
André Mendonça não chegou ao Supremo Tribunal Federal pelas preces que, segundo sua fé, dirigiu a um Deus supremo, na esperança de ser ouvido e atendido. Chegou pelas mãos de Jair Bolsonaro. Antes da toga, passou pela Advocacia-Geral da União e pelo Ministério da Justiça de um presidente que hoje cumpre prisão domiciliar. Sua chegada ao Supremo não foi obra de uma providência abstrata, mas de uma escolha política bastante concreta.
Sua passagem pelo Ministério da Justiça deixou fatos que a toga não dissolve. Em 2020, durante sua gestão, o ministério produziu um relatório sobre 579 servidores públicos, policiais e professores identificados com movimentos antifascistas. A iniciativa foi posteriormente considerada incompatível com a Constituição pelo próprio Supremo Tribunal Federal. No mesmo período, o ministério esteve no centro das controvérsias envolvendo a utilização da Abin para auxiliar Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas.
É uma biografia politicamente gravosa. A origem de sua nomeação é um dado político relevante e não pode ser apagada quando se avalia sua trajetória. Tampouco pode substituir o exame de seus atos e votos como ministro.
André Mendonça não caiu do céu sobre o Supremo, levado pelas próprias preces. Chegou ali por uma decisão política de Jair Bolsonaro. Desde então, porém, é pelos seus votos que Jair ora todos os dias, com um terço nas mãos.
É por isso que, neste dia de muita pestilência e pouco pesticida, a decisão de retirar o sigilo de documentos da investigação sobre o Banco Master e colocar Alexandre de Moraes no centro de uma nova tempestade política precisa ser examinada para além da superfície jurídica. Há fatos que precisam ser investigados. Mensagens, contratos, encontros e relações financeiras não podem ser varridos para baixo do tapete, por mais conveniente que seja esconder a poeira. Mas há também o momento em que tudo isso acontece, a maneira como o material vem a público e, sobretudo, quem pode se beneficiar politicamente da explosão.
É nesse ponto que a história começa a ficar mais difícil de ignorar.
Flávio Bolsonaro não está fora da disputa presidencial, mas já começa a cortejar, com alguma insistência, o fracasso. Sua candidatura deixou de navegar em águas tranquilas, onde, aliás, nunca chegou a estar. Augusto Cury, até poucas semanas atrás mais conhecido como “semeador de ideias” do que como ameaça eleitoral, saltou de 2% para algo entre 10% e 11% em levantamentos recentes. Ainda está longe de Flávio, mas já não ocupa a periferia do tabuleiro. O dado mais significativo talvez não seja o tamanho que Cury alcançou, mas a velocidade com que chegou até ali. Em disputas eleitorais, velocidade costuma ser um dado mais incômodo do que tamanho.
Na busca desesperada por uma saída eleitoral, a direção da campanha de Flávio apostou na bagunça, no melê. O caminho mais curto para voltar a encher os pneus murchos de seus adoradores era recorrer à velha fórmula do bolsonarismo raiz: aprofundar o confronto permanente com o Supremo Tribunal Federal.
Era o momento perfeito para Mendonça entrar em cena.
De repente, justamente quando a eleição começa a ganhar contornos mais definidos, Alexandre de Moraes volta ao centro do palco. A investigação que envolve Daniel Vorcaro, banqueiro próximo de Flávio, ganha uma segunda frente de enorme potência. Agora, o alvo é o ministro que se tornou o principal adversário institucional do bolsonarismo.

A confusão, portanto, não chega sozinha. Traz consigo um personagem conhecido, um inimigo eleitoralmente rentável e a esperança de que, do outro lado, apareça uma plateia disposta a aplaudir. É uma aposta, naturalmente. Algo como jogar na Mega-Sena contando com a improbabilidade como estratégia. Mas, no desespero eleitoral, até a matemática pode ser convocada a prestar serviços à fé.
A política não precisa de uma conspiração escrita em papel timbrado para produzir esse tipo de resultado. Precisa apenas de incentivos.
Uma campanha não precisa telefonar para um ministro e dizer exatamente o que espera dele. A pressão política pode operar por expectativas, lealdades, afinidades, ambientes e cálculos. Quem passou anos dentro de um governo conhece seus códigos. Sabe onde estão os aliados, quais conflitos inflamam sua base e quais adversários são capazes de produzir mais energia eleitoral.
É nesse sentido que a pressão da campanha de Flávio sobre Mendonça deve ser compreendida. Não como uma história de telefonema secreto que se possa afirmar sem prova, mas como uma hipótese política sustentada pela convergência entre interesses, trajetória e resultado.
Mendonça abriu uma porta. Do outro lado estava exatamente o conflito de que Flávio mais precisava.
A questão não é saber se há fatos envolvendo Moraes que merecem apuração. Há. A questão é saber por que Mendonça escolheu transformar esses fatos, justamente naquele momento, em uma crise política de grandes proporções. Ministros do próprio Supremo avaliam que ele atropelou o rito e que sua atuação acaba favorecendo politicamente Flávio Bolsonaro. A crítica, portanto, não está na investigação em si, mas na forma e no momento de sua condução.
A diferença é decisiva.
Uma investigação séria precisa produzir provas. E prova exige silêncio, cautela e paciência. Uma operação política, ao contrário, precisa produzir impacto.
Quando as duas coisas começam a caminhar juntas, a democracia entra em terreno escorregadio.
O Brasil conhece esse terreno.
A Lava Jato mostrou o enorme poder político que pode resultar da combinação entre investigação, vazamentos, exposição pública e construção antecipada de culpabilidades. Muitas das acusações eram graves. Muitas das investigações eram necessárias. O problema surgiu quando o processo deixou de ser apenas instrumento de apuração e passou a produzir, ele próprio, uma narrativa política.
O vazamento passou a valer tanto quanto a prova. A suspeita, tanto quanto a sentença. A manchete, tanto quanto o processo.
A história deveria ter ensinado alguma prudência.
Mendonça parece apostar no contrário.
A diferença, desta vez, é que a operação nasce dentro do próprio Supremo. E isso torna tudo mais perigoso. Quando um ministro da Corte transforma a exposição de um colega em acontecimento político nacional, a instituição deixa de ser apenas o lugar onde o conflito é arbitrado. Passa a fornecer, ela própria, parte do combustível que alimenta o conflito.
Se os fatos são graves, a investigação precisa ser ainda mais rigorosa. Gravidade não autoriza atalho. Ao contrário, exige mais prova, mais rito e mais transparência.
É aqui que aparece a assimetria fundamental do episódio.
Alexandre de Moraes está no centro de uma acusação que precisa ser investigada.
André Mendonça está colocando essa acusação no centro da disputa eleitoral.
Uma coisa é apurar fatos. Outra, muito diferente, é determinar o lugar que esses fatos ocuparão no campo político. A primeira exige prova, rito e prudência. A segunda vive de exposição, timing e impacto.
E, quando as duas se confundem, já não é apenas a reputação de um ministro que está em jogo. É a própria fronteira entre investigação e disputa política.
Flávio Bolsonaro encontra nesse movimento uma oportunidade extraordinária. As atenções que poderiam permanecer concentradas em suas relações com Vorcaro passam a mirar Moraes.
Não é preciso imaginar Mendonça sentado numa sala de campanha para compreender a utilidade política de sua decisão.
Basta olhar o tabuleiro.
Flávio precisava de um conflito capaz de mobilizar sua base. O confronto com o Supremo estava pronto. Precisava de um adversário conhecido. Moraes já ocupava esse lugar. Precisava, enfim, de uma narrativa capaz de retirar as atenções de suas próprias relações políticas.
A aposta é alta. E perigosa.
Nem o mais inocente gratiluz imaginaria que Mendonça esteja simplesmente abrindo uma investigação capaz de “limpar” o Supremo, como se a boa intenção pudesse dispensar o cálculo das consequências. Ele conhece a política, conhece o bolsonarismo e conhece o peso institucional da cadeira que ocupa. Sua atuação, portanto, não pode ser julgada apenas pelas intenções que eventualmente declare, mas também pelos efeitos previsíveis de suas escolhas.
E era perfeitamente previsível que uma ofensiva contra Moraes, conduzida por um ministro cuja trajetória política está profundamente ligada ao bolsonarismo, no decorrer de uma eleição presidencial, produzisse uma onda política de grandes proporções.

Era previsível que Flávio Bolsonaro surfasse nela. Era previsível que o bolsonarismo a transformasse em mais uma prova da narrativa construída durante anos. Era previsível, enfim, que o Supremo voltasse a ser apresentado como campo de batalha eleitoral.
Essa previsibilidade é justamente o que torna a conduta de Mendonça tão difícil de justificar.
Mais do que imprudente. Mais do que politicamente conveniente. Politicamente indefensável.
O problema não é investigar. O problema é transformar a investigação em artilharia.
O Brasil já viveu o suficiente para saber que, quando as instituições entram na disputa política como armas, raramente são elas que decidem quando deixarão de ser usadas.
Hoje é Moraes. Amanhã pode ser outro ministro. Depois, outro tribunal. Em seguida, o Ministério Público, a Polícia Federal, o Congresso. A lista cresce à medida que a lógica da guerra se espalha.
E, quando essa lógica ocupa as instituições, ninguém controla mais o incêndio.
É por isso que a tentativa de salvar uma candidatura pode terminar produzindo um desastre muito maior do que a eleição que a motivou. Flávio Bolsonaro pode ganhar ou perder. Augusto Cury pode continuar crescendo ou desaparecer da disputa. Lula pode vencer ou ser derrotado.
A política muda de mãos. As instituições permanecem.
E quando uma democracia começa a tratar suas instituições como munição eleitoral, cedo ou tarde alguém descobre que munição não escolhe o alvo.
É precisamente isso que André Mendonça parece esquecer.
Recebeu uma toga para exercer uma função de Estado, não para prolongar uma batalha política por outros meios. Se entende que Alexandre de Moraes deve ser investigado, que leve a investigação até onde os fatos conduzirem, com documentação, contraditório e transparência à altura da gravidade do caso. Se entende que houve crime, que apresente as provas. Se não houve, que aceite o mesmo escrutínio que exige dos outros.
O que não pode fazer é transformar o Supremo em extensão de uma disputa eleitoral.
Uma eleição termina. Uma instituição corroída pela política pode levar décadas para recuperar a confiança que perdeu.
Talvez seja essa a imagem mais precisa do momento brasileiro. Enquanto Flávio tenta recuperar fôlego numa corrida eleitoral que começa a ficar mais disputada, Mendonça parece abrir diante dele uma pista de obstáculos.
O problema é que a pista não pertence a Flávio.
Pertence ao país.
E quem decide transformar uma instituição de Estado em campo de batalha pode descobrir, tarde demais, que não existe trincheira segura quando o próprio terreno começa a desmoronar.