Jerônimo mostra o que fez com Lula; e ACM Neto erra ao adotar tom morno

A estreia do horário eleitoral gratuito na Bahia, nesta sexta-feira (28), deixou claras as diferentes apostas estratégicas de Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil) na disputa pelo governo do estado. Enquanto o governador petista foi direto ao ponto ao destacar seu alinhamento com o presidente Lula, o ex-prefeito de Salvador optou por um tom moderado e focado no interior, uma escolha que pode custar caro para quem precisa desidratar a rejeição e mobilizar o eleitorado de oposição.

O trunfo de Jerônimo: A força de Lula na Bahia

O melhor momento do programa de Jerônimo Rodrigues foi, sem dúvida, a ênfase no alinhamento nacional ao mostrar tudo que foi possível realizar com o apoio de Lula, desde o governo de Jaques Wagner (2007-2014). Em um estado onde o presidente Lula mantém índices altíssimos de aprovação, colar a imagem do governador à do líder petista é a jogada mais racional e letal da campanha. A estratégia busca lembrar o eleitor baiano de que a continuidade do PT no Palácio de Ondina é a garantia de que as portas do Palácio do Planalto seguirão abertas para a Bahia.

A chegada de Lula a Salvador no mesmo dia da estreia, com o objetivo declarado de “turbinar” Jerônimo e conter o chamado “voto LuNeto” (eleitores que votam em Lula para presidente, mas em ACM Neto para governador), mostra que a campanha petista entendeu a urgência de nacionalizar o debate. Ao destacar as parcerias com o governo federal, Jerônimo transforma a disputa estadual em um plebiscito sobre o legado do PT, forçando ACM Neto a jogar no terreno onde o petismo é historicamente mais forte.

O erro de ACM Neto: O perigo do tom moderado

Por outro lado, a estreia de ACM Neto decepcionou ao adotar um tom excessivamente moderado. O monólogo confessional demora a mostrar a que veio e de que Neto está falando. Com a missão de romper a hegemonia de 20 anos do PT na Bahia, o candidato do União Brasil desperdiçou a oportunidade de usar o horário eleitoral para traçar um contraste agudo e incisivo com a gestão atual. Em vez de apontar supostas falhas do estado após duas décadas de governos de esquerda, ACM Neto focou em “ampliar o diálogo com o interior”. E esta proposta mais direta só apareceu no último minuto do programa.

Embora a capilaridade no interior seja fundamental na Bahia, um programa de estreia morno, sem ataques diretos ou propostas de ruptura, soa como burocracia eleitoral. O eleitor que deseja mudança quer ver sangue no olho, não apenas promessas de diálogo. Ao evitar o confronto direto logo no primeiro dia, ACM Neto corre o risco de parecer apenas mais uma alternativa administrativa, e não a força política capaz de encerrar o longo ciclo do PT no estado.

A matemática do tempo e o desafio da ruptura

A disparidade de tempo na TV torna o erro de ACM Neto ainda mais evidente. O ex-prefeito de Salvador possui a maior fatia do horário eleitoral em bloco, com 4 minutos e 57 segundos, contra 3 minutos e 30 segundos de Jerônimo. Ter quase um minuto e meio a mais que o adversário é um luxo que exige agressividade narrativa.

Usar esse tempo precioso para um discurso moderado e focado em visitas ao interior é um desperdício de munição. As pesquisas mostram um empate técnico acirrado, com ambos oscilando na casa dos 40%. Para virar o jogo, ACM Neto precisa usar a TV para transformar a eleição em um referendo sobre a eficiência da máquina pública baiana, e não apenas em uma caminhada pelo interior.

A estreia na TV baiana mostrou que Jerônimo joga para consolidar e nacionalizar, acertando em cheio ao chamar Lula para o palanque. ACM Neto, por sua vez, joga para não errar, mas na política, quando se acredita ter a faca e o queijo na mão — e o maior tempo de TV —, a moderação excessiva pode ser o caminho mais rápido para a derrota.

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