‘Um por todos, todos por Lula’: a política e o simbólico na libertação do petista

A parede de fundo é um dos principais atrativos do Restaurante Tia Zélia, na Vila Planalto, em Brasília. Atrás de um altar com algumas figuras religiosas, um pôster de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (Glauber Rocha, 1964), uma cruz e alguns recortes de jornal se diferenciam no espaço completamente ocupado por fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros nomes do Partido dos Trabalhadores. 

Foi lá que o jornalista e escritor Haroldo Ceravolo Sereza lançou em 6 de agosto seu livro “Um por todos, todos por Lula – A Campanha Lula Livre e a luta dos brasileiros para tirá-lo do cárcere”. A escolha não foi simplesmente por ser um local tradicional de encontro de pessoas de esquerda na capital federal, mas teve a mesma origem da escolha do título da obra: o símbolo. “Eu achei que remete a uma coisa que foi muito importante para todo mundo durante todo esse processo: a imaginação”, declarou o autor no lançamento.

Esse é um tema recorrente no livro, que perpassa todos os principais acontecimentos desde a condução coercitiva de Lula na 24ª fase da Operação Lava-Jato, em 4 de março de 2016, até sua posse em 1º de janeiro de 2023.

A narrativa não é cronologicamente linear, mas dividida em capítulos que reconstroem a campanha de denúncia da perseguição e defesa da liberdade de Lula a partir do enfoque de diferentes atores envolvidos nesse processo: os militantes, os advogados, os correligionários, os adversários, os amigos, a imprensa e o próprio Lula.

Já nas primeiras páginas, Haroldo deixa claro que não é um “observador neutro”, mas um participante ativo de boa parte do que considera “o movimento político mais forte desde as Diretas Já” – seja como jornalista ou como apoiador da campanha pela liberdade de Lula.

“Essa história é a história do Lula e de todos nós”, afirmou no palco montado sob a tenda que, um sábado por mês, abriga o Samba da Tia Zélia, no gramado externo do restaurante.

A obra reconstitui os eventos de mais de meia década de turbulências políticas e jurídicas. Também faz uma radiografia do “lawfare” – conceito que o autor considera fundamental para o sucesso da defesa de Lula – instituído pela Lava-Jato, com suas aparentemente infinitas “fases” e a implementação, com o apoio da elite política e da grande mídia, de um “regime jurídico de exceção” dedicado a perseguir não só Lula, mas tantos aliados quanto fosse possível.

A violência política é outro tema que perpassa todo o livro, nos sucessivos ataques da extrema-direita a apoiadores do presidente, tanto durante suas caravanas, quanto em todo o período da Vigília Lula Livre e até durante os processos eleitorais de 2018 e 2022, além da truculência da Polícia Federal com seus integrantes.

A determinação do líder

O livro narra em diferentes trechos os dias que antecederam a prisão de Lula em abril de 2018. Entre as passagens, aborda a pressão de aliados para que o então ex-presidente resistisse à ordem do então juiz Sergio Moro ou buscasse asilo no exterior – alternativas que Lula sempre rejeitou.

Sua determinação em encarar o processo de frente, inclusive orientando a defesa a não solicitar redução ou progressão de pena, incomodou apoiadores, que tentaram impedir que ele se entregasse. Haroldo narra momentos de embate entre as decisões do presidente e a vontade dos militantes. Segundo ele, “toda a campanha por sua libertação foi, também, uma grande negociação estabelecida por ele e a militância”.

No evento de lançamento, Rud Rafael, que integra a coordenação nacional da Frente Povo Sem Medo, admitiu que Lula estava certo. “A gente estava errado. É importante reconhecer quando a gente erra, ainda mais quando a história mostra que os caminhos da luta por democracia e justiça social são tortos”, afirmou.

Segundo ele, a determinação de Lula em enfrentar os 580 dias de prisão, de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019, foi fundamental para pavimentar seu caminho de volta à Presidência.

O papel da campanha

Haroldo defende na obra que a Campanha Lula Livre foi fundamental não só para a liberdade de Lula, como também para a sobrevivência do PT apesar de toda a perseguição sofrida, para o enfrentamento do campo progressista aos retrocessos promovidos pelo governo de Jair Bolsonaro e para a vitória na eleição de 2022.

“Não havia clareza sobre quanto tempo Lula permaneceria na prisão, mas havia uma compreensão conjunta de que, independentemente disso, defender sua soltura era uma forma de tentar conter o reacionarismo que desejava avançar sobre os movimentos sociais e os partidos populares”, diz o livro.

“Não foi a campanha que libertou Lula, mas sem a campanha Lula não seria solto. Isso porque a campanha, mais a atuação do PT, manteve o Lula presente na disputa política. E, quando a direita tradicional se viu diante do risco de ser degolada por Bolsonaro, entendeu que a única maneira de evitar isso era reabilitando eleitoralmente o Lula. […] Para reabilitar Lula eleitoralmente, ele precisava ser forte, e nós garantimos isso, o que foi fundamental”, afirma na obra o historiador Valter Pomar.

Haroldo traz ainda no livro depoimento do ex-presidente do Instituto Lula e da Fundação Perseu Abramo sobre os efeitos da mobilização: “Paulo Okamotto lembra que a Campanha Lula Livre, somada à sucessão de acontecimentos do período, foi decisiva para impedir a ruína do PT. Com a ofensiva que rotulava o partido como ‘bando de ladrão’ e ‘bando de vagabundo’, havia um risco real de que o PT fosse empurrado para a ilegalidade caso não reagisse.” 

“Para ele, a postura de Lula, que se recusou a baixar a cabeça, e a mobilização em torno de sua liberdade ajudaram a reverter a situação. […] Esses sinais foram fundamentais para reconstruir a confiança, tanto dentro quanto fora do PT. Okamotto salienta também o papel da militância, que sustenta o partido em momentos de crise e reconstrução, trabalhando de graça, participando de reuniões e se engajando nas lutas por convicção”, completa.

“Essa história do presidente não seria possível sem esse trabalho que a gente construiu com toda a militância, não só do PT, mas dos partidos aliados, das frentes, das pessoas do Brasil e do mundo todo que vieram dar apoio a essa causa”, afirmou Cláudia Troiano, assessora especial de Lula, no Restaurante Tia Zélia.

Eleições de 2018

A obra aborda o processo eleitoral violento que levou Jair Bolsonaro ao poder e o clima de terra arrasada que ficou depois. Contudo, Haroldo considera que a insistência do PT no nome de Lula até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidir que ele não poderia ser candidato foi importante para as conquistas que vieram depois, e que a campanha de Fernando Haddad em seu lugar, mesmo tendo perdido no segundo turno, foi essencial para reafirmar “que o partido seguia vivo, organizado e com força eleitoral”.

“Ao fim do processo eleitoral, o sentimento não era de derrota definitiva: ao contrário, a sensação de que era possível construir novos caminhos ficou aberta, mesmo que o gosto ainda fosse amargo. O fato é que as movimentações inscritas neste capítulo deixaram claro que uma Campanha Lula Livre, mais organizada e focada, poderia ser vitoriosa. Havia uma massa, ainda que difusa, pronta para seguir na luta”, defende a obra.

A construção do símbolo

“Uma das grandes qualidades dos líderes políticos sempre foi a de exercer, também, um papel pedagógico. Saber apontar caminhos, mas também distribuir aprendizados e preparar seus companheiros de luta não só para as vitórias, mas também para as derrotas”, afirma o autor no livro. 

Segundo ele, esse foi o principal papel que Lula exerceu como líder da esquerda brasileira desde sua condução coercitiva em 2016 até seu discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 6 de abril de 2018, anunciando que se entregaria à Polícia Federal: “Lula tinha, além de reafirmar suas posições, outro objetivo claro: orientar a militância, prepará-la, uma vez mais, para lutar e indicar onde era possível encontrar alguma esperança”.

A partir daquele momento, atividades pela libertação de Lula passaram a fazer parte das mais diversas mobilizações da esquerda, como os movimentos de 1º de Maio e os protestos contra a reforma da previdência de Bolsonaro. “A Campanha Lula Livre tinha como principal objetivo ‘acordar’ os militantes de esquerda que estavam em casa, abatidos com a vitória de Bolsonaro”, afirma Haroldo.

Enquanto isso, a Vigília Lula Livre “passou assim a ter uma segunda motivação, além de tirar Lula da prisão: a formação dos militantes”, a partir de atividades desenvolvidas com “a ideia de que a melhor formação política se faz durante a ação”.

Ao longo desse processo de 580 dias de gritos de “Lula Livre” em shows, protestos e outros tantos eventos públicos, segundo Haroldo, “Lula substituía Che Guevara como ícone pop da esquerda”.

No evento de lançamento, Rodrigo Rodrigues, presidente da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF), que atuou como dirigente e porta-voz da Frente Brasil Popular, lembrou do momento em que a soltura de Lula interrompeu a abertura do Congresso da entidade:

“Tivemos que suspender o Congresso no primeiro dia porque foi coincidentemente o dia em que o presidente foi liberto. Virou um ato de celebração. […] A gente pensava: quem somos nós para nos desanimarmos se o nosso líder máximo está dizendo para a gente continuar?”

Esse símbolo se completou perfeitamente em um evento narrado no posfácio da obra: “A ausência de Jair, que, como o último ditador do regime militar, João Batista Figueiredo, recusou-se a passar a faixa ao sucessor, acabou por produzir a mais simbólica cerimônia de posse da história do Brasil.”

João Vitor Castro, da Rede PT de Comunicação.

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