
Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Há alguns anos venho tentando me aprofundar nisso, para entender melhor e saber agir. E hoje percebo que as ações de guerra híbrida, que ganharam força a partir de 2012, 2013, já fizeram boa parte do trabalho de moldar como a gente pensa, através de operações de informação e desinformação e operações psicológicas embutidas nos meios de comunicação, inflando as disputas de narrativa.
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Inclusive aqui no Brasil, um dos resultados aparece hoje numa figura curiosa, que é a do sujeito que se diz liberal, que defende a liberdade total de ter arma, de apostar em bets, que grita por uma “liberdade de expressão” sem regras, mas que trava completamente quando o assunto é aborto ou descriminalização de drogas, porque aí entra a moral da família ou religiosa. Essa contradição é fruto de um trabalho psicológico e político que já vinha sendo feito, muito antes do Trump aparecer do jeito que aparece hoje. Não se trata de acaso ou acidente. As linguagens que atingem nosso íntimo na grande rede têm precisão cirúrgica. De certo modo nos tornamos um pouco produto de uma experiência que se inicia na virada do século passado para hoje, com o advento da era digital e seus dutos, plataformas e redes sociais.
Big techs desafiam a democracia e favorecem a extrema direita
A humanidade em exame é um universo humano em bolhas, mergulhadas em polarização afetiva. Não basta querer pontuar, explicar racionalmente, apontar um erro ou contradição, por mais paciência que se tenha. As pessoas se adestraram na sobrevivência em rede. Defender um ponto de vista pode significar lutar até as últimas consequências contra o fantasma de uma ameaça de aniquilação pelo diferente, ou pela incerteza da abertura ao que não se sabe ou se tem certeza. E é aí que entra a figura de certo modo assustadora, narcísica e histriônica de Donald Trump.
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Tenho a convicção de que ele representa um passo adiante nesse processo todo. Hoje, Trump não mais se articula naquela operação indireta, meio disfarçada. Ele governa sem mediação nenhuma, mesmo mantendo alguma diplomacia formal, com figuras como Marco Rubio, e outros nomes ali, mas o jeito dele de agir de verdade é outro, é discurso e ação direta, ameaça, vídeo gravado a portas fechadas falando direto pro eleitorado dele, direto pra população, sem passar por ninguém no meio do caminho. Essa fala direta, sem o filtro das instituições, sem intermediário nenhum, produz um efeito de inflamação muito mais rápido. E encontra um terreno que já estava preparado, justamente por esse trabalho realizado sobre o nosso imaginário coletivo, suscetível a receber ordens diretas de quem promete proteção contra a ameaça de aniquilação pelo diferente.
Talvez Trump nem precise mais disfarçar operação nenhuma, porque o terreno já estava pronto antes dele. Não foi a sociedade que abriu mão sozinha da mediação, da dúvida, da paciência de ouvir o contraditório. Foi um mundo formatado por trás das telas, pelas big techs e pelos grandes investidores que sustentam esses impérios, que lucram exatamente com a velocidade da reação e o curto-circuito da reflexão. Trump não chegou por acaso a essa porta destrancada. Ele serve a quem a destrancou. Fala a língua nativa da bolha porque já sabia como esse ambiente funcionava, sabia falar diretamente para ele e sabia alimentar seus medos, ressentimentos e certezas.
Arrisco dizer que ele é também instrumento desse mesmo projeto, não seu autor.
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*Lucio Massafferri Salles é filósofo, psicólogo e psicanalista, jornalista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e mestre em Filosofia pela UFRJ, especialista em Psicanálise pela USU, realizou pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de Raízes Sofísticas: a palavra como fármaco e A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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