Durante a sabatina do Jornal Nacional, na TV Globo, Augusto Cury (Avante) tentou mostrar que tem muitas leituras na bagagem. Porém, o próprio programa de governo, aparentemente, não estava entre elas. A entrevista expôs um amplo desconhecimento sobre questões elementares para quem disputa a Presidência. Mas não foi apenas o programa de governo que parece ter escapado à leitura do candidato. Cury também parece ter esquecido de ler o próprio Lattes ao apresentar uma informação falsa sobre um doutorado que não fez. No plano entregue ao TSE, o candidato à Presidência da República afirma ter doutorado em “Psicologia Multifocal”. Em seu currículo acadêmico, porém, consta PHD em Administração.
Um doutorado, três versões e um grande imbróglio
A questão não surgiu agora. Em julho, a formação acadêmica de Cury já havia sido questionada em artigo publicado no Observatório da Imprensa. Em direito de resposta, publicado em 30 de julho, o próprio candidato afirmou que seu currículo Lattes registra um Doctor of Business Administration pela Florida Christian University, concluído em 2013, e fez questão de esclarecer que não apresentava o título como doutorado acadêmico em Psicologia.
A reportagem da Folha de S.Paulo, publicada na última terça (1), encontrou uma informação diferente no plano de governo apresentado por Cury ao TSE. No documento, o candidato afirma ter feito, em 2013, doutorado em “Psicologia Multifocal” pela Florida Christian University, com uma tese sobre o programa FreeMind. No Lattes, entretanto, o título aparece como Doctor of Business Administration, ou doutorado em Administração.
Ainda de acordo com a Folha, a assessoria de Cury não esclareceu a divergência. Depois da publicação da reportagem, Anthony Portigliatti, ex-reitor da Florida Christian University e orientador de Cury, apresentou uma terceira versão: afirmou que o doutorado teria sido em Psicologia Clínica e enviou à reportagem uma foto do trabalho de conclusão. O curso, porém, não consta no site da universidade.
Questionado sobre as informações contraditórias a respeito de sua própria formação, Cury se limitou a dizer que “não se lembra desses detalhes”.
A reportagem também contextualizou a instituição onde o título foi obtido. A Florida Christian University não possui acreditação relevante de qualidade no sistema americano. Um catálogo da própria instituição, de 2020/2021, informava que ela não era credenciada por nenhuma agência aprovada pelo governo dos Estados Unidos e que seus formados não poderiam prestar exames profissionais nem teriam direito a auxílio financeiro. A universidade também já foi alvo de decisão judicial no Brasil por oferta irregular de mestrados; em decisão liminar, a Justiça determinou a interrupção dos cursos e da emissão de diplomas.
O programa que ele não leu
A confusão não ficou restrita à biografia. Na sabatina do Jornal Nacional, Cury tropeçou ao explicar propostas do próprio programa de governo, com problemas na apresentação de medidas para áreas como saúde, tecnologia e segurança. Confundiu conceitos econômicos, embaralhou siglas tributárias e apresentou propostas confusas — para dizer o mínimo — no combate à violência contra as mulheres.
A checagem da Lupa ainda apontou afirmações falsas ou imprecisas durante a entrevista. Entre elas, a de que cada criança brasileira já nasceria devendo pelo menos R$ 50 mil por causa da dívida pública e a apresentação como novidade de uma regra do Bolsa Família que já permite uma segunda fonte de renda sem perda imediata do benefício.
O homem que explica a mente
Há uma ironia particular nisso tudo: Augusto Cury construiu sua carreira falando sobre emoções, comportamento e funcionamento da mente. Na abertura da sabatina da Rede Globo, recorreu a Tolstói, Mahatma Gandhi e Martin Luther King, entre outras referências, para falar de pacifismo, direitos civis e comportamento humano. Faltou ao candidato uma leitura menos ilustre e mais prática: a própria ficha acadêmica e o próprio programa de governo.