pela proteção dos condomínios fechados. Apenas setores de uma esquerda pós-moderna, muitas vezes acomodada no conforto de bairros nobres que já contam com segurança privada ou proteção especial do Estado, deixam de enxergar esse drama com a gravidade que ele exige.

Nada disso, contudo, constitui uma novidade estrutural capaz de iluminar o amanhã. Um governo conservador também poderia restringir as apostas, e o mundo não vai se abrir automaticamente para o Brasil apenas porque as bets acabaram. No debate sobre o rigor penal ou sobre a redução da maioridade penal, tampouco há espaço para o campo progressista se diferenciar, pois Flávio Bolsonaro e a extrema direita sempre poderão dobrar a aposta e propor a redução para 14 anos.

Programas como Bolsa Família, Pé-de-Meia e Vale Gás cumprem funções vitais para a dignidade imediata da população mais pobre. Entretanto, nenhuma família trabalhadora sonha que o horizonte de seus filhos e netos se resuma à perpetuação de auxílios estatais. As pessoas desejam prosperar pelo próprio trabalho, ganhar melhor e sentir aquele brilho nos olhos de quem sabe que a geração seguinte viverá em um país mais avançado.

Para galvanizar a energia que hoje ocupa as avenidas, a esquerda precisa recuperar a bandeira do desenvolvimento. Essa recuperação não pode se limitar à retórica vazia, porque a palavra desenvolvimento, sozinha, não diz nada. Assim como a palavra maçã não sacia a fome de ninguém até se transformar na fruta real que se pode morder, o conceito de desenvolvimento precisa ganhar carne e osso na vida cotidiana. Energia solar barata no bolso de cada cidadão e transporte público moderno sobre trilhos são os dois caminhos mais palpáveis para dar forma material a esse projeto.

A questão do custo de vida revela por que é urgente ter imaginação política. O Brasil registrou nos últimos quatro anos a menor inflação acumulada em décadas, desde o início das medições modernas. Ainda assim, esse resultado macroeconômico não se converteu automaticamente em alívio percebido por todas as famílias, permitindo que a oposição continuasse explorando o aperto no orçamento doméstico como sua principal bandeira de campanha.

A matemática por trás desse fenômeno é simples. Mesmo com a queda da inflação geral, as necessidades de consumo mudaram porque a vida moderna se eletrificou de maneira intensa. O gasto com eletricidade continua subindo à medida que os lares demandam mais aparelhos para garantir o bem-estar básico. Na pesquisa do IBGE realizada entre 2017 e 2018, a energia elétrica já consumia 4,4% da despesa total das famílias na faixa mais pobre e 3,2% na faixa de três a seis salários mínimos, contra apenas 0,9% entre os mais ricos.

A comparação internacional demonstra que tarifas menores são plenamente viáveis. Para um mesmo consumo residencial de 500 quilowatts-hora, o valor cobrado na área de concessão da Enel Rio chega a cerca de duas vezes e meia o praticado em Pequim, considerando o câmbio de outubro de 2026.

O contraste é ainda mais expressivo diante das vantagens naturais brasileiras. O país dispõe de sol abundante o ano inteiro, imensos recursos hídricos e uma matriz elétrica limpa. Em 2025, cerca de 87% da geração elétrica do Brasil veio de fontes renováveis, contra aproximadamente 38% na China, que ainda depende fortemente do carvão apesar de seus avanços recentes. Essa vantagem ambiental brasileira precisa se converter em tarifa barata para o povo.

Hoje, a instalação de painéis solares no Brasil transformou-se num privilégio restrito à elite e a quem possui crédito bancário aprovado. Milhões de famílias endividadas encontram as portas dos bancos fechadas e ficam impedidas de realizar um investimento que derrubaria suas despesas fixas pelos próximos anos.

Nas grandes cidades, onde a menor circulação de ar torna o ambiente cada vez mais abafado, as famílias querem ligar o ar-condicionado sem medo da fatura no fim do mês, assim como os moradores do Sul precisam usar aquecedores durante o inverno. Uma energia abundante e barata garante o uso pleno do chuveiro elétrico, da máquina de lavar e dos eletrodomésticos que poupam trabalho doméstico e trazem conforto à casa.

Essa mesma eletricidade barata tem força para impulsionar uma revolução produtiva nas comunidades e periferias. Com a conta de luz reduzida, o trabalhador pode adquirir uma segunda geladeira para produzir e vender comida congelada, montar uma oficina de costura, abrir uma pequena indústria artesanal ou até operar pequenos centros de processamento de dados e serviços digitais. Todo o debate sobre a reindustrialização nacional precisa chegar a essa escala capilar, permitindo que o pequeno empreendedor trabalhe sem ser sufocado pela tarifa elétrica.

Em vez de atuar apenas no resgate passivo de dívidas antigas, o governo Lula pode dar um passo além do programa Desenrola e lançar um grande programa nacional de crédito para a instalação de energia solar. Sem precisar gastar recursos diretos do orçamento a fundo perdido, o Estado entraria com um fundo garantidor e um seguro público para destravar o financiamento bancário às famílias e aos pequenos negócios.

Com juros adequados e uma carência inicial de um ano, o cidadão sentiria primeiro o alívio real da redução na conta de luz para, em seguida, pagar as parcelas paulatinamente com a própria economia gerada pelo sistema. Instalações certificadas, regras transparentes e modelos de geração compartilhada ou comunitária permitiriam incluir também quem mora de aluguel ou em apartamentos, unindo pobres e classe média em torno de uma conquista universal.

O outro caminho passa pelos trilhos

Lula no trecho da Transnordestina no Ceará. Foto: Reprodução

O segundo caminho para materializar o desenvolvimento exige uma revolução na mobilidade urbana e ferroviária. Se o governo deseja manter as multidões mobilizadas e oferecer um horizonte de modernidade à juventude, precisa responder até mesmo à pergunta prática sobre como essas pessoas voltam para casa todos os dias nas grandes metrópoles. Para enxergar a dimensão dessa mudança, Lula precisa ir além da memória afetiva que marcou a sua própria geração sindical.

O automóvel que Lula comprou em 1973, quando era metalúrgico no ABC paulista, simbolizava a promessa de ascensão social pelo trabalho fabril. Operários empregados nas montadoras que então representavam a vanguarda da indústria global conquistavam bons salários e viam no carro próprio o passaporte para um padrão de vida de classe média, cercado por uma sensação inédita de autonomia e liberdade.

Para a juventude brasileira de hoje, a realidade do automóvel é oposta e já não carrega aquele sentido emancipador. Salvo para quem pretende usar o veículo como instrumento de trabalho em aplicativos como a Uber, comprar um carro deixou de valer a pena para a maioria dos jovens. Com os preços atuais e os juros elevados, o financiamento amarra o trabalhador por 30 ou 40 meses, consome mais da metade do seu salário e ainda traz gastos contínuos com seguro, impostos, combustível, manutenção e estacionamento.

Depois de todo esse sacrifício financeiro, o motorista fica preso no engarrafamento. Qualquer alegria inicial pela compra se esvai em poucos meses diante das horas perdidas diariamente no trânsito congestionado das metrópoles.

É espantoso que o governo federal participe de investimentos importantes em infraestrutura, mas o próprio presidente pareça não enxergar o potencial político do que faz nessa área. Enquanto Lula repete com orgulho que o país voltou a vender milhões de automóveis por ano e concentra suas falas nos programas sociais, termos como mobilidade urbana, metrô, trem, ferrovia e trilhos praticamente não aparecem em seus discursos. O jovem e o trabalhador pobre não estão comprando carro zero, e insistir apenas nessa imagem significa falar para o passado.

A verdadeira novidade emancipadora do século XXI é um transporte coletivo de alta capacidade, rápido e digno. Aglomerações urbanas brasileiras como as regiões metropolitanas de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Recife possuem dimensões populacionais comparáveis às de grandes centros chineses. Mesmo sem ter a mesma riqueza de recursos naturais do Brasil e com uma renda per capita que não é tão distante da nossa, a China transformou a vida de sua população ao priorizar redes gigantescas de metrôs e trens modernos.

O governo deveria inclusive mostrar visualmente ao país, em vídeos e projetos claros, como seria o cotidiano brasileiro com uma malha ferroviária e metroviária integrada. Em vez de comprometer a renda familiar por anos na compra individual de um veículo, o passageiro paga uma tarifa modesta pelo deslocamento e usufrui de uma infraestrutura bilionária compartilhada por milhões de pessoas.

Um trem rápido e confiável muda o destino de uma família trabalhadora. Ele permite chegar com rapidez a um hospital especializado, levar um filho ao médico, cursar uma universidade distante de casa ou aceitar um emprego mais qualificado do outro lado da metrópole. Combinado ao planejamento urbano e a políticas habitacionais, o transporte sobre trilhos permite morar em bairros mais tranquilos e arborizados sem condenar o cidadão ao isolamento.

Essa qualidade precisa abranger o percurso inteiro, com frequência regular, segurança, limpeza e ar-condicionado funcionando nos trens e nos ônibus integrados. As próprias estações devem ser projetadas como centros de convivência e cidadania, protegidas do sol e da chuva, dotadas de acessibilidade plena, banheiros limpos, internet gratuita, bibliotecas, postos de saúde e agências de serviços públicos.

Integrar essa rede de trens, metrôs, ônibus, barcas, rodoviárias e aeroportos às universidades, aos hospitais e aos polos de trabalho devolve a cidade aos seus moradores. Quando as estações também se aproximam dos locais de votação e o deslocamento se torna fácil e barato, o transporte coletivo fortalece a própria democracia e ajuda a combater a abstenção eleitoral.

A recente aprovação do fim da escala 6×1 e o avanço rumo à jornada 5×2 representam uma das maiores vitórias da classe trabalhadora brasileira desde a era Vargas. Para que essa conquista se sustente do ponto de vista da produtividade econômica e alcance também os milhões de trabalhadores informais ou autônomos que trabalham seis ou sete dias por semana, o país precisa reduzir seus custos estruturais e devolver tempo de vida às pessoas. De nada adianta conquistar um dia a mais de descanso se o trabalhador continuar entregando horas preciosas da sua semana a viagens exaustivas e desconfortáveis no transporte público.

Energia solar acessível e mobilidade moderna sobre trilhos oferecem esse salto de produtividade e bem-estar num projeto verdadeiramente universal. Ao contrário de medidas segmentadas, são conquistas que beneficiam pobres, remediados e ricos, homens e mulheres, negros e brancos, jovens e idosos, trabalhadores com carteira assinada e autônomos.

Quando toda a sociedade reconhece que um projeto melhora concretamente a sua rotina, reduz-se o espaço para a polarização destrutiva. Afinal, um trem moderno e a luz do sol gerando energia barata não são, em si mesmos, comunistas nem capitalistas. As ferrovias foram decisivas para a integração territorial e o progresso econômico dos Estados Unidos no passado, assim como os trilhos de alta velocidade constituem hoje o pilar da modernização chinesa.

Oferecer um projeto nacional que una o país, com apoio redobrado a quem enfrenta maiores obstáculos, é a melhor maneira de devolver conteúdo real à palavra desenvolvimento. As ruas já fizeram a sua parte e abriram as portas da história neste segundo turno. Falta agora o governo entrar, ocupar esse espaço e oferecer à juventude brasileira um futuro pelo qual valha a pena lutar.

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