A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) na TV Globo, transmitida após o Jornal Nacional nesta sexta-feira (28), foi marcada por uma sequência de contradições, mentiras verificadas e evasões que expuseram as fragilidades da candidatura do senador à Presidência da República. Entrevistado pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, Flávio repetiu o recurso da “cola” na palma da mão — já usado pelo pai em outras ocasiões — e saiu da entrevista com mais dúvidas do que respostas sobre sua relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro.
Flávio Bolsonaro mentiu, omitiu respostas e fugiu de perguntas. A bancada de jornalistas do Jornal Nacional, por sua vez, não foi capaz de confrontar as evasivas e dizer ao eleitor que a pergunta não foi respondida.
O candidato precisa simultaneamente preservar o eleitorado fiel ao bolsonarismo — que rejeita as condenações de Jair Bolsonaro, questiona a atuação do STF e defende anistia para os envolvidos no 8 de Janeiro — e apresentar-se ao eleitorado mais amplo como alguém capaz de governar dentro das regras democráticas.
A sabatina mostrou o custo dessa equação. A impressão deixada foi a de que, ao tentar transformar o sobrenome Bolsonaro em plataforma eleitoral para 2026, Flávio também herdou boa parte das contradições que marcaram o bolsonarismo nos últimos anos.
O caso Vorcaro: negar, admitir, negar de novo
O momento mais constrangedor da sabatina veio logo na primeira pergunta, sobre o escândalo do Banco Master e o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Diante da pergunta direta sobre como convencer o eleitor de que não teve relacionamento próximo com Vorcaro — após negar ter pedido dinheiro, depois admitir em áudios que pediu, depois omitir encontros, depois reconhecer que se encontrou com o banqueiro — Flávio tentou uma defesa que soou como confissão.
“Não tem absolutamente nada de errado em um filho buscar um financiamento privado para um filme do próprio pai”, disse o senador, em uma resposta que não abordava a questão central: a origem dos recursos e a proximidade com um banqueiro investigado pela maior fraude financeira do sistema bancário brasileiro.
Quando Renata Vasconcellos insistiu na cronologia dos fatos — o pedido de dinheiro, a visita à casa de Vorcaro mesmo após as fraudes serem conhecidas, o encontro no dia seguinte à prisão do banqueiro — Flávio tentou desviar o foco para Lula: “Quem deve as explicações hoje é o atual presidente da República”. A estratégia de “e o Lula?” não funcionou. Os áudios divulgados pela imprensa mostram Flávio chamando Vorcaro de “irmão” e escrevendo “estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente” — em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro e da liquidação do Banco Master.
A contradição mais evidente veio quando o senador afirmou categoricamente: “Não recebi dinheiro nenhum. Foi um patrocínio para um filme”. Diante da insistência da jornalista de que o filme recebeu R$ 61 milhões e que ele mesmo pediu o dinheiro em áudios, Flávio recuou para uma distinção semântica que não convenceu: “Não pedi dinheiro a ele, pedi um patrocínio”. A diferença entre “dinheiro” e “patrocínio” é irrelevante quando se trata de R$ 61 milhões repassados por um banqueiro preso por fraudes bilionárias.
A mentira do Pix e a prestação de contas que não existe
Flávio Bolsonaro repetiu duas mentiras já desmentidas por checagens independentes. A primeira foi atribuir a criação do Pix ao governo do pai: “É um Pix, que foi ali criado no governo do presidente Bolsonaro”. A verdade, documentada, é que a portaria do Banco Central que instituiu o grupo de trabalho para desenvolver o sistema de pagamento instantâneo foi publicada em 3 de maio de 2018, quando Michel Temer ainda era presidente. Jair Bolsonaro tomou posse em 1º de janeiro de 2019, meses depois.
O Pix começou a funcionar em 16 de novembro de 2020, mas foi desenvolvido pelos analistas e técnicos concursados do Banco Central ao longo de um processo evolutivo que antecedeu o governo Bolsonaro. A mentira não é nova — já foi desmentida em 2022 —, mas repeti-la em uma sabatina presidencial é ou desinformação deliberada ou desconhecimento crasso sobre a história do sistema financeiro brasileiro.
A segunda mentira verificada foi sobre a prestação de contas do filme “Dark Horse”. Flávio afirmou que “a prestação de contas foi feita, inclusive na investigação que estava acontecendo na Polícia Civil de São Paulo, por exigência minha, antes dos 30 dias”. A realidade é diferente: o laudo apresentado pela produtora Go UP Entertainment não contém notas fiscais, recibos ou comprovantes de transferência bancária que detalhem os gastos dos R$ 61 milhões repassados por Vorcaro. O perito que assinou o laudo admitiu não ter acessado o fundo americano Havengate, apontado como destinatário das transferências — exatamente o caminho do dinheiro que a Polícia Federal considera fundamental para entender a origem e o destino dos valores.
A evasão sobre o resultado eleitoral e a defesa do golpe
Quando questionado sobre se respeitaria o resultado das urnas caso perdesse a eleição, Flávio Bolsonaro evitou dar uma resposta direta — um silêncio eloquente em um país que viveu uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. O senador também defendeu o pai da condenação por tentativa de golpe, repetindo a narrativa de que “uma grande farsa foi armada” para tirar Jair Bolsonaro do poder.
Sobre os atos golpistas, Flávio repetiu outra desinformação: que não havia armas no local e que o presidente estava “a milhares de quilômetros” quando os eventos aconteceram. Registros comprovam que os manifestantes roubaram armas do Gabinete de Segurança Institucional, portavam granadas e coquetéis molotov, e que a Operação Lesa-Pátria apreendeu centenas de armas com pessoas que financiaram e participaram dos atos antidemocráticos.
A cola na mão e o despreparo exposto
Um detalhe visual resumiu o despreparo de Flávio para a sabatina: as anotações na palma da mão, repetindo um recurso que Jair Bolsonaro já usou em outras ocasiões. A “cola” sugere que o candidato não dominava os temas sobre os quais seria questionado, ou que precisava de lembretes visuais para não se contradizer — o que, ironicamente, não funcionou, dado o volume de contradições expostas durante a entrevista.
Flávio precisa preservar a identificação firme com o eleitorado de Jair Bolsonaro e, simultaneamente, convencer que é não é grosseiro como o pai para uma parcela mais ampla da sociedade. A sabatina mostrou que ele não conseguiu fazer nem um nem outro. Para o eleitor bolsonarista, as respostas foram evasivas demais; para o eleitor moderado, foram mentirosas demais.
O que a sabatina revela sobre a candidatura
A entrevista de Flávio Bolsonaro na Globo expôs três problemas estruturais de sua candidatura. Primeiro, a incapacidade de lidar com escândalos de corrupção que envolvem sua família — o caso Vorcaro/Dark Horse é apenas o mais recente de uma série que inclui as “rachadinhas” e os imóveis comprados com dinheiro vivo. Segundo, a dependência crônica da figura paterna, que o impede de se projetar como líder autônomo. Terceiro, a repetição de mentiras já desmentidas, que sugere ou desonestidade intelectual ou desconhecimento factual.
Em uma eleição onde o eleitor precisa escolher entre continuidade e mudança, Flávio não conseguiu vender a mudança como algo melhor. Saiu da sabatina com mais dúvidas do que quando entrou — e com a impressão de que, se eleito, governaria não para o Brasil, mas para absolver o pai.