A dívida pública do Japão, de acordo com o Ministério das Finanças, flutua entre 230% e 250% do PIB (Produto Interno Bruto) do país. A da Itália ficou na casa dos 139% no primeiro trimestre de 2026, enquanto a dos Estados Unidos alcançou 123%, superando os US$ 40 trilhões.
Já a relação dívida/PIB da França atingiu 117% ao final do primeiro trimestre desse ano e a do Canadá fica em cerca de 113%. Por sua vez, o Reino Unido tem uma dívida em torno de 101% do PIB.
Todos esses países são membros do G7, entendido como o grupo que reúne as nações entre as mais ricas e desenvolvidas do “Norte” global.
Frequentemente esses países são utilizados como referência de avanço e progresso de suas sociedades, observadas algumas delas pelo alto padrão de consumo e renda, outras por avanços ligados às áreas sociais, mas todas com significativo progresso em alguns pontos, ainda que padeçam de desafios contemporâneos comuns a diferentes países do globo.
Assim, no imaginário popular, do exemplo desses países sempre sairá alguma referência positiva colocada em nível de comparação com o Brasil, ainda mais quando se quer apontar algum atraso nacional.
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No entanto, a comparação sobre a margem de endividamento do Brasil nunca é colocada à mesa nessas comparações. Os economistas ortodoxos brasileiros insistem em alarmar a população ao repercutir que o Brasil alcançou uma dívida pública de 82,5% do PIB. A grande mídia dá corpo a estas análises e transforma uma grande margem que possibilitaria mais investimentos, de um país que carece de se desenvolver em inúmeras áreas, em algo extremamente preocupante — o que na verdade não é.
Antes de avançar na análise, ainda resta no G7 a Alemanha, que, ao contrário dos outros países do grupo, tem uma dívida de apenas 64,4% do PIB. Nesse caso, o baixo percentual dívida/PIB para uma grande nação revela outro lado, o da estagnação.
Com esse quadro completo, a pergunta que fica é: por que então o alarmismo com o Brasil, que não está nem próximo de estagnar e nem em um patamar alto de endividamento de nações entendidas como mais ricas?
A falsa trombeta do Apocalipse
O mercado financeiro já demonstrou seu evidente viés político-ideológico ao longo das últimas décadas. Não é novidade a antipatia pelo governo Lula, ainda que as políticas econômicas e sociais estejam bem.
O receituário por mais austeridade nunca deixou de estar na boca do mercado financeiro brasileiro, mesmo com taxas de juros altas que enchem os seus bolsos. Não é que sonhem com juros mais baixos. Na verdade, querem menos dinheiro para políticas sociais, ou seja, que menos recursos cheguem à população mais humilde.
A ganância do mercado se desenrola em parceria com a grande mídia, e assim conseguem manter seus altos lucros com juros exorbitantes e ainda criam uma tentativa de caos por outros interesses, como o de privatização de empresas estatais. Nesse balaio entram, por exemplo, os ataques ao funcionalismo público e aos benefícios sociais.
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Assim, o anúncio de que o apocalipse iminente se avizinha da economia nacional permite a perpetuação de um imaginário de caos que não existe.
Quando o presidente Lula contestou a indicação de uma alta dívida na entrevista ao Jornal Nacional, os profetas do fim iminente correram para ponderar que o que preocupa mesmo é a trajetória dessa dívida, pois os juros altos e os investimentos do governo precipitaram o que Paulo Guedes chamaria de “seis meses para virar a Argentina” e “um ano e meio para virar a Venezuela”.
Ora. O presidente Lula é o crítico número um dos altos juros estabelecidos pelo Banco Central, que os manteve em um patamar elevado por um longo tempo a despeito de uma inflação em desaceleração.
Já quanto aos investimentos públicos, soa antipatriota pedir redução de investimentos em um país como o Brasil, ou mesmo pedir que bancos públicos diminuam a oferta de crédito (acusados de inflacionar a economia), como alguns analistas recomendaram. Porém, de antipatriotismo e ações lesa-pátria o país está recheado nos últimos tempos, vide os ataques perpetrados por Donald Trump com o tarifaço que teve apoio dos bolsonaristas.
Retroalimentação
O Brasil trata uma série de fatores — inflação, expectativas, câmbio, risco fiscal e dívida — como justificativas para manter uma política monetária excepcionalmente restritiva. Mas essa política também produz efeitos sobre esses mesmos fatores, sobretudo porque uma parcela elevada da dívida é indexada à Selic (taxa de juros).
Outros países, como vimos, com dívidas muito maiores adotam uma tolerância diferente a esses riscos e, por isso, conseguem operar com juros muito menores.
Superávit
Como destacado pelo professor Marcelo Manzano, ao Vermelho, o presidente Lula é extremamente compromissado com o superávit fiscal, que é uma das métricas fundamentais para determinar a solidez do país em pagar suas dívidas. Portanto, o alarmismo atual em torno da dívida pública é pura chantagem.
Segundo o professor da Unicamp, nos mandatos presidenciais de 2003 a 2010, Lula promoveu superávit fiscal nos oito anos do governo, levando o Brasil a ser o único país do G20 a realizar tal feito.
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Agora, o governo enviou ao Congresso Nacional o Orçamento de 2027, com previsão de superávit primário efetivo de R$ 20 bilhões — ou seja, o governo estima que vai arrecadar mais do que gastará, antes do pagamento dos juros da dívida. O valor representa o melhor resultado previsto em um Orçamento enviado ao Congresso desde 2014, quando a proposta estimava superávit de R$ 86 bilhões para 2015, em valores da época.
O exemplo da China
No artigo, A China zomba dos “ajustes fiscais”, o professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Elias Jabbour, que é candidato a deputado federal pelo PCdoB-RJ, utiliza o gigante asiático para questionar a lógica de “ajuste fiscal” predominante no Brasil.
Segundo o autor, o endividamento dos governos locais chineses não representa uma contradição do modelo econômico do país, mas parte de sua estratégia de desenvolvimento, baseada na criação de moeda pelo Estado e na intermediação financeira pública para financiar governos, empresas e investimentos. Nesse modelo, as políticas monetária e fiscal não são tratadas como fins em si mesmas, mas como instrumentos para viabilizar projetos econômicos e sociais. Jabbour cita, como exemplo, o pacote de US$ 1,4 trilhão anunciado pelo governo chinês para enfrentar as dívidas locais e a crise imobiliária.
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Conforme aponta, a China deve continuar adotando políticas fiscais e monetárias expansivas porque enfrenta simultaneamente desafios domésticos e uma disputa geopolítica pela liderança tecnológica. Além da necessidade de criar cerca de 12 milhões de empregos urbanos por ano, o país busca ampliar sua autonomia em setores estratégicos como semicondutores, inteligência artificial e energia limpa. O professor compara esse movimento aos investimentos realizados pelos Estados Unidos e afirma que a China também precisa mobilizar grandes volumes de recursos para alcançar a fronteira tecnológica. Entre 2025 e 2030, ele estima investimentos de US$ 1,4 trilhão apenas em inteligência artificial.
Portanto, na visão de Jabbour, a China não pretende subordinar sua política fiscal e monetária a uma lógica estritamente contábil de equilíbrio das contas públicas, mas utilizá-las como instrumentos para ampliar a capacidade produtiva, promover o desenvolvimento e disputar a liderança tecnológica mundial.
Assim, a experiência chinesa, tão propalada como exemplo pelo mundo, oferece um contraponto ao caminho da austeridade e do alarmismo em torno da dívida pública que prevalece no Brasil. Em vez de tratar o equilíbrio fiscal como um fim em si mesmo, o país poderia olhar para a China e discutir como a política fiscal e monetária deve ser utilizada para financiar investimentos, ampliar a capacidade produtiva e sustentar o desenvolvimento.