Flávio nega aquecimento global e Lula rebate ‘amadorismo irresponsável’

A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) no Jornal Nacional, nesta sexta-feira (28), produziu um dos momentos mais emblemáticos da campanha presidencial de 2026: ao ser questionado sobre mudanças climáticas, o senador negou a influência da ação humana no aquecimento global, classificou o consenso científico como “discurso apocalíptico” e apontou o saneamento básico como principal medida de proteção ambiental. A declaração provocou reação imediata do presidente Lula, que usou as redes sociais para confrontar o adversário com um plano integrado de prevenção climática e classificar a postura do rival como “amadorismo irresponsável”.

O negacionismo climático como programa

A sequência de declarações de Flávio Bolsonaro sobre o tema merece transcrição integral, tamanha a gravidade do que foi dito em horário nobre, diante de milhões de eleitores:

“Não é sobre influência dos atos humanos. Para mim, o que acontece hoje é que são eventos climáticos que são extremos. Excesso de calor, excesso de chuva, excesso de seca. Eu acredito que são efeitos cíclicos.”

A frase contém pelo menos três erros factuais graves. Primeiro, nega o consenso científico estabelecido há décadas: o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne milhares de cientistas de todo o mundo, afirma categoricamente que a atividade humana — principalmente a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento — é o motor dominante do aquecimento global observado desde meados do século XX. Segundo, reduz eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos a “efeitos cíclicos”, ignorando a literatura científica que demonstra a aceleração sem precedentes desses fenômenos. Terceiro, ao chamar o alerta científico de “discurso apocalíptico”, Flávio adota a retórica clássica do negacionismo: desacreditar a fonte da informação para não precisar lidar com o conteúdo.

Mas o momento mais revelador veio quando o senador foi questionado sobre propostas concretas. Sua resposta foi ainda mais desconcertante: a melhor forma de proteger o meio ambiente seria investir em saneamento básico, especificamente em “melhorar o esgoto que passa na nossa casa”. A redução de uma crise planetária — que envolve transição energética, combate ao desmatamento, descarbonização da economia, adaptação de cidades — a uma questão de esgoto doméstico revela não apenas desconhecimento, mas uma visão de mundo em que problemas estruturais se resolvem com soluções caseiras.

A resposta de Lula: ciência, dados e governança

A reação de Lula veio em formato de thread no X (antigo Twitter), mas com densidade de programa de governo. O presidente começou pelo diagnóstico político: “Negar o aquecimento global em pleno século XXI e reduzir o combate às mudanças climáticas a saneamento básico dá a dimensão do amadorismo irresponsável de quem se propõe a governar um país.”

A frase é cortante porque ataca o cerne da candidatura de Flávio: a pretensão de preparo para governar. Lula prosseguiu associando o negacionismo climático a outros negacionismos que marcaram o bolsonarismo: “É da lavra do povo que nega a importância das vacinas e de gente que anda acompanhado de quem prega o fim do voto feminino. Gente que não ouve a ciência.”

A associação não é retórica vazia. O bolsonarismo construiu, ao longo dos últimos anos, uma postura sistemática de desconfiança em relação ao conhecimento científico — seja sobre vacinas, seja sobre urnas eletrônicas, seja sobre mudanças climáticas. Lula identificou o padrão e o nomeou: é a “lente embaçada do negacionismo” que opera na lógica de “passar a boiada”.

O plano versus a promessa

Mas a parte mais substantiva da resposta de Lula foi a apresentação de dados concretos. Enquanto Flávio oferecia uma frase vaga sobre esgoto, o presidente detalhou um aparato de governança climática que envolve:

Investimentos em saneamento: R$ 23 bilhões para obras de abastecimento, esgoto e resíduos, além de R$ 3,5 bilhões para destravar obras abandonadas. Lula fez questão de reconhecer que saneamento é fundamental — não o descartou, mas o situou como parte de um conjunto maior.

Prevenção a desastres: Sala de Situação reunindo 24 ministérios para discutir o impacto do El Niño em 2026, com investimento de R$ 1,3 bilhão. A estrutura integra saúde, energia, assistência social, segurança alimentar, monitoramento de rios e sistemas de alerta.

Obras estruturantes: R$ 18,6 bilhões no Novo PAC para drenagem urbana e contenção de encostas. Modernização de alertas via Cemaden em 1.427 municípios e sinal direto de celular pela Defesa Civil.

Combate a incêndios: Meio bilhão pelo Fundo Amazônia para modernizar equipamentos, veículos e bases. Mapeamento de regiões críticas. Mais helicópteros, aviões e viaturas.

Segurança energética e hídrica: R$ 118 bilhões em geração renovável e R$ 107 bilhões em transmissão (equivalente a duas Itaipus de nova capacidade instalada). R$ 15 bilhões em obras de segurança hídrica no Nordeste.

Resultados mensuráveis: Redução de 50% no desmatamento da Amazônia, 32,5% no Cerrado e 63% no Pantanal. Fortalecimento do IBAMA e ICMBio. 4,4 mil brigadistas federais em 2026, aumento de 40% em relação a 2022.

A lista não é exaustiva, mas é suficiente para demonstrar o abismo entre as duas propostas. De um lado, um candidato que reduz a crise climática a esgoto doméstico e nega a ciência. Do outro, um governo que construiu uma arquitetura de prevenção envolvendo 24 ministérios, bilhões em investimentos e resultados verificáveis.

Governança versus improviso

A questão climática é particularmente reveladora porque não admite improviso. Eventos extremos — enchentes no Rio Grande do Sul, secas na Amazônia, incêndios no Pantanal — já matam, deslocam populações e causam prejuízos bilionários. Um presidente que nega a existência do problema não pode formular políticas para enfrentá-lo. E um país que não se prepara para a crise climática pagará um preço cada vez mais alto em vidas e recursos.

O Brasil, sob Lula, voltou a ser protagonista global no tema: sedia a COP30, lidera discussões sobre financiamento climático e conservação de florestas. Sob Flávio, o país provavelmente retornaria ao isolamento internacional que marcou o governo de seu pai, quando o Fundo Amazônia foi paralisado e o desmatamento disparou.

A escolha do eleitor: ciência ou achismo

A sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional deixou claro que a eleição de 2026 não é apenas uma disputa entre dois candidatos, mas entre duas formas de entender o papel do Estado e do conhecimento na formulação de políticas públicas. De um lado, o negacionismo como método: desconfiar da ciência, desprezar especialistas, oferecer soluções simples para problemas complexos. Do outro, a governança como método: ouvir a ciência, articular ministérios, investir em prevenção e adaptação.

A declaração de Lula foi dura, mas precisa: “Governar o Brasil não é para aventureiros.” Em um país cada vez mais exposto aos efeitos das mudanças climáticas, a escolha não é apenas política — é existencial.

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