Espaço Cultural Elza Soares recebe homenagem a Elifas Andreato

Raquel Tobias é uma das principais vozes do samba paulista contemporâneo e homenageia Elifas Andreato neste sábado (26). Foto: Divulgação

Por Vitor Peruch
Da Página do MST

A cantora e compositora Raquel Tobias sobe ao palco do Espaço Cultural Elza Soares, no Campos Elíseos, em São Paulo, no sábado (26), às 15h, para uma homenagem a Elifas Andreato, que completaria 80 anos em 2026. A entrada é gratuita. No mesmo dia, o espaço inaugura oficialmente um novo mural com obras do artista, que se soma ao painel pintado em 2022 pela Brigada de Artes Visuais Cândido Portinari, do MST.

O show é o segundo do “Som das Capas”, série de três apresentações que transforma em música as capas de discos criadas por Elifas, como “Nervos de Aço”, de Paulinho da Viola, “Luz das Estrelas”, de Elis Regina, e “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. Cada encontro reúne canções de quatro capas, com histórias e bastidores das imagens. A direção é de Bento Andreato, filho do artista e diretor do Instituto Elifas Andreato.

Mas quem chega ao show por causa das capas encontra também um artista que passou a vida ao lado do povo organizado. Nascido em Rolândia (PR), em 1946, Elifas fez da arte, durante a ditadura militar, instrumento de resistência e de defesa da democracia. Segundo Bento, esse compromisso vinha de longe: “Meu pai, ao longo da carreira dele, se envolveu muito com os movimentos sociais, desde a fundação do Partido dos Trabalhadores, onde ele fez um primeiro cartaz, que era da greve, que foi vendido para construir os fundos para montar o partido.”

Semeador é uma das obras de Elifas conhecida pelo Movimento Sem Terra. Foto: Arquivo Elifas Andreato/Divulgação

E não foi um envolvimento pontual: “A temática do meu pai, ligada aos temas dos movimentos sociais, do trabalho, da justiça, da terra, da inclusão, são temas transversais na obra dele. Ele é um cara que a vida inteira se envolveu em movimentos sociais e emprestou sua obra para isso. Posso listar aqui uma porção: desde o movimento das mulheres, desde o movimento da terra, desde o movimento dos direitos humanos, toda a luta dele pela democracia, temas ligados à fome e, mais do que isso, obras que traziam a questão da inclusão social, do olhar para o povo brasileiro.”

O Semeador semeando estrelas

Uma das obras de Elifas que o campo conhece bem também está no espaço. “Tem uma ilustração muito importante e que já foi usada por diversos movimentos ligados à terra, que é o Semeador, o Semeador semeando estrelas, que é uma obra muito significativa. Tem, inclusive, no mural do Galpão”, conta Bento.

Bento Andreato é Produtor cultural, VJ, designer, diretor artístico e roteirista. Foto: Divulgação

O painel já existente foi feito em março de 2022 pela Brigada de Artes Visuais Cândido Portinari, do MST, quando o grupo chegou ao espaço para pintá-lo e soube da morte de Elifas, em 29 de março. Segundo Evelaine Martines Brennand, integrante da Brigada, o grupo já conhecia a obra do artista: “Antes de fazermos a pintura, já estávamos estudando e admirando as ilustrações do Elifas. Sabíamos de sua trajetória e da importância do seu trabalho, e que sua arte deve ser considerada um dos mais potentes instrumentos de resistência cultural e política contra a ditadura militar e no processo de democratização do país.”

O tema só se definiu na chegada ao espaço, e a data pesou: “Quando chegamos ao Espaço, no dia 29 de março de 2022, tivemos a triste notícia de que Elifas tinha partido, e foi nesse momento que soubemos que era a hora exata de fazer uma homenagem.” Para valorizar a cultura popular, como propõe o Espaço Cultural, a Brigada escolheu as colagens dos anos 1990 sobre sambas-enredo de carnavais do Rio de Janeiro e imagens que simbolizavam “a democracia e a questão agrária, constituindo um grande cortejo de semeadura de alegria e sonhos… Por terra, arte e pão”.

A pintura foi coletiva: “Escolhemos coletivamente cada arte: realizamos um trabalho de vetorização para transformá-las em linhas, fizemos o fundo preto, projetamos, riscamos e convidamos a militância que atua nos diversos espaços do MST para, junto com a Brigada Portinari, fazermos coletivamente esta homenagem.” Para Evelaine, é uma forma de preservar uma memória: “Para nós, do MST, é fundamental buscar as experiências artísticas dos diversos criadores que contribuíram e contribuem para a luta pela justiça social, para nos referenciarmos em seu acúmulo técnico e estético e preservarmos a memória da luta de Elifas, para que ele continue nos servindo de exemplo na produção das nossas artes.”

O resultado emocionou o filho do artista: “Fiquei muito surpreso e muito feliz quando cheguei lá e vi. Ele já não estava mais aqui, mas certamente está muito feliz, porque a gente sempre admirou, eu admiro, ele sempre admirou muito o MST, esse movimento importantíssimo no Brasil e no mundo. Ter obras do meu pai lá é motivo de alegria, de orgulho, e só fortalece que estamos no caminho certo de se juntar com gente boa, com gente que faz, com gente que a gente acredita e que acredita num Brasil mais democrático, mais diverso, mais inclusivo. Um Brasil que seja bom para todos, não para poucos.”

Para Bento, o “Som das Capas” também é uma forma de devolver essa obra a quem Evelaine retratou: “O grande patrimônio do Brasil é o nosso povo, não esse povo que fica lá em Brasília, engravatado, mas esse povo que está na rua, que está no campo, que está na cidade, que está fazendo cultura, que está dando comida para quem precisa. É um orgulho e uma honra muito grande.”

Samba paulista no palco

Nascida na Zona Sul de São Paulo, Raquel Tobias é uma das vozes do samba paulista contemporâneo, com trajetória ligada às rodas de samba, ao samba de raiz, ao samba-rock, ao soul e à MPB. Participou de projetos dedicados à memória e à renovação do samba na cidade, como Samba de Todos os Tempos, Samba de Dandara e Mulheres no Sincopado, e já dividiu o palco com Fabiana Cozza, Teresa Cristina e Sombrinha.

O primeiro show da série teve Zeca Baleiro, em 30 de agosto, na Praça Vladimir Herzog. O encerramento será com Os Prettos, em 5 de novembro, na Sala Olido.

Serviço

Som das Capas – Raquel Tobias
26 de setembro de 2026, às 15h
Espaço Cultural Elza Soares – Alameda Eduardo Prado, 474, Campos Elíseos, São Paulo (SP)
Entrada gratuita | Classificação livre

*Editado por Aline Antunes

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