Iter: o instituto privado de Mendonça usado para reunião secreta com Vorcaro

André Mendonça, ministro do STF, no Instituto Iter. Foto: reprodução

O Instituto Iter, fundado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), está no centro das atenções após a revelação de que foi em sua sede, na Alameda Santos, em São Paulo, que o magistrado se encontrou secretametne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em março de 2025.

A instituição, criada em 2023 com foco em ensino e capacitação profissional, também acumulou R$ 4,8 milhões em contratos com órgãos públicos em pouco mais de um ano de atividade.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro, obtidas  pelo jornalista Paulo Motoryn e publicado originalmente na newsletter Noites Húngaras, no Substack, mostram que a reunião ocorreu em 14 de março daquele ano, após semanas de articulação do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e do advogado Ciro Rocha Soares.

O banqueiro recebeu o endereço Alameda Santos, 647, 16º andar, onde funciona o Iter, e permaneceu no local por aproximadamente duas horas. As conversas indicam que Mendonça já conhecia os problemas enfrentados pelo Banco Master perante o Banco Central antes do encontro.

O material obtido do aparelho não registra o conteúdo da reunião, os pedidos feitos ao ministro nem eventuais providências adotadas posteriormente. Também não esclarece todos os participantes da conversa. O encontro, porém, não ocorreu no STF, no Banco Master ou em dependência do Congresso, mas no endereço privado do instituto fundado pelo próprio magistrado.

Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

O que é o Instituto Iter

Fundado em novembro de 2023, quando Mendonça já integrava o Supremo, o Instituto Iter iniciou suas atividades no ano seguinte e foi estruturado como sociedade anônima de capital fechado. A esposa do ministro, Janey Mendonça, inicialmente figurou como sócia-administradora. Posteriormente, o ex-ministro da Educação Victor Godoy, integrante do governo Jair Bolsonaro, assumiu como CEO. A Integre, empresa pertencente ao casal Mendonça, aparece como acionista majoritária.

O Iter oferece cursos, workshops, palestras e treinamentos voltados especialmente a temas jurídicos, gestão pública e governança. Mendonça é o principal nome da instituição e participa de eventos e atividades acadêmicas. O ministro define o projeto como “um sonho de disseminar conhecimento de boa qualidade” e afirma que pretende contribuir para a melhoria da governança e da relação entre os setores público e privado.

Enriquecendo com verba pública

A expansão do instituto ocorreu acompanhada por contratos com o poder público. Segundo levantamento citado no material, o Iter faturou R$ 4,8 milhões com órgãos públicos em pouco mais de um ano. Mais de um terço desse valor teve relação com workshops e cursos ministrados pelo próprio Mendonça.

Entre os clientes estão governos estaduais, prefeituras, assembleia legislativa e tribunais de contas. O maior acordo, de R$ 1,2 milhão, foi firmado com o Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo.

Mendonça afirma que “sua atuação no instituto é exclusivamente educacional” e compatível com as regras aplicáveis à magistratura. “O ministro entende que suas atividades docentes e acadêmicas são plenamente compatíveis com sua função no Supremo Tribunal Federal”, informou em nota.

André Mendonça e Ricardo Nunes, prefeito de SP. Foto: Marina Uezima/AFP

Prefeitura de SP e o contrato sem licitação

Outro contrato que colocou o Iter sob escrutínio foi firmado com a gestão Ricardo Nunes (MDB), na Prefeitura de São Paulo. Em setembro de 2025, o instituto foi contratado sem licitação por R$ 380 mil para oferecer dois cursos de aperfeiçoamento a servidores municipais durante três meses. O acordo foi assinado por Victor Godoy, pelo Iter, e pela secretária municipal de Gestão, Marcela Cristina Arruda Nunes.

Um dos cursos, sobre governança e gestão estratégica em contratações públicas, previa 41 vagas por R$ 200 mil e duração de cerca de cinco horas, chegando a aproximadamente R$ 4.878 por participante. A outra capacitação, de excelência em gestão e fiscalização contratual, custou R$ 180 mil e previa 64 vagas, com valor de R$ 2.813 por participante.

Para justificar a contratação direta, a prefeitura recorreu à inexigibilidade de licitação prevista na Lei nº 14.133/2021. Um estudo técnico afirmou que os cursos existentes no catálogo municipal não atendiam às necessidades da administração e sustentou que a proposta do Iter apresentava diferenciais, como formato presencial, caráter imersivo, networking e conteúdo voltado à alta administração.

O próprio estudo, entretanto, relacionou cursos semelhantes oferecidos por outras instituições com carga horária maior e preços muito inferiores. Para a capacitação sobre contratações públicas, por exemplo, foram citadas opções de 40 horas por R$ 198,26 e de 100 horas por R$ 495,69.

No segundo curso, o parecer também encontrou cinco alternativas mais longas e mais baratas, mas alegou que o Iter se diferenciava pela profundidade normativa, aplicabilidade prática e alinhamento com a jurisprudência de órgãos de controle.

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