Ao contrário do que disse no JN, Flávio Bolsonaro ainda deve explicar R$ 75 milhões de “Dark Horse”

Flávio Bolsonaro de paletó preto e camisa branca em evento do PL
Flávio Bolsonaro usa paletó preto e camisa branca em evento do PL. Foto: Reprodução

Ao contrário do que tem dito durante sua campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda não apresentou os contratos nem uma prestação de contas detalhada do filme “Dark Horse”, sobre seu pai, Jair Bolsonaro, três meses após a revelação de que Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, financiou a produção. A assessoria do pré-candidato à Presidência afirmou nesta sexta-feira (28) que a responsabilidade pelos esclarecimentos cabe à produtora Go Up.

Em entrevista à Globo, Flávio disse que “nunca é demais” explicar sua relação com o ex-banqueiro, mas também classificou o assunto como “mais que esclarecido” e um “livro que está fechado, ressignificado e na prateleira”. Ele voltou a sustentar que já havia apresentado a prestação de contas ao citar um laudo pericial encomendado pela própria produtora.

O documento, assinado em 10 de junho pelo perito Anísio Costa Castelo Branco, calculou em US$ 13,39 milhões o custo da obra entre Brasil e Estados Unidos. Pela cotação usada no laudo, a soma equivale a R$ 75,18 milhões.

A perícia registrou US$ 3,72 milhões em despesas no Brasil, entre 1º de junho de 2025 e 4 de junho de 2026, e mais US$ 9,66 milhões pagos pela Go Up Entertainment LLC, empresa registrada nos Estados Unidos. O texto afirma que não identificou uso de recursos públicos, incentivos ou patrocínios.

“Dark Horse”. Foto: Divulgação

Laudo não aponta fornecedores nem comprova destino dos valores

Apesar do valor total indicado, o laudo não lista os fornecedores pagos pela Go Up nem apresenta documentos fiscais que permitam acompanhar o destino do dinheiro. As despesas aparecem em categorias amplas, como “elenco, atores e figurantes” e “equipe técnica e produção executiva”.

O perito também não avaliou se os custos declarados condizem com os preços praticados pela indústria cinematográfica. Em entrevistas, Castelo Branco reconheceu que o material disponível não permitia verificar o destino dos recursos, os preços informados ou a origem dos valores repassados pelo fundo Havengate Development Fund LP.

O Havengate fechou em 24 de fevereiro de 2025 um contrato de investimento para o filme e teria aportado exatamente US$ 13,39 milhões, a mesma cifra apontada como custo total da produção. A perícia diz ter consultado esse contrato e indica que o fundo recebeu recursos enviados por Vorcaro.

Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up, havia dito em maio que o projeto contava com mais de dez investidores internacionais, entre eles “uma empresa de mídia americana”. Como o gasto total identificado no laudo coincide com o aporte do Havengate, ela não respondeu qual teria sido o destino de eventuais recursos dos demais investidores.

A produtora também havia afirmado que buscaria uma “firma de auditoria internacional independente de primeira linha para auditar toda a movimentação financeira”. O trabalho apresentado, porém, foi elaborado pelo perito contratado a pedido de Karina e anexado a um processo que envolve a empresária e um contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo.

O caso passou a ser investigado em diferentes frentes. Em 23 de julho, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de investigação da Polícia Federal sobre os repasses ao filme; em 21 de agosto, o ministro Flávio Dino permitiu que a corporação acessasse provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo.

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