As mulheres chegam às eleições de 2026 ostentando um paradoxo numérico que define o atual estágio da democracia brasileira: são a maioria esmagadora do eleitorado — 83,8 milhões de pessoas, ou 52,84% do total — e representam o maior contingente de candidaturas da história, com 34,9% dos registros. No entanto, ao cruzar as portas do poder, a realidade se impõe com a dureza de uma barreira invisível: elas ocupam apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Foi para dissecar esse abismo entre a força demográfica e a fragilidade institucional que a historiadora Flávia Calé, secretária nacional da Mulher do PCdoB, participou da edição desta quinta-feira (27) do Entrelinhas Vermelhas.
Em conversa com os jornalistas Inácio Carvalho e Priscila Lobregatte, Flávia não se limitou a celebrar os avanços estatísticos. Ela traçou um diagnóstico que conecta a autonomia econômica conquistada nas últimas duas décadas à repercussão violenta e medieval que tenta, agora, frear essa ascensão. Para a dirigente, o que está em jogo não é apenas uma disputa eleitoral, mas uma “agenda civilizatória” contra a monetização do ódio e a epidemia de feminicídios.
Do sufrágio à sobrecarga: a raiz do avanço
Flávia Calé começou sua análise resgatando a série histórica para desmistificar a ideia de que o aumento da presença feminina é um fenômeno espontâneo. Em 1998, as mulheres representavam apenas 12% das candidaturas e 5% das eleitas. O salto para quase 35% em 2026, segundo ela, é fruto de políticas estruturantes que permitiram à mulher “sair de casa” para disputar o espaço público.
“A gente não pode separar isso de um avanço estrutural”, pontuou. A historiadora citou a Lei de Cotas de 2009 como marco, mas enfatizou que a verdadeira alavanca foi a autonomia econômica e a partilha do trabalho reprodutivo. A expansão das creches em tempo integral, a valorização das trabalhadoras domésticas e o acesso ao ensino superior criaram a base material para que mulheres pudessem, ainda que sobrecarregadas, vislumbrar a política.
“O reconhecimento da economia do cuidado deve ser reconhecido”, defendeu, alertando que sem um Plano Nacional de Cuidados, a maternidade continuará sendo um ponto de ruptura nas carreiras femininas, e não uma etapa da vida.
A retaliação medieval e a monetização do ódio
Se o avanço foi estrutural, a reação tem sido visceral. Flávia denunciou o surgimento de propostas que classificou como “medievais” no debate eleitoral de 2026, citando explicitamente a candidatura do partido Missão, que defende o “voto por família” — uma tese que, na prática, extinguiria o voto universal feminino para retornar a um modelo onde o homem representa o núcleo familiar.
A esse retrocesso legislativo soma-se a guerra cultural nas redes. A secretária do PCdoB apontou como a extrema direita, incluindo figuras como Michele Bolsonaro no comando do PL Mulheres, instrumentaliza o conservadorismo para disputar um eleitorado feminino que, na vida real, sofre com as mesmas agruras que as mulheres progressistas. “O ódio às mulheres vira um instrumento de nicho eleitoral e de monetização de conteúdo”, lamentou, referindo-se à epidemia de depressão e suicídio entre meninas, agravada por algoritmos que recompensam a misoginia.
O medo como barreira invisível
Flávia Calé traduziu a violência política de gênero para a linguagem do cotidiano. Ao ser questionada sobre como o medo afeta a participação, ela deu um exemplo prosaico e aterrador: o adesivo de campanha no carro.
“Se fosse um carro só meu, eu faria barbaridade. Mas um carro que eu levo meus filhos, como que faz?”, questionou. A imagem resume o cerco: a violência política não serve apenas para impedir que mulheres se candidatem, mas para silenciá-las no espaço público, impedindo-as de declarar voto ou preferência por temor à segurança de suas crias. “Você não fica em paz em lugar nenhum”, desabafou, lembrando que a violência contra a mulher é, hoje, um problema central de segurança pública.
Por uma autoridade nacional contra o feminicídio
Diante desse cenário, onde a Lei Maria da Penha — recentemente estendida pelo STF para abarcar a violência política — carece de execução na ponta, ela foi categórica ao cobrar a criação de uma Autoridade Nacional de Segurança Pública de combate ao feminicídio. Ela criticou governadores que posam de defensores da segurança, como Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), mas que não entregam equipamentos básicos como a Casa da Mulher Brasileira em seus estados.
“A gente precisa construir uma agenda de contenção disso”, afirmou, evocando exemplos positivos como os de Niterói e do Espírito Santo para provar que é possível reduzir índices de violência com gestão integrada. Para Flávia Calé, a eleição de 2026 não pode ser apenas sobre quem ocupará o Planalto ou o Congresso, mas sobre se o Brasil conseguirá garantir o direito mais básico de sua maioria demográfica: o direito de viver, de trabalhar e de votar sem medo.