
A Polícia Federal reuniu contratos milionários de honorários, uma proposta de pagamento com cotas de um jato e de um helicóptero e despesas de viagem internacional oferecidas por empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a integrantes de sua família. Os episódios constam de um documento da investigação sobre o Banco Master.
Um dos contratos previa que o Banco Master pagaria 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Com os tributos previstos, cada parcela alcançaria o valor bruto de R$ 3.646.529,77. Daniel Vorcaro e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva assinaram o documento em 23 de janeiro de 2024.
A análise dos metadados localizou o nome “Ministro Alexandre de Moraes” em duas versões da minuta. Viviane enviou a primeira a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024, com registro de última modificação pelo usuário de mesmo nome naquele dia.
Ela encaminhou a versão final em 17 de janeiro, e o arquivo registrava a última alteração pelo mesmo usuário em 15 de janeiro. A PF ressalta que esse dado técnico, isoladamente, não comprova quem operava o computador nem quais mudanças realizou.
Entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025, os investigadores localizaram quatro comprovantes de transferências ao escritório, cada um no valor de R$ 3.422.268,14 após descontos específicos. Os pagamentos somaram R$ 13,6 milhões. Em uma conversa de março de 2024, Vorcaro chamou o repasse de “o pagamento mais importante” e afirmou que não poderia “atrasar um dia”.

Proposta de R$ 50 milhões previa cotas de aeronaves
A investigação também identificou uma segunda proposta de contrato, com limite remuneratório de R$ 50 milhões líquidos durante 36 meses. A Viking Participações, empresa da qual Vorcaro é sócio, poderia quitar o valor por transferência bancária ou pela entrega de imóveis, bens móveis ou serviços ao escritório de Viviane.
Em 16 de maio de 2025, o advogado Leonardo Palhares enviou a Vorcaro uma minuta que destinava R$ 40 milhões à transferência de cotas de um Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC 155 B1. Os R$ 10 milhões restantes cobririam despesas relacionadas ao uso das aeronaves.
Em uma conversa reproduzida pela PF, Marcos da Mata, sócio do banqueiro, perguntou a Viviane: “Estão gostando da utilização das cotas de vocês”? Ela respondeu: “Sim, estamos gostando muito”. O escritório Barci de Moraes declarou que não assinou o segundo contrato, rejeitou seus termos e não recebeu cotas de aeronaves nem outros ativos.
Mensagens sobre uma recepção no Six Senses Botanique, hotel na região de Campos do Jordão, também integram o relatório. O planejamento para uma comitiva relacionada nas conversas a “Alex” incluía almoço, chef particular, passeios a cavalo e atendimento a nove convidados e quatro seguranças. Ao tratar do encontro com um contato salvo como Thatiane Prime, Vorcaro escreveu: “Tem que ser experiência completa. Convidados ultra vips”.
A PF examinou ainda a participação de Moraes no I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, realizado entre 24 e 27 de abril de 2024, com despesas custeadas e carros Mercedes-Benz S-Class com motoristas para autoridades consideradas VIPs, entre elas Moraes e o ministro Dias Toffoli.
Em mensagem atribuída a Moraes, o ministro convidou Gilmar Mendes: “A estadia poderá ser até 28/4. É organizado pelo CONJUR, Correio Braziliense e Banco Master. Topa?”.
Para a segunda edição, prevista para 2025 e posteriormente cancelada, uma funcionária informou a Vorcaro que o assessor de Moraes procurara a organização para tratar da passagem aérea do ministro. O banqueiro respondeu: “Pode fazer”.