Augusto Cury, a ilusão que brota após a propagação generalizada do ódio desde 2018, por Eliara Santana

do PT Nacional

Augusto Cury, a ilusão que brota após a propagação generalizada do ódio desde 2018

por Eliara Santana

A descrença generalizada e a propagação do ódio ao suposto “inimigo” são dois pilares da produção sistemática de desinformação protagonizada pela extrema direita. Por um lado, as pessoas duvidam de tudo e não acreditam em mais nada; por outro, as pessoas passam a odiar, a não dialogar, a serem ostensivamente agressivas contra aqueles que pensam de modo diferente. Essa construção não é aleatória: é programada, organizada, elaborada. É um modus operandi que tem propósito específico e que se instalou no Brasil a partir de 2018. 

O bombardeio das campanhas permanentes de desinformação, que contam com inúmeros recursos midiáticos, organização e financiamento alto, obteve certo sucesso por um certo tempo. O gabinete do ódio cumpriu seu papel, e os grupos das redes sociais trataram de disseminar a raiva e a intolerância.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil já viveu momentos de ódio à política e de busca por “pessoas de fora do sistema”. Nesse processo, a ação sem controle das campanhas coordenadas de desinformação contribuíram para desacreditar instituições e ações coletivas, bem como para nocautear espaços e agentes públicos. Dessa forma,  promoveram uma ojeriza à política, um ódio que induziu o cidadão a buscar salvadores da pátria performáticos em verde e amarelo. O bombardeio de desinformação em torno de determinados temas sensíveis contribui para alimentar essa raiva.

Todas essas fases são organizadas pelo arcabouço de um sistema comunicacional potente, tanto no ambiente tradicional de mídia quanto no ambiente digital. Nesse novo ambiente, o ecossistema de desinformação plantou o ódio, o desprezo à política, a raiva incontida, toda uma carga emocional muito ruim. Por um tempo – longo – todo esse conjuntou mobilizou apoiadores, uma turba raivosa, e conseguiu implantar como legado o ódio à política. 

Mas, curiosamente, esse modelo do gabinete do ódio, apesar de ter feito muitos estragos, não está mais sustentando a adesão de eleitores, simpatizantes. Por que odiar, ao final das contas, também cansa.

O que vende Augusto Cury?

O ambiente político-midiático-eleitoral foi surpreendido nesta semana pelo “fenômeno” Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República. Mais que um performático, Augusto é um mestre reconhecido da autoajuda e já conta com milhões de seguidores. E nas incursões pelo debate na Band e pela sabatina do JN, ele, que se autodeclara  psiquiatra, passou a estabelecer um curioso diálogo com os eleitores.

Na sabatina, Cury começou agradecendo ao maior dos mestres, Jesus, sem estabelecer corte por agrupamento religioso – Jesus contempla a todos, até os ateus; e não cingiu, não vociferou, mas buscou unir. Ele efetivamente não apresentou propostas factíveis, mas vendeu um bem precioso, que é a ilusão bem conduzida. Sem ódio, sem ataques baixo nível, como protagonizam Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro, que só destilam raiva.

Ele foi conduzindo a sabatina apenas mostrando que se acha capaz de transportar as pessoas para uma espécie de “terra prometida contemporânea”, onde as máquinas vão nos servir e haverá drones de combate ao feminicídio. Num mundo que anda tão complicado, isso não parece acalentador? 

Um levantamento especial do Instituto Democracia em Xeque após a sabatina do JN trouxe dados muito expressivos para refletirmos sobre esse novo momento do cenário político-midiático-eleitoral brasileiro. Vamos a eles:

  • Entre 16 e 29 de agosto, Augusto Cury obteve 2,5 milhões de novos seguidores. Esse crescimento se traduziu em intenção de votos na segunda-feira, 31 de agosto, com o candidato alcançando 11% na BTG/Nexus e 7,8% na Atlas/Intel.
  • O debate da Band, em 23 de agosto, funcionou como um gatilho. A série horária sai de um patamar de 100 menções por hora e chega a 5.036 às 21h daquele dia. O volume ainda não voltou ao nível anterior.
  • O dia 27 registra o maior pico de publicações no X: 8.978 menções às 13h e 8.390 às 14h, contra 3.487 no dia 21 inteiro.
  • Instagram e X apontam em direções opostas. O perfil ganhou 896.769 seguidores no Instagram em 27 de agosto e 913.967 em 14 dias, enquanto no X, a mesma janela concentra a maior rejeição do período.
  • No X, a conversa é de rejeição, não de adesão. O deboche e a desqualificação aparecem em 44,7% dos posts. O apoio inequívoco aparece em 48 registros, ou 0,3% do total. O tema dos drones com sirene anti-feminicídio foi muito explorado.

Nesse contexto, é também relevante a comparação entre os candidatos em relação às menções e ao engajamento pós-sabatinas, o que mostra uma posição confortável do presidente Lula, que mostrou realizações e sonhos possíveis. 

É claro que estamos vendo uma expressiva ação midiática de manipulação das emoções num período conturbado de campanha, com o famoso “outsider”, alguém fora do sistema político, entrando em cena e prometendo todas as maravilhas.

E em relação a Cury e sua subida expressiva pairam denúncias e muitos questionamentos: algumas outras campanhas estão problematizando a possibilidade de um “incremento coach” à la Pablo Marçal, com uso de robôs e contratação oculta de influenciadores; existe a suspeita de que o crescimento de seguidores seja artificial; e psiquiatras passaram a contestar a credencial profissional do candidato.

Além disso, de acordo com o levantamento do Democracia em Xeque, há um número expressivo de posts, no volume do material coletado, que citam Augusto Cury em tom de deboche, criticando suas propostas.  

No entanto, do ponto de vista discursivo, da manipulação da opinião pública com construções que podem, efetivamente, empolgar de algum modo o eleitor, é importante observar esse viés propositivo pela ilusão, e não mais pelo ódio.

As campanhas permanentes de desinformação que assolaram o Brasil se basearam profundamente em despertar ódio nas pessoas e provocar uma descrença geral para que o caminho ficasse aberto ao caos e os candidatos da raiva pudessem ocupar espaço. Mas isso cansa e demanda muita energia, e as pessoas não querem apenas duvidar de tudo, elas querem acreditar em algo, mesmo que não seja factível. E nesse contexto, o lugar confortável da ilusão pode ser um atrativo para os eleitores e a porta de entrada para os espertalhões. 

Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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