O garoto que sonhava com a camiseta de Neymar Jr e a arenização do futebol, por Wilson Ferreira

no Cinegnose

O garoto que sonhava com a camiseta de Neymar Jr e a arenização do futebol

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Muito além da infantilização de uma classe média viciada em produzir conteúdo para as redes sociais, o caso do garoto corintiano hostilizado por pedir a camiseta de Neymar expõe o curto-circuito definitivo do futebol brasileiro contemporâneo. É a colisão frontal entre dois mundos irreconciliáveis: de um lado, a “arenização” neoliberal que converte o estádio em um não-lugar asséptico para clientes em busca de validação digital; do outro, a resistência trágica do torcedor ritualístico, para quem o gramado continua sendo um templo sagrado de pertencimento e identidade tribal onde a lógica do “consumidor que tem sempre razão” não se aplica. De um lado, o novo torcedor das arenas instagramáveis; do outro, a resistência do futebol ritualístico em vias de extinção. 

O garoto Pedro Mello, de oito anos, visitou o CT Joaquim Grava na manhã desta sexta-feira. Na companhia de familiares, o jovem torcedor acompanhou toda a atividade comandada por Fernando Diniz e teve a oportunidade de interagir com os jogadores do elenco. Tirou foto com Memphis Depay e repetiu para as câmeras o gesto da comemoração do atacante.

Esse foi o desfecho do episódio das reações ostensivas da torcida corintiana contra o garoto no jogo Corinthians vs. Santos na Neo Química Arena. Logo após a derrota por 1 X 0, acompanhado da sua mãe, o garoto estendeu um cartaz com a frase: “Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã, me dá sua camisa”.

Neymar viu a mensagem na arquibancada, caminhou até a estrutura onde estava a criança e entregou o uniforme

Torcedores na arena lotada passaram a proferir xingamentos contra o garoto e sua mãe, que acompanhou a partida com ele.

Para garantir a integridade física da família, agentes de segurança e policiais acompanharam os dois até a saída do estádio.

A visita do menino ao CT do Corinthians, reportado tanto pela assessoria de imprensa do clube paulistano quanto pelos repórteres setoristas, foi a conclusão de uma série de declarações bem conhecidas pelo tom protocolar correto:

“Isso nunca deve ser motivo de confusão… gostar de um jogador que não é do seu time de coração faz parte”, escreveu o jogador nas redes.

“Dentro e fora de campo, há limites que não podem ser ultrapassados. Agressividade contra uma criança é um deles.”, declarou a nota do Corínthians.

Enquanto o jornalismo corporativo bateu na tecla que “futebol é entretenimento”, acionando o já conhecida pauta do “pânico moral” – contra o “ódio”, “intolerância” etc.

Esse humilde blogueiro vai destoar um pouco desse quadro maniqueísta que a grande mídia adora como lente para focar qualquer assunto – que, aliás, em ano eleitoral, cai perfeitamente ao impregnar a política com debates morais que travam a crítica estrutural na economia e na política.

O leitor pode achar radical, mas esse episódio (sincronicamente logo após a Copa do Mundo em que a Seleção mostrou não apenas um simples fracasso esportivo, mas sinais dos efeitos de uma cadeia neoliberal de produção de valor exportador primário de commodities) representa mais um prego no caixão do futebol brasileiro como conhecíamos.

Não pelo fato em si, mas pelas repostas midiáticas ao acontecimento.

Respostas que demonstraram a fratura entre o futebol enquanto fenômeno ritualístico-identitário e a sua transmutação em commodity asséptica de entretenimento. O episódio funciona como um estudo de caso perfeito sobre o curto-circuito entre o futebol corporativo e a cultura de arquibancada.

Nos seguintes aspectos:

(a) “arenização” dos estádios, afastando o povão, e trazendo uma classe média que vê o futebol apenas como “entretenimento”;

(b) a “falta de noção” (ou a falta de “leitura sociológica”) dos próprios pais, revelando uma faceta da classe média: a “cultura da birra” e realizar a todo custo um desejo infantil;

(c) a dessimbolização do futebol pela arenização do neoliberalismo: para a mídia (que protestou contra a atitude da torcida organizada de hostilizar uma criança) o futebol é apenas “entretenimento.

O Consumidor de Varejo x O Torcedor Ritualístico

A “arenização” produz um espectador que consome o estádio como consome um parque temático. Para essa classe média gentrificadora, o ingresso caro assegura o direito à “experiência individualizada” e à realização do desejo infantil a qualquer custo.

Revela-se aí uma cegueira sociológica: a incapacidade de ler o estádio como um território simbólico com códigos comunitários estritos, onde a lógica mercantil do “cliente que tem sempre razão” não se aplica.

A oposição entre o torcedor ritualístico e o consumidor de varejo sintetiza a transição do futebol como drama mítico comunitário para um produto da supermodernidade pautado pelo consumo individual.

Em El Fútbol: Mitos, Ritos y Símbolos, Vicente Verdú analisa o futebol como uma religião laica, na qual o estádio opera como templo e a partida como uma liturgia sacra.

O torcedor ritualísticoatua como fiel e participante ativo do rito. Para ele, o estádio é o espaço da comunhão trágica e da catarse coletiva. Os símbolos (cores, escudo, camisa) são tótens intocáveis, e a rivalidade é um imperativo ético do mito. O pertencimento ao grupo é dogmático e anterior a qualquer lógica financeira.

Muito diferente disso, o, por assim dizer, consumidor de varejo promove a profanação do rito. Ele não busca a salvação litúrgica ou a identidade tribal, mas a fruição passiva de um espetáculo. A camisa deixa de ser o manto sagrado da tribo e passa a ser mercadoria; o ídolo adversário deixa de ser o “outro” antagônico do mito e vira uma celebridade a ser consumida (e fotografada).

Marc Augé: Do Lugar Antropológico ao Não-Lugar

Outro aspecto da “arenização” e esse “curto-circuito cultural” é a transformação do estádio em arena como um “não-lugar, no sentido atribuído à supermodernidade por Marc Augé – leia Marc Augé, Não-Lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade, Papirus, 2019.

O estádio antigo funcionava como um lugar antropológico — um espaço identitário, relacional e histórico. Era moldado pela memória coletiva, pelo vínculo intergeracional e pelas territorialidades orgânicas (a “geral”, o setor da organizada, o canto específico).

Ao contrário, a arena modernizada é projetada como um não-lugar da supermodernidade — análoga a aeroportos, hipermercados e shoppings centers. É um espaço de trânsito e consumo temporário, desprovido de história própria e governado por relações contratuais (cadeira numerada, código de conduta, consumo de franquias). No não-lugar, o indivíduo não se relaciona com a comunidade, mas apenas com o prestador de serviço.

O Curto-Circuito Cultural e a performatividade para as redes

O episódio na arena expõe a colisão entre esses dois universos: os pais operaram sob a lógica do não-lugar de Augé e do futebol-espetáculo de Verdú, acreditando que o ingresso de valor elevado lhes garantia o direito contratual de satisfazer um desejo privado (tirar foto com o ídolo e gerar conteúdo).

O pedido da camisa expõe a urgência do espetáculo hipermediatizado. O objetivo primário não era a camisa em si, mas a produção do registro: o cartaz voltado para as câmeras, o frame perfeito e a busca pelo corte viral nas redes sociais. A criança e o ídolo tornam-se cenários para a validação digital dos pais, atropelando a rivalidade histórica do ambiente em nome do engajamento.

Ao enquadrar a reação da torcida unicamente sob o prisma da “incivilidade” e do “absurdo contra uma criança”, a mídia hegemônica atua como agente da dessimbolização.

Para o futebol-negócio, a paixão cega, o tribalismo e a rivalidade territorial são ruídos incômodos que atrapalham o “produto familiar instagramável”. Apaga-se o fato de que o futebol de massas só existe e mobiliza bilhões justamente por preservar essa carga mística e comunitária; despido dela, torna-se apenas um show corporativo genérico.

Essa colisão evidencia o limite do projeto de gentrificação dos estádios: mesmo quando se expulsa o “povão” pelo preço dos ingressos, a matriz simbólica do futebol resiste em dobrar-se totalmente à etiqueta do entretenimento de shopping center.

O antigo futebol ritualístico só permanece como signo na publicidade de cervejas nos intervalos dos jogos. Como isca de consumo. Ou como nostalgia de uma cultura futebolística que está desaparecendo.

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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