A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional, realizada na quinta-feira (27), não cumpriu o papel de apresentar ao eleitor as propostas e perspectivas para um eventual quarto mandato, na avaliação do cientista político Leonardo Avritzer.
Em participação no programa TV GGN 20 Horas desta sexta-feira (28), Avritzer classificou a entrevista como parte de um padrão de constrangimento adotado pela Globo e apontou uma cobertura marcada por agendas específicas e assimetria na abordagem de escândalos.
Para o pesquisador, a entrevista deveria ter começado por questões básicas sobre a candidatura de Lula: por que buscar um quarto mandato, como avalia o terceiro governo e o que pretende fazer de diferente ou melhorar em uma nova gestão. “Nem pediram o presidente para se apresentar, dizer porque ele queria um quarto mandato”, afirmou.
Na avaliação de Avritzer, a ausência dessas perguntas é especialmente significativa diante de um cenário eleitoral que considera marcado pelo baixo nível de debate político. Segundo ele, os programas dos candidatos são genéricos e os debates realizados até agora tiveram pouca capacidade de produzir uma discussão substantiva sobre os projetos em disputa.
O problema se agrava porque, segundo o cientista político, a televisão ainda possui relevância para uma parcela específica do eleitorado. Embora o Jornal Nacional tenha perdido audiência entre os mais jovens, continua alcançando principalmente pessoas com mais de 55 anos.
Historicamente, lembrou Avritzer, as entrevistas e sabatinas eleitorais cumpriam a função de permitir que os candidatos se apresentassem ao público. O formato atual, porém, teria se afastado desse objetivo.
Dívida pública e corrupção como agendas centrais
Na leitura de Avritzer, a cobertura da Globo atualmente estaria concentrada em duas agendas principais: a questão fiscal, especialmente a dívida pública, e a corrupção.
A crítica não está, segundo ele, na existência dessas pautas, mas na maneira como são utilizadas. O cientista político argumenta que a abordagem sobre corrupção tende a ser assimétrica, com episódios de diferentes dimensões e estágios de investigação tratados de maneira equivalente.
Como exemplo, citou a cobrança sobre um contrato de R$ 600 milhões do Ministério da Saúde que sequer teria sido assinado e comparou a repercussão do episódio com o caso do Banco Master e com informações relacionadas ao filme “Dark Horse”.
Para Avritzer, a questão central é a forma como diferentes informações chegam ao público e ganham espaço na mídia. “O problema é que nós temos no Brasil, especialmente a Rede Globo, mas na imprensa corporativa, outros veículos também, que não fazem a investigação jornalística que é necessária para mostrar o conjunto das coisas”, afirmou.
O pesquisador destacou que informações sobre integrantes do entorno do governo Lula foram divulgadas por grandes veículos a partir de vazamentos, enquanto informações relacionadas ao caso Banco Master não receberam o mesmo tratamento investigativo.
Segundo ele, isso produz uma cobertura baseada não apenas na existência de informações, mas na seleção de quais informações serão transformadas em notícia e em que momento.
“Existe alguém que está controlando vazamentos”, afirmou Avritzer, ao comparar a dinâmica atual com o padrão que, em sua avaliação, marcou a Operação Lava Jato.
Veja abaixo a íntegra da entrevista com o cientista político Leonardo Avritzer na TV GGN 20 Horas