
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, incluiu o nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra entre as tags utilizadas na live realizada na noite de quinta-feira (1º), após desistir do debate da TV Globo. O termo aparece nos metadados da transmissão ao lado de palavras e nomes como “Bolsonaro”, “Lula”, “comunismo”, “direita”, “esquerda”, “Dilma”, “Karl Marx”, “Rede Globo” e “Olavo de Carvalho”.
As tags não aparecem normalmente para quem assiste ao vídeo, mas podem ser identificadas por extensões que acessam os metadados públicos do YouTube. A denúncia foi feita pela jornalista Daniela Lima, no Uol.
A plataforma define o recurso como palavras-chave adicionadas pelo responsável pelo vídeo para ajudar na identificação de seu conteúdo, embora diga que atualmente elas têm papel pequeno na descoberta de vídeos, inferior ao título, à miniatura e à descrição.
Usar Ustra como hashtag para fisgar audiência é mais que velhacaria: é uma escolha política. Quem quer ser presidente do Brasil e precisa recorrer ao nome de um torturador da ditadura para chamar atenção revela, nessa escolha, um incômodo desprezo pela democracia e pela memória… pic.twitter.com/CPqHudLWKf
— FINCØ (@finc0) October 2, 2026
A transmissão de Flávio ocorreu no horário originalmente reservado ao último debate presidencial da Globo. O senador havia desistido do encontro horas antes e passou a noite fazendo uma live com aliados, na qual criticou decisões da Justiça Eleitoral e pediu votos na reta final da campanha.
A presença de Ustra entre as palavras escolhidas para caracterizar a transmissão chama atenção pelo histórico de Flávio em relação ao coronel, que comandou o DOI-Codi de São Paulo durante a ditadura militar. A Justiça paulista reconheceu Ustra como responsável pela prática de tortura em decisão posteriormente mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
O nome do militar já havia sido exaltado por Flávio anos antes. Em uma biografia de Jair Bolsonaro publicada em 2017, o atual candidato à Presidência defendeu o pai pela homenagem feita a Ustra durante a votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Na obra, Flávio descreveu o coronel como “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”. O livro também apresenta uma visão favorável à atuação das Forças Armadas durante a ditadura e rejeita a caracterização da ruptura institucional de 1964 como golpe.
“Que golpe foi esse em que o Congresso, com respaldo constitucional, afasta um presidente? […] Ou seja, só houve golpe nos livros de ‘estória’ do MEC”, escreveu Flávio.
Em outro trecho, afirmou que os militares “deveriam ser tratados como heróis nacionais por terem evitado que o Brasil se tornasse uma ditadura socialista” e classificou a Comissão Nacional da Verdade como uma iniciativa revanchista.
O candidato também questionou no livro a versão reconhecida pelo Estado brasileiro sobre a morte e o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva e manifestou apoio à atuação dos policiais no massacre do Carandiru.
A publicação ainda registra antigas desconfianças de Flávio sobre as urnas eletrônicas. “Se não há como provar que houve a fraude, como provar que ela não aconteceu?”, escreveu, ao defender o voto impresso. A Justiça Eleitoral afirma que o sistema eletrônico é auditável e possui diferentes mecanismos de fiscalização.