
Leandro Cipoloni, diretor nacional de jornalismo do SBT, era meu estagiário em 1998, num jornal chamado A Gazeta Esportiva, que não existe mais.
Naquela época, como um último suspiro, a direção inventou de criar uma seção de noticiário geral, além das notícias do esporte.
Me puseram nessa aventura.
Era um caderno de quatro páginas.
Para a edição de domingo, que a gente fechava na madrugada de sexta para sábado, criamos seções fixas, interpretativas.
Uma delas era uma cópia da Folha: quem subiu, quem desceu.
Eu vivia um momento particularmente difícil.
Era fã, amigo, eu diria, do então governador Mário Covas, que era torturado pela grande imprensa todos os dias.
Fechamos, eu e o Leandro, a edição do Gazetão do domingo anterior ao segundo turno.
Foi uma facada no peito, porque o Leandro sempre foi corajoso o suficiente para não trair ninguém pelas costas.
“Você vai fazer isso?”, eu perguntei.
“Sim”, ele respondeu.
E cravou que Covas era o personagem que descia ladeira abaixo naquela semana.
Fechei a página com minhas convicções.
O troco veio nas urnas: o governador acabou reeleito e selou a morte política de Maluf.
Não era apenas uma previsão que havia dado errado. Era a impressão, que eu tinha naquela época, de que parte da imprensa já havia decidido como aquela história deveria terminar.
Por que conto isso?
Porque percebo hoje, quase 30 anos depois, a mesma má vontade com Lula na imprensa. A 12 dias do segundo turno, o presidente não tem um dia sequer de folga, enquanto seu adversário, Flávio Bolsonaro, navega em mar calmo, a despeito de toda sorte de denúncias que envolvem seu nome.
Não se trata de esconder as dificuldades de Lula, que existem e são reais. Trata-se de uma cobertura que parece transformar cada dificuldade do presidente numa sentença de derrota, enquanto os problemas de Flávio recebem um tratamento muito mais complacente.
A impressão é de que a imprensa não está apenas acompanhando a disputa. Parte dela parece empenhada em convencer o eleitor de que o resultado já está escrito.
Não sei o que se passa na cabeça do meu ex-estagiário, ainda que sua predileção pelo campo da direita já se manifestasse com força naquele segundo turno entre Covas e Maluf.
Mas a questão vai muito além dele.
A história, mesmo que não se repita necessariamente, às vezes rima.
Em 1998, vi uma cobertura que parecia anunciar um resultado que as urnas não confirmaram.
Quase 30 anos depois, tenho a impressão de assistir ao mesmo espetáculo.
Desta vez, espero que as urnas também contem uma história diferente daquela que parte da imprensa parece insistir em contar.
E que lembrem a essa imprensa de uma coisa que ela às vezes parece esquecer: eleição não se decide nas redações.