89% dos americanos veem corrupção generalizada no governo, aponta Gallup

A percepção de corrupção no governo dos Estados Unidos atingiu o maior nível em duas décadas. Segundo pesquisa Gallup divulgada nesta quarta-feira (2), 89% dos americanos consideram que a corrupção é generalizada no governo do país, uma alta de 10 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

O índice está muito acima do intervalo observado entre 2010 e 2025, quando a percepção de corrupção oscilou entre 72% e 79%. O levantamento ocorre no primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump, em meio ao agravamento da desconfiança dos americanos em relação às instituições do país.

O resultado, porém, não se limita ao eleitorado de oposição. Embora a percepção tenha crescido mais entre os democratas, maiorias expressivas de republicanos e independentes também consideram a corrupção disseminada no governo.

Entre os democratas, o percentual saltou de 57% em 2024, último ano do governo Joe Biden, para 76% em 2025 e 91% em 2026. Entre os independentes, a taxa chegou a aproximadamente 90%, 12 pontos acima do resultado de 2024.

Já entre os republicanos, a percepção permaneceu relativamente estável. Cerca de oito em cada dez integrantes do partido consideram a corrupção generalizada, percentual próximo aos 87% registrados em 2024.

Para o Gallup, a estabilidade entre republicanos sugere que a percepção de corrupção nos Estados Unidos não depende exclusivamente de qual partido controla a Casa Branca. Ao mesmo tempo, a forte alta entre democratas durante o segundo governo Trump contribuiu para levar o índice nacional ao recorde.

EUA passam a liderar percepção de corrupção na OCDE

O resultado americano chama atenção também quando comparado com outros países desenvolvidos. De acordo com o Gallup, a percepção mediana de corrupção governamental entre os 38 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) caiu de 69% em 2009 para menos de 60% desde 2022.

Em 2025, último ano com dados completos para todos os países, a mediana da OCDE ficou em 59%, enquanto os Estados Unidos chegaram a 79%.

Com os 89% registrados em 2026, os EUA passaram, pela primeira vez, ao topo da comparação entre os países da organização. A coleta internacional deste ano ainda não foi concluída, portanto a diferença em relação aos demais países pode aumentar.

Desde 2023, apenas quatro países pesquisados pelo Gallup haviam registrado percentuais superiores ao atual resultado americano: Líbano, com 92% em 2024; Peru, com 92% em 2025; e Gana e Nigéria, ambos com 90% em 2024.

Trump e os conflitos de interesse

A pesquisa ocorre em um contexto de crescente questionamento sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo o presidente Donald Trump e seus negócios.

Segundo o levantamento repercutido pelo Axios, Trump declarou mais de US$ 2,2 bilhões em receitas no primeiro ano de seu segundo mandato, ante cerca de US$ 600 milhões declarados em 2024. Parte significativa dos negócios está relacionada a empreendimentos não tradicionais, incluindo atividades ligadas a criptomoedas.

A atuação empresarial do presidente também provocou críticas relacionadas à possibilidade de influência estrangeira sobre decisões do governo. Entre os episódios questionados está a participação de uma empresa de investimentos ligada aos Emirados Árabes Unidos em uma das principais empresas de criptomoedas de Trump.

Outro foco de críticas é a utilização comercial da plataforma Truth Social, por meio de um plano que oferece acesso antecipado a publicações do presidente. Como as mensagens de Trump podem influenciar mercados financeiros, a iniciativa também levantou questionamentos sobre a combinação entre poder presidencial e interesses privados.

Parlamentares democratas também têm denunciado possíveis conflitos de interesse envolvendo a política de criptomoedas do governo e benefícios obtidos pela família Trump. Outro episódio criticado foi a aceitação de um avião avaliado em cerca de US$ 400 milhões, oferecido pelo Catar.

As críticas não se restringem à Presidência. Membros do Congresso também vêm sendo questionados pelos ganhos obtidos com operações no mercado acionário enquanto ocupam cargos públicos. A Casa Branca rejeitou as críticas e afirmou que o governo Trump atua justamente no combate à corrupção e às fraudes.

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