
O ator Wagner Moura, o diretor Kleber Mendonça Filho e dezenas de profissionais brasileiros integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgaram uma carta aberta manifestando preocupação com o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, marcado para 25 de outubro. O documento, publicado com exclusividade pela revista americana Variety neste sábado (10), pede atenção da imprensa internacional diante das ameaças à democracia e das suspeitas de interferência estrangeira no processo eleitoral.
Entre os signatários estão os cineastas Fernando Meirelles, Petra Costa, Alê Abreu e Karim Aïnouz, as atrizes Alice Braga e Sônia Braga, a produtora Emilie Lesclaux e Rodrigo Teixeira, produtor vencedor do Oscar por “Ainda Estou Aqui”. Também assinam o documento Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Gabriel Mascaro, Carolina Markowicz, Anita Rocha da Silveira e Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio.
A carta destaca que a diferença entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno foi de apenas 1,87 ponto percentual. Os artistas afirmam que o país enfrenta uma profunda divisão política e denunciam sinais preocupantes de desrespeito às normas democráticas. Entre os episódios mencionados estão suspeitas de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
O documento cita uma investigação do jornal britânico The Guardian segundo a qual o governo americano destinou aproximadamente US$ 1 milhão de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado ao programa “Combatendo o Lawfare e a Censura no Brasil”. Os signatários defendem uma investigação transparente sobre o financiamento e seus possíveis efeitos no processo eleitoral.
Os profissionais também mencionam denúncias de redução do alcance de conteúdos políticos nas plataformas da Meta. Segundo a carta, perfis do presidente Lula no Instagram enfrentaram dificuldades de acesso, perda de visibilidade nas buscas e restrições para impulsionar publicações pagas. O texto cita ainda um site sediado nos Estados Unidos que oferecia anúncios favoráveis a Flávio Bolsonaro em troca de criptomoedas, sob a promessa de ajudar crianças carentes de Uganda. Outra preocupação envolve investigações da Polícia Federal sobre suspeitas de pagamentos em dinheiro a eleitores de áreas rurais.

Um dos principais pontos do manifesto é a proposta de Flávio Bolsonaro de reescrever a Constituição de 1988, promulgada após o fim da ditadura militar. Segundo os artistas, o candidato pretende entregar a elaboração de uma nova Carta a um Congresso dominado pela extrema-direita. O documento também recorda a trama golpista atribuída a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, e a promessa de Flávio de conceder anistia ao pai como primeiro ato de um eventual governo.
A carta critica ainda a atuação de parte da imprensa brasileira, acusada pelos signatários de tratar com naturalidade acontecimentos que consideram graves. Os profissionais afirmam que denúncias contra Flávio Bolsonaro e crimes atribuídos ao pai não recebem a atenção necessária. O texto relembra a denúncia apresentada ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, sobre a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo Bolsonaro, período em que o Brasil registrou mais de 600 mil mortes. Segundo a denúncia mencionada, mais da metade dessas mortes poderia ter sido evitada.
Na área econômica, os artistas manifestam preocupação com as propostas de Flávio Bolsonaro de reduzir gastos previdenciários seguindo políticas de austeridade adotadas pelo presidente argentino Javier Milei. O documento também recorda o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU durante o governo anterior e os efeitos das políticas de Bolsonaro sobre a produção cultural brasileira.
Os signatários citam o fechamento do Ministério da Cultura, a paralisação do Fundo Setorial do Audiovisual, o enfraquecimento de instituições culturais e denúncias de censura durante a gestão de Jair Bolsonaro. Para os profissionais, uma eventual vitória de Flávio representa o risco de retomada dessas políticas, com consequências para a liberdade de expressão e a sustentabilidade do cinema nacional.
Ao final, os integrantes brasileiros da Academia relacionam a situação do país a um cenário mais amplo de suspeitas de interferência eleitoral na América Latina. Eles pedem que a imprensa estrangeira acompanhe rigorosamente a votação, que a comunidade audiovisual internacional amplie a discussão e que as instituições responsáveis investiguem as denúncias de maneira independente.
“A defesa da democracia brasileira deve, portanto, caber não apenas ao povo brasileiro, por meio de eleições livres, justas e transparentes, mas também à vigilância e ao envolvimento da comunidade internacional”, afirma a carta, em tradução do original.