Para entender a arquitetura das entrevistas do Jornal Nacional, por Luís Nassif

Peça 1 – a arquitetura da entrevista da Globo

A entrevista de Lula ao Jornal Nacional precisa ser analisada menos pelas perguntas isoladas do que pela arquitetura do conjunto. Em uma sabatina de tempo limitado, cada minuto dedicado a um assunto retira espaço de outro. E a escolha editorial foi clara: abrir com o caso de Fábio Luís, insistir nas suspeitas de corrupção e empurrar o presidente para a defensiva.

A operação editorial consistiu em apresentar Lula e Flávio como candidatos igualmente cercados pela corrupção. Não era necessário inocentar Flávio. Bastava reduzir a distância entre fatos de materialidade muito diferente. A repetição abusiva das perguntas sobre Fábio Luís – que chamou a atenção inclusive, de comentaristas da Globonews – cumpriu esse papel: colocou o presidente no mesmo enquadramento moral do adversário e transformou suspeitas de pesos distintos em imagens equivalentes para o telespectador.

Mas houve uma segunda consequência, tão importante quanto a primeira. A saraivada de perguntas consumiu o tempo que poderia ser dedicado ao tema central desta eleição: a soberania brasileira.

Ficaram fora do debate as pressões dos Estados Unidos, a disputa pelas terras raras, a soberania digital, o papel dos BRICS, a política de reindustrialização, a proteção das empresas públicas e o risco de o país voltar à condição de fornecedor colonial de matérias-primas. Também não se discutiu o que significa uma candidatura associada à abertura irrestrita do patrimônio nacional e à subordinação da política externa brasileira a Washington.

Na prática, a entrevista não apenas tentou equiparar Lula a Flávio no quesito corrupção. Impediu que Lula levasse ao horário de maior audiência da televisão o contraste entre dois projetos de país: de um lado, a reconstrução de alguma autonomia nacional; de outro, a adesão a uma ordem geopolítica comandada pelos Estados Unidos.

Qualquer foca de redação saberia que o tema mais relevante é o das relações futuras com os Estados Unidos, principalmente agora, que Trump confiscou todas as reservas de petróleo da Venezuela. A diferença fundamental entre Lula e os Bolsonaro – além da submissão dos Bolsonaro ao crime organizado – é no tratamento da soberania nacional. E o tempo todo foi uma maratona de Lulinha para fugir ao tema Trump.

Peça 2 – A vulnerabilidade dos grupos de mídia

Essa escolha não precisa resultar de uma ordem direta para produzir efeitos alinhados aos interesses de Washington. O problema é mais estrutural: os grupos brasileiros de comunicação tornaram-se vulneráveis a instrumentos de pressão controlados pelo Estado norte-americano.

Essa vulnerabilidade passa pelas plataformas digitais, pela publicidade programática, por fornecedores de tecnologia, nuvem e inteligência artificial, por transações em dólar, por direitos esportivos e culturais, por relações com empresas multinacionais e pelo alcance extraterritorial da Justiça dos Estados Unidos. Uma empresa de comunicação brasileira pode ter suas operações no país, mas depende de uma cadeia econômica e tecnológica submetida, em pontos decisivos, à jurisdição norte-americana.

O Departamento de Estado nem sequer precisa formular uma ameaça explícita. Uma reunião com executivos, uma audiência no Congresso dos Estados Unidos, uma carta de parlamentares, uma declaração de Marco Rubio, uma investigação da USTR ou uma consulta de compliance podem bastar para acionar departamentos jurídicos, anunciantes, bancos e plataformas.

O mecanismo moderno de pressão não se apresenta necessariamente como censura. Aparece como gestão de risco. O anunciante suspende a campanha. A plataforma altera a distribuição. O banco eleva as exigências. O fornecedor tecnológico revê o contrato. Cada decisão parece privada e isolada; o efeito combinado produz alinhamento político sem que seja necessário deixar uma ordem escrita.

Os grandes grupos de mídia conhecem esse risco. Conhecem também o alcance da legislação norte-americana e o poder de investigações abertas em Nova York ou Washington. No julgamento do escândalo da Fifa, por exemplo, o delator Alejandro Burzaco afirmou sob juramento que Globo, Televisa e Torneos teriam participado de um pagamento de US$ 15 milhões a Julio Grondona relacionado a direitos de transmissão. A Globo negou irregularidades. Independentemente do desfecho, o episódio expôs como negócios globais de mídia podem cair sob a jurisdição e a capacidade de pressão dos Estados Unidos.

É nesse quadro que deve ser lida a cobertura eleitoral. Não é preciso afirmar, sem prova, que o Departamento de Estado determinou a pauta do Jornal Nacional. A questão relevante é outra: até que ponto empresas estruturalmente vulneráveis a Washington conseguem sustentar uma cobertura independente quando a eleição brasileira opõe autonomia nacional e alinhamento automático aos Estados Unidos?

Peça 3 – O laboratório Cambridge Analytica

O terceiro elemento é o placar eleitoral. Uma vitória ampla, nas eleições, dificulta a contestação e reduz o espaço para operações de desestabilização. Uma eleição decidida por margem estreita, ao contrário, é o ambiente ideal para a guerra híbrida.

O Brexit mostrou a potência dessa combinação. O referendo britânico foi decidido por 51,9% a 48,1%. Em disputas assim, não é necessário convencer a maioria da sociedade. Basta identificar pequenos segmentos decisivos, descobrir seus medos e entregar a cada grupo a mensagem mais eficiente para mobilizá-lo, desanimá-lo ou afastá-lo das urnas.

Foi esse o salto representado pelo ecossistema da SCL e da Cambridge Analytica. A SCL vinha de uma tradição de operações psicológicas e comunicação estratégica. A SCL Elections foi constituída em 2012; a marca Cambridge Analytica, voltada ao mercado político norte-americano, surgiu em 2013. O bilionário Robert Mercer investiu cerca de US$ 15 milhões na estrutura, que teve Alexander Nix como executivo e Steve Bannon como dirigente e estrategista.

No livro “A Conspiração Lava Jato” descrevo em detalhes essas operações.[aqui]

A base técnica combinava mineração de dados, psicometria e micro direcionamento. O aplicativo thisisyourdigitallife, de Aleksandr Kogan, foi usado para recolher informações de aproximadamente 270 mil usuários do Facebook e, pelas regras então vigentes da plataforma, alcançar dados de dezenas de milhões de contatos — número posteriormente estimado em até 87 milhões de perfis. O modelo OCEAN procurava inferir traços de personalidade e adaptar a propaganda às vulnerabilidades de cada eleitor.

No Brexit, a extensão exata do trabalho direto da Cambridge Analytica permanece controvertida. Mas o referendo revelou técnicas associadas ao mesmo ecossistema: uso intensivo de dados, anúncios obscuros visíveis apenas ao público-alvo, mensagens diferentes e até contraditórias para grupos distintos, exploração de ressentimentos locais e teste permanente de narrativas. A AggregateIQ, empresa canadense ligada ao universo tecnológico da SCL, trabalhou para a campanha oficial do Vote Leave.

Depois veio a eleição de Donald Trump. A Cambridge Analytica, que antes atendera Ben Carson e Ted Cruz, passou a trabalhar para a campanha republicana vencedora. O escândalo posterior mostrou que a nova propaganda política não buscava apenas persuadir pelo debate público. Procurava conhecer individualmente o eleitor, atingir seus impulsos privados e produzir comportamentos sem que a sociedade enxergasse a campanha como um todo.

Esse é o risco brasileiro. Em uma eleição apertada, uma operação de influência precisa deslocar apenas uma pequena parcela do eleitorado. Pode fazê-lo por meio de vazamentos seletivos, falsos escândalos, vídeos produzidos por inteligência artificial, redes de bots, segmentação de mensagens, campanhas de desânimo e questionamento preventivo das urnas.

O objetivo pode ir além de eleger um candidato. Se o resultado for desfavorável, a mesma máquina servirá para negar legitimidade ao vencedor, estimular mobilizações, pressionar as Forças Armadas, atacar o Supremo e criar uma sensação de ingovernabilidade. A guerra híbrida trabalha antes, durante e depois da votação.

Por isso, o enquadramento do Jornal Nacional não é apenas um episódio de parcialidade jornalística. Ele ajuda a construir o terreno psicológico em que uma operação mais ampla pode prosperar: equivalência moral entre candidaturas desiguais, retirada da soberania do centro do debate e preparação de uma disputa apertada, carregada de suspeitas e ressentimentos.

O Brexit ensinou que poucos pontos percentuais podem mudar o destino de um país por décadas. Cambridge Analytica ensinou que esses pontos podem ser perseguidos eleitor por eleitor, medo por medo, ressentimento por ressentimento.

O Brasil precisa aprender a lição antes da votação. A defesa da democracia não começa na urna. Começa na disputa pela informação, na transparência dos algoritmos, na proteção dos dados, na independência da imprensa e na capacidade de discutir, sem distrações fabricadas, o tema decisivo: quem decide o futuro do Brasil?

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