Luís Nassif: Contra o caos institucional, um Plano de Metas

Os grandes empresários brasileiros participaram de um encontro com Flávio Bolsonaro e outro com Lula. Em comum, a busca pragmática do “menos pior”. Não se vá exigir dessa elite econômica sensibilidade para compreender o abismo que separa os dois projetos para o próprio futuro do Brasil como nação civilizada. Muito menos a relevância de políticas sociais estruturantes ou o risco institucional de segurança pública — em um momento em que o modelo Derrite, implementado na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, permitiu a infiltração do crime organizado no alto comando da Polícia Militar. O que a Faria Lima e o grande empresariado pretendem são pactos de previsibilidade de curto prazo e o controle estrito de seus postos-chave de interesse: o Banco Central, o Ministério da Fazenda e as agências reguladoras.

A aproximação com Flávio funciona como instrumento de pressão sobre Lula. O recado é explícito: se Lula vencer, os pilares da ortodoxia monetária, da Selic escorchante e do rentismo financeiro devem permanecer intocados. E o coro dos editoriais e analistas de mercado repete à exaustão a falácia de que os juros estratosféricos decorrem dos gastos com o Bolsa Família, a saúde e a educação, e não da rolagem da dívida pública e da captura do orçamento pelo sistema financeiro.

O desmanche institucional

Enquanto isto, há um luto nacional na celebração dos dez anos do impeachment, o marco mais relevante da desconstrução institucional do país, iniciada pela Lava Jato. Havia uma ordem institucional, ainda que precária. O presidente tinha suas atribuições. E, em torno do Executivo, moviam-se os demais poderes, dentro do sistema de freios e contrapesos.

O grande erro de Lula e Dilma Rousseff foi terem se comportado dentro do chamado republicanismo ingênuo. Não entenderam o jogo político no Supremo Tribunal Federal, ao nomearem Ministros ou sem envergadura, biografia, sem compromisso sólido com a democracia. Entenderam menos ainda quando aceitaram a lista tríplice do Ministério Público Federal e, em lugar de colocar um procurador politicamente confiável, escolheram PGRs mais interessados no populismo penal ou, pior, na afirmação política do poder. Deixaram soltas as corporações.

Quando abriram a porteira, com a Lava Jato, todas as manadas invadiram o pasto do republicanismo: procuradores, juízes, órgãos de controle, delegados federais, preparando o campo para a esbórnia final: o controle do orçamento pelo Congresso.

A cena da escória da política brasileira oferecendo seu voto pró-impeachment a esposas, secretárias, amantes e torturadores é um dos momentos de maior vergonha da história republicana. Mas era apenas a aceleração do desmanche. Assim como a vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, foi a aceleração da derrocada nacional.

De lá para cá, recolheram-se todos os pudores. A democracia foi salva pelo STF não por convicção jurídica, mas por ser o único caminho para a expressão de poder da casa. E essa expressão do poder foi transformada em negócios generalizados, movimento do qual André Mendonça é a expressão mais escarrada. Imitou Gilmar Mendes e o IDP, valendo-se da influência do cargo para alavancar o Iter. Espelhou-se em Alexandre de Moraes para assumir o controle total da operação Master, com uma diferença significativa: Moraes defendia a democracia; Mendonça alavanca o bolsonarismo. Mas valeu-se da oportunidade de entrar para a história como alavanca para os negócios com Daniel Vorcaro.

Mendonça vale-se das mesmas armas, da mesma falta de regras e do vazamento despudorado de mensagens de inquéritos sigilosos. Com isso, conseguiu jogar o STF no esgoto. Não que a casa fosse um centro de virtudes. Os negócios de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são demonstrações terríveis. Mas esperava-se que a reforma do STF fosse gradativa. Havia até um pudor de apontar mazelas de colegas para não jogar o STF no descrédito popular. Mendonça atropelou ritos e precauções e desarmou o Ministro que, até então, era o esteio da legalidade no país.

O plano de futuro

Em priscas eras, as ferramentas centrais de coesão foram levantadas por petistas da velha guarda, especialmente Tarso Genro e Gilberto Carvalho. Foi a ampliação dos sistemas participativos e a construção de políticas baseadas em consenso. Essa virtude perdeu-se com o tempo.

O terceiro governo Lula desperdiçou essa possibilidade. Poderia ter investido em um Plano de Metas, seja através da Nova Indústria Brasil ou do programa de Fernando Haddad. Mas não deu dimensão a ambos. Os programas não se constituíram em ferramentas de pactos políticos, em definição clara de vencedores. Em vez disso, preferiu colocar Rui Costa na Casa Civil e apelar, exclusivamente, para as chamadas “entregas” como instrumento político, e não o desenho do futuro.

Vencendo as eleições deste ano, este será o grande desafio para preparar o país para uma nova etapa.

Não bastam discursos genéricos sobre soberania nacional, menções episódicas a terras raras ou o anúncio disperso de obras, que, desprovidos de encadeamento sistêmico, soam apenas como slogans de campanha. O planejamento do desenvolvimento exige definir com clareza matemática e institucional onde o país quer chegar, quais cadeias produtivas serão priorizadas, como o crédito público e os benefícios fiscais serão direcionados e quais horizontes de lucratividade real serão abertos para a iniciativa privada e o capital nacional.

As lições históricas do planejamento e da concertação

Ao longo da história econômica moderna, nenhum país deu saltos civilizatórios e industriais sem a presença do Estado como estrategista e articulador de grandes pactos de desenvolvimento:

  1. A era Vargas e a montagem das bases materiais (1930–1954):

    Getúlio Vargas compreendeu que a transição da economia agrário-exportadora para a sociedade urbana e industrial exigia a criação de indústrias de base que o capital privado nacional não tinha fôlego nem interesse de bancar sozinho. Foi o Estado que ergueu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN/Volta Redonda), a Vale do Rio Doce, a Fábrica Nacional de Motores, a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Sem aço, energia, combustível e financiamento de longo prazo, inexistiria parque industrial privado brasileiro.
  2. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956–1961):

    JK não inventou apenas a mística dos “50 anos em 5”. Estruturou um programa rigoroso de 30 metas setoriais agrupadas em cinco eixos estratégicos — Energia, Transportes, Indústria de Base, Alimentação e Educação —, tendo Brasília como meta-síntese de integração territorial. Com a criação de órgãos executivos de ponta, como o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), JK amarrou a entrada de montadoras multinacionais à exigência progressiva de nacionalização de autopeças, fazendo florescer milhares de pequenas e médias indústrias mecânicas, metalúrgicas e de autopeças no país. O capital privado aderiu porque sabia exatamente quais eram as regras, a demanda garantida e os incentivos do BNDE.
  3. O New Deal e a mobilização de guerra nos Estados Unidos (1933–1945):

    Diante da devastação da Grande Depressão, Franklin Delano Roosevelt não se limitou a socorrer bancos. Lançou o planejamento coordenado do New Deal, criando a Tennessee Valley Authority (TVA) para eletrificar regiões inteiras, controlar cheias e modernizar a agricultura, ao lado de pesados investimentos em infraestrutura rodoviária e habitação. Durante a Segunda Guerra, o War Production Board planejou a conversão industrial americana, demonstrando que a coordenação central do Estado não sufoca o mercado — pelo contrário, cria as condições materiais para a sua expansão vigorosa.
  4. A transição programada e o modelo chinês (1978–presente):

    Deng Xiaoping e as lideranças chinesas recusaram a “terapia de choque” liberal que desmontou a União Soviética e o parque produtivo do Leste Europeu. Em vez disso, adotaram planos quinquenais com metas objetivas: o Estado manteve o controle absoluto dos setores pré-condição (energia, sistema bancário, telecomunicações e matérias-primas estratégicas), exigiu transferência compulsória de tecnologia via joint ventures e abriu concorrência feroz na ponta para impulsionar a inovação e a produtividade. O BNDES chinês jamais foi desmantelado; foi ampliado para financiar a transição de manufaturas simples para semicondutores, inteligência artificial e veículos elétricos.

O que um Plano de Metas do século XXI deve propor ao capital brasileiro

O grande capital financeiro brasileiro acomodou-se no rentismo dos títulos indexados à Selic e dos spreads abusivos porque não enxerga outro horizonte de remuneração. O grande investidor precisa ser desafiado por um novo ciclo de negócios reais. Os bancos de investimento têm de encontrar atratividade em canalizar suas carteiras para a capitalização de novos setores, em vez de girar ativos na ciranda da dívida pública. E a indústria precisa compreender que a grande oportunidade histórica não está na privatização predatória e no fatiamento de estatais consolidadas, mas na construção das novas fronteiras tecnológicas.

Um Plano de Metas moderno para o Brasil precisa desenhar com precisão as oportunidades em eixos inegociáveis:

  • Industrialização das terras raras e minerais críticos: Superar a lógica do extrativismo primário colonial e verticalizar no país a produção de ímãs de neodímio, ligas avançadas e componentes para semicondutores e defesa.
  • Transição energética e reindustrialização verde: Usar a matriz limpa incomparável do Brasil para liderar o hidrogênio verde, os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), o aço verde e a química verde, integrando as cadeias produtivas locais com exigência de conteúdo nacional.
  • Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS): Mobilizar o imenso poder de compra do SUS para fabricar nacionalmente radiofármacos, vacinas, biológicos e equipamentos de ponta, estancando o déficit comercial de US$ 27 bilhões na saúde e garantindo soberania sanitária.
  • Bioeconomia da Amazônia e agricultura regenerativa: Transformar a biodiversidade em biotecnologia, fármacos e cosméticos de alto valor agregado, integrando centros de pesquisa aos saberes territoriais.
  • Soberania digital e inteligência artificial: Articular o regime de data centers (Redata) à criação de nuvens públicas e capacidade computacional soberana para universidades, startups e governo digital, evitando a mera exportação de energia elétrica barata para big techs estrangeiras.
  • Economia do cuidado e redes produtivas digitais: Oferecer suporte financeiro, crédito orientado e capacitação tecnológica para o cooperativismo e para as pequenas e médias empresas, que representam a principal âncora de emprego na era das plataformas.

O plano como cimento político

Apresentar um Plano de Metas estruturado não é uma formalidade burocrática; é a precondição para construir hegemonia política.

Quando o governo formula um projeto consistente de futuro com prazos, orçamentos, demandas e segurança jurídica, ele atrai frações decisivas da indústria, dos serviços e das finanças para a órbita do desenvolvimento nacional. É esse horizonte compartilhado que constrói o consenso social capaz de isolar o rentismo parasitário, derrotar o divisionismo da guerra híbrida e quebrar a chantagem de ocasião do Centrão e do bolsonarismo.

Sem plano, a política empurra com a barriga e o país segue devolvendo a bola para o goleiro. Com um Plano de Metas, o Brasil volta a disputar o jogo do futuro.

  • Anotação 1 — Precedentes históricos de planejamento

    Precedentes históricos de planejamento estratégico

    • Era Vargas (1930–1954): Criação das indústrias de base e do BNDE como pré-condição para a industrialização privada (CSN, Vale, Petrobras, Eletrobras, FNM).
    • Plano de Metas de JK (1956–1961): 30 metas setoriais (Energia, Transporte, Base, Alimentação, Educação) + Brasília. Criação do GEIA para forçar a nacionalização da cadeia de autopeças.
    • New Deal e Economia de Guerra (EUA, 1933–1945): TVA, infraestrutura, habitação e War Production Board coordenando investimentos privados maciços sob comando público.
    • Modelo Chinês (Deng Xiaoping, 1978–hoje): Planos quinquenais, controle dos setores estratégicos/estatais e concorrência aberta na ponta privada com forte investimento em P&D.
  • Anotação 2 — Eixos prioritários para o Brasil contemporâneo

    Eixos prioritários do novo Plano de Metas

    • Terras raras e minerais estratégicos: Verticalização industrial no Brasil (ímãs permanentes, turbinas eólicas, motores elétricos, semicondutores).
    • Transição energética e química verde: Hidrogênio verde, biocombustíveis avançados (SAF), fertilizantes verdes e descarbonização da indústria siderúrgica e de cimento.
    • Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS): Uso do poder de compra do SUS (R$ 10 bi+/ano) para reduzir déficit de US$ 27 bi em insumos/medicamentos e gerar inovação nacional.
    • Bioeconomia e agricultura regenerativa: Transformação de resíduos em ativos, biotecnologia na Amazônia e valorização da biodiversidade.
    • Soberania digital e IA: Infraestrutura própria de data centers e nuvem pública soberana para universidades, startups e serviços essenciais.
  • Anotação 3 — Instrumentos de financiamento e pacto político

    Instrumentos de financiamento e pacto político

    • Papel dos bancos públicos: BNDES, Caixa e Banco do Brasil como estruturadores de crédito de longo prazo e financiadores de cooperativas/PMEs.
    • Desafio à Faria Lima: Criação de títulos e debêntures incentivadas de infraestrutura e transição tecnológica para drenar a liquidez do rentismo para a produção.
    • Pacto social e político: O plano como anteparo contra o Centrão e a extrema-direita, oferecendo metas concretas e horizonte de retorno aos setores produtivos.

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