O governo de Donald Trump exigiu que o Brasil permitisse a participação de supostos “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. A condição foi incluída em uma proposta para aliviar o tarifaço de 50% imposto ao país, segundo documento obtido pelo Estadão.
“O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, exigia o texto enviado pelos Estados Unidos.
Integrantes do governo brasileiro ouvidos pelo jornal afirmaram que a demanda buscava garantir a participação de Jair Bolsonaro.
O ex-presidente havia sido condenado um mês antes a 27 anos e três meses de prisão pela tentativa de golpe e já estava inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral.
O documento foi recebido pelo Itamaraty em 16 de outubro de 2025, durante uma viagem do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a Washington. O chanceler considerou a proposta “inaceitável”, afirmou que ela “não era base para nada” e determinou que o texto fosse retirado das negociações formais.
A exigência comprova que o governo Trump tentou interferir diretamente nas eleições brasileiras enquanto usava o tarifaço para pressionar o governo Lula. O conteúdo foi mantido em sigilo pelos dois países até ser revelado nesta quinta-feira (17).
A proposta fazia parte de uma lista com 21 exigências apresentadas pelos Estados Unidos como ponto de partida para um acordo sobre as tarifas de 50% aplicadas aos produtos brasileiros.
Ao menos dois integrantes da comitiva receberam o documento por e-mail antes da reunião de Vieira com representantes da Casa Branca. A equipe brasileira analisou o texto na residência oficial da embaixada, em Washington.
Vieira mandou avisar aos norte-americanos que a proposta não seria discutida. Naquele mesmo dia, o chanceler teve uma conversa reservada com o secretário de Estado, Marco Rubio, e participou de uma reunião com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, e integrantes da Casa Branca.
Após as reuniões de Vieira com representantes do governo Trump, Brasil e Estados Unidos divulgaram um comunicado conjunto no qual mencionaram apenas conversas “muito positivas sobre comércio e questões bilaterais”. A exigência norte-americana sobre as eleições brasileiras não foi tornada pública.
O documento não citava Jair Bolsonaro nominalmente. Na época, porém, o ex-presidente e seus filhos ainda tentavam manter sua candidatura. Flávio Bolsonaro só anunciou que havia sido escolhido pelo pai como candidato do bolsonarismo em 5 de dezembro, quase dois meses depois.
Trump incluiu quatro exigências políticas
A maior parte dos 21 pontos tratava de comércio, mas quatro exigências avançavam sobre decisões políticas, judiciais e institucionais do Brasil.
Além de exigir a participação dos chamados “dissidentes”, o governo Trump queria impedir punições a cidadãos e empresas norte-americanas por condutas protegidas pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos.
“O Brasil não aplicará multas extraterritoriais, não imporá congelamento de ativos, não deterá, prenderá ou punirá de qualquer outra forma cidadãos americanos, residentes legais ou empresas americanas por conduta protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA”, dizia o documento.
Washington também exigiu tratamento especial para as plataformas digitais norte-americanas. O Brasil deveria garantir a essas empresas aviso prévio e possibilidade de recurso contra decisões e multas relacionadas a publicações nas redes sociais.
Outro ponto proibia o governo brasileiro de punir bancos que cumprissem sanções impostas pelos Estados Unidos. Naquele momento, a Lei Magnitsky havia sido aplicada contra o ministro Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e o Instituto Lex.
Pressão para salvar Bolsonaro
As exigências reproduziam as acusações feitas por Trump ao anunciar o tarifaço, em julho de 2025. Na ocasião, o presidente norte-americano chamou o processo contra Bolsonaro de “vergonha internacional” e de “caça às bruxas que deveria terminar imediatamente”.
Trump também acusou o STF de atacar eleições livres e censurar empresas dos Estados Unidos. Com esse argumento, tentou transformar a proteção de Bolsonaro e das plataformas digitais norte-americanas em condição para reduzir as tarifas comerciais.
A revelação ocorre no momento em que o governo Lula volta a denunciar o risco de ingerência dos Estados Unidos. Nesta semana, Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho, e Brasil e China condenaram interferências externas em assuntos internos de outros países.
O Itamaraty não comentou o documento obtido pelo Estadão. O Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos também não responderam ao jornal.