
Uma nova indústria de propaganda política está pagando pequenos criadores para inundar TikTok, Instagram e YouTube com vídeos que parecem espontâneos, mas foram produzidos sob encomenda. Em muitos casos, quem aparece relatando problemas locais sequer vive no lugar sobre o qual fala.
Um dos exemplos é o de “Drew”, que publicava vídeos dizendo ser um jovem que enfrentava dificuldades financeiras perto de Dallas, no Texas. Reclamava da disparada dos preços dos alimentos e dizia procurar brechós para economizar. Um de seus vídeos, comparando o custo de vida no Texas e na Califórnia, chegou perto de 3 milhões de visualizações.
Mas “Drew” era Alex Forrester, um homem de Utah que afirmou estar morando na Flórida. Em junho, ele próprio revelou a farsa em um vídeo posteriormente apagado: “Tudo aquilo foi pago”. E acrescentou: “Eu nem moro no Texas”.
Forrester estava entre mais de 100 criadores identificados pelo New York Times que receberam dinheiro de um grupo progressista para publicar vídeos sobre o custo de vida. O pagamento chegava a US$ 30 por postagem e poucas publicações informavam ao público que se tratava de conteúdo patrocinado.
A estratégia se espalhou pela política. Campanhas semelhantes pagaram pessoas comuns para promover um candidato republicano à prefeitura de Los Angeles, atacar um projeto sobre criptomoedas e defender maior regulação da inteligência artificial. Neste mês, uma organização sem fins lucrativos não identificada chegou a oferecer até US$ 1.500 por vídeos favoráveis ao funcionamento do voto pelo correio.
Social media is filled with creators who are getting paid to post political messages.
“Drew” posted about the struggles of living in Texas (3M views on TikTok). Then he later confessed: “I don’t even live in Texas.” And his name is not Drew.https://t.co/eVqWCMmyMx pic.twitter.com/HmkLfqObQ1
— Mike Baker (@ByMikeBaker) September 22, 2026
O objetivo não é contratar grandes influenciadores, que podem cobrar US$ 25 mil ou mais por um único vídeo. A nova estratégia consiste em mobilizar dezenas ou centenas de contas pequenas, pagando pouco por postagem e produzindo conteúdo em massa. A enxurrada pode fazer os algoritmos das redes interpretarem uma campanha coordenada como uma discussão espontânea e ampliar ainda mais sua circulação.
“Isso é astroturfing digital, puro e simples”, afirmou Samuel Woolley, professor da Universidade de Pittsburgh que pesquisa manipulação da opinião pública na internet. Segundo ele, quanto mais uma ideia aparece nas redes, mais familiar, comum e aceitável ela tende a parecer.
Em alguns casos, a encenação atravessa fronteiras. Apenas cerca de um terço dos participantes de uma campanha sobre custo de vida aparentemente morava nos estados americanos sobre os quais publicava. Um homem que dizia ter “nascido e crescido” no Texas era, segundo seu perfil, de Leicestershire, na Inglaterra. Uma mulher contratada para falar sobre dificuldades econômicas nos Estados Unidos vivia em Ontário, no Canadá.
Outro criador, chamado Harvey, publicou dezenas de vídeos reclamando dos preços dos aluguéis e da gasolina no Texas. Na realidade, seu perfil indicava que ele era Harvey Whitehead, também de Leicestershire. Em alguns vídeos, seu sotaque britânico era claramente perceptível.
A prática também beneficia políticos republicanos. Desde maio, criadores receberam US$ 1,50 por mil visualizações para publicar vídeos favoráveis ao governador da Flórida, Ron DeSantis. As instruções sugeriam legendas elogiosas e estabeleciam uma regra explícita: “Não pode fazer Ron parecer mal”. A campanha teria produzido mais de 1.400 vídeos e ultrapassado 6 milhões de visualizações.
Parte desse material nem sequer era produzida nos Estados Unidos. Uma conta criada em abril e localizada no Paquistão publicou um vídeo com Joe Rogan aparentemente reagindo a DeSantis. Outras operações políticas semelhantes foram rastreadas até contas na Nigéria, Índia, Turquia e Filipinas.
A lógica econômica foi resumida por Drew Levin, cofundador de um mercado de conteúdo chamado SideShift: “Por que gastar US$ 1.000 em um vídeo quando você pode gastar US$ 1.000 em 30 vídeos?”
O resultado é uma espécie de câmara de eco de baixo custo. Em vez de uma propaganda política claramente identificada, centenas de pessoas e contas aparentemente independentes repetem argumentos semelhantes, muitas vezes sem informar que receberam dinheiro. A mensagem parece nascer espontaneamente das redes, embora possa ter sido planejada, roteirizada e paga por organizações políticas ou grupos cuja identidade nem sempre é revelada.