Moderado? Flávio Bolsonaro é mais perigoso que o pai, diz historiador na Folha

Flávio e Jair Bolsonaro. Foto: reprodução

O historiador Diogo Cunha, em um artigo de opinião publicado na Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (23), escreveu que Flávio Bolsonaro é mais perigoso para a democracia que Jair, não por ser mais radical, mas por parecer moderado. Segundo o autor, enquanto o pai tentou um golpe de forma impulsiva e fracassou, o senador é mais disciplinado e integrado ao sistema, podendo subverter a democracia “por dentro”.

No texto, Cunha descreve o cenário de 2026 como mais favorável a isso: STF enfraquecido (com quatro ministros a serem nomeados), um Congresso conservador e a interferência de Trump, que agora recompensa a erosão democrática em aliados. O perigo não são tanques nas ruas, mas decisões legais que esvaziem a democracia. Leia trechos do texto de Diogo Cunha:

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, é mais perigoso para a democracia do que o pai, Jair. Não por ser mais radical, mas por parecer mais moderado.

O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções — basta olhar a trajetória do 01 —, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho.

[…]

Obstáculos institucionais, contudo, não são garantia da sobrevivência da democracia. Se o Legislativo pode funcionar como contrapoder, nada garante que um Congresso Nacional conservador não possa se tornar aliado de um eventual processo de autocratização. Mais significativo, na conjuntura de 2026 — e diferentemente da de 2018 — é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfraquecido por uma crise de legitimidade sem precedentes, como também quatro ministros podem ser nomeados pelo próximo presidente.

Há, enfim, outra diferença em relação a 2018: um segundo governo Donald Trump elevou a interferência na América Latina a um novo patamar e está determinado a influenciar as eleições para favorecer a vitória de candidatos da extrema direita em todo o continente.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Foto: reprodução

[…]

O que se vê hoje é uma inversão desse mecanismo: a principal potência hemisférica, sob o comando de Trump e Marco Rubio, deixou de elevar os custos da erosão democrática e passou até mesmo a recompensá-la — desde que praticada por governos ideologicamente alinhados a Washington.

O cenário mais perigoso talvez não seja o de tanques nas ruas, mas o de uma sucessão de decisões formalmente legais, aprovadas por maiorias parlamentares conservadoras, respaldadas pelos EUA e justificadas como correções dos “abusos” de um STF agora “moralizado”, sem Alexandre de Moraes e com novos ministros bolsonaristas, além de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Em 2022, a democracia brasileira sobreviveu a Jair, que anunciava quase diariamente sua disposição de golpeá-la. Talvez o perigo maior venha de Flávio, que pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela.

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