
O presidente de Cuba e primeiro-secretário do Partido Comunista, Miguel Díaz-Canel, acusou o governo de Donald Trump de tentar asfixiar economicamente a ilha, negou que a abertura ao setor privado represente uma guinada capitalista e afirmou que o país resistirá à pressão dos Estados Unidos. Em entrevista à Folha, em Havana, ele disse que Washington busca provocar uma explosão social e levar à queda da Revolução Cubana. Com informações de Folha de S.Paulo.
Díaz-Canel afirmou que, em sete meses, Cuba recebeu apenas um navio petroleiro, enviado pela Rússia com 100 mil toneladas de petróleo bruto, enquanto o país precisaria de sete embarcações de combustível por mês. Segundo ele, a falta de energia provoca interrupções no fornecimento de luz, água e transporte, com apagões que podem superar 20, 30 ou até 40 horas.
O presidente também atribuiu às sanções parte da crise na saúde. Ele citou uma fila de mais de 98 mil pacientes para cirurgias, incluindo 12 mil crianças, e disse que cerca de 1.200 crianças entre mais de 117 mil pacientes com câncer não recebem tratamento oncológico. Díaz-Canel acrescentou que 64 mil crianças estão com a imunização atrasada e que Cuba consegue cobrir somente 30% da lista básica de medicamentos.
Ao responder sobre críticas à burocracia e à lentidão do governo, Díaz-Canel admitiu falhas e afirmou que as autoridades cubanas têm sido críticas desses problemas. Ele rejeitou, porém, que a gestão interna seja a principal causa da crise e negou que o país esteja à beira do colapso, apesar da retração acumulada de 15% do Produto Interno Bruto desde que assumiu o governo.
Reformas ampliam espaço para empresas privadas
O Parlamento cubano aprovou, dois meses antes da entrevista, um pacote de 176 medidas econômicas. As mudanças permitem que empresários privados mantenham mais de dois negócios e empreguem mais de cem pessoas, autorizam a negociação de ações e abrem a possibilidade de companhias estrangeiras explorarem terras por até 99 anos em regime de usufruto.
Díaz-Canel sustentou que as medidas buscam aumentar a produção, ampliar a autonomia das empresas estatais e atrair investimentos de cubanos residentes no exterior. Ele afirmou que os principais meios de produção continuarão sob controle estatal e descartou uma restauração capitalista: “O povo não permitiria porque sabe o que a revolução significou em matéria de benefícios”.
O presidente disse que o canal de diálogo com os Estados Unidos está estagnado e sem agenda definida, embora funcionários dos dois governos já tenham mantido conversas. Ele negou que as reformas constituam concessões a Washington e declarou: “Os EUA não têm moral para nos pedir nenhuma concessão, nem nós estamos dispostos a fazê-las”.
Questionado sobre uma eventual intervenção militar americana, Díaz-Canel afirmou que Cuba mantém estruturas de defesa ativadas e realiza semanalmente um Dia Nacional da Defesa, baseado na estratégia chamada de Guerra de Todo o Povo. Sobre seu destino diante de um ataque, declarou: “Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando”.