Xi Jinping eleva parceria com o Brasil e coloca relação com Lula no centro da articulação do Sul Global

Da Redação

Mensagem transmitida por Wang Yi a Celso Amorim afirma que relação sino-brasileira alcançou novo patamar estratégico; Pequim propõe aprofundar cooperação em inteligência artificial, minerais críticos e desenvolvimento e ampliar coordenação com Brasília no BRICS e nas grandes crises internacionais

A relação entre Brasil e China está sendo apresentada por Pequim cada vez menos como uma parceria essencialmente comercial e cada vez mais como uma associação estratégica destinada a produzir efeitos sobre a reorganização da ordem internacional. Nesta quarta-feira, 16 de setembro, o chanceler chinês Wang Yi transmitiu ao assessor especial da Presidência Celso Amorim uma mensagem de Xi Jinping na qual o presidente chinês classificou como “extraordinário” o desenvolvimento das relações bilaterais sob a condução de Luiz Inácio Lula da Silva e defendeu que os dois países ampliem sua coordenação em temas internacionais, multilaterais e de desenvolvimento. O encontro ocorreu em Pequim, poucos dias depois da 18ª Cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi.

A formulação utilizada pelo governo chinês é significativa. Segundo o comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang afirmou que, sob a orientação estratégica de Xi e Lula, Brasil e China passaram de uma “parceria estratégica abrangente” para aquilo que os dois governos denominam uma “comunidade de futuro compartilhado”. Pequim acrescentou que a dimensão “global, estratégica e de longo prazo” da relação se tornou mais evidente e apresentou a aproximação entre os países como um exemplo de cooperação entre grandes nações do Sul Global.

Não se trata apenas de linguagem diplomática. A mudança de vocabulário acompanha uma ampliação concreta da agenda. Celso Amorim levou a Pequim uma carta de Lula dirigida a Xi e discutiu com Wang Yi inteligência artificial, minerais críticos, terras raras, BRICS, Ucrânia, Oriente Médio e América Latina. Brasil e China também trataram da possibilidade de desenvolver sistemas de inteligência artificial de código aberto e de ampliar a capacidade brasileira de processamento e agregação de valor em minerais estratégicos, em vez de limitar a relação à exportação de matérias-primas.

Esse ponto talvez seja o mais importante para compreender a etapa atual da parceria. Durante décadas, a relação econômica sino-brasileira cresceu sobretudo sobre uma estrutura complementar relativamente clara: o Brasil tornou-se grande fornecedor de soja, minério de ferro, petróleo e outros produtos básicos, enquanto a China passou a vender ao mercado brasileiro uma quantidade crescente de manufaturados, máquinas, equipamentos eletrônicos e produtos de maior intensidade tecnológica. O novo desafio colocado pelas duas partes é saber se essa relação pode avançar para produção conjunta, tecnologia, infraestrutura digital e cadeias industriais de maior valor agregado.

É justamente aí que inteligência artificial e minerais críticos se encontram. Terras raras e outros minerais estratégicos são componentes essenciais de semicondutores, veículos elétricos, sistemas energéticos, telecomunicações, equipamentos militares e uma ampla gama de tecnologias avançadas. A China possui posição central em diversas etapas dessas cadeias. Para o Brasil, que dispõe de reservas minerais expressivas, a questão estratégica não é apenas ampliar a extração, mas construir capacidade de processamento, domínio tecnológico e produção industrial no território nacional.

A mensagem transmitida por Xi ocorre, portanto, num momento em que tecnologia e recursos naturais se tornaram elementos fundamentais da competição entre as grandes potências. Se a cooperação mencionada em Pequim resultar efetivamente em transferência de tecnologia, investimento produtivo, pesquisa conjunta e processamento local, a relação sino-brasileira poderá avançar para um nível qualitativamente diferente daquele baseado predominantemente na troca de commodities por manufaturas. Se isso não ocorrer, permanecerá o risco de reproduzir, ainda que com outro parceiro, uma estrutura econômica concentrada na exportação de recursos naturais.

A inteligência artificial acrescenta outra dimensão. O comunicado chinês afirma que Pequim recebeu positivamente a decisão brasileira de aderir à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial e manifestou disposição para trabalhar com Brasília por uma IA “inclusiva” e acessível. Para o Brasil, essa discussão envolve mais do que adquirir modelos ou serviços estrangeiros: envolve infraestrutura computacional, centros de dados, chips, formação de modelos, armazenamento de dados e capacidade de desenvolver sistemas adaptados às necessidades nacionais.

O encontro desta quarta-feira também confirma uma continuidade diplomática. Em julho, Lula e Xi conversaram por telefone e defenderam a ampliação da cooperação em inteligência artificial, energia, minerais e outras áreas tecnológicas. Na ocasião, Xi declarou que a China atribuía grande importância à posição internacional brasileira, apoiava a preservação da soberania e da independência do país e se opunha a interferências externas. O comunicado oficial chinês também defendia coordenação mais estreita entre Brasília e Pequim na reforma da governança internacional.

Do lado brasileiro, a conversa de julho acrescentou satélites, beneficiamento de minerais críticos e fertilizantes à agenda, além da intenção de avançar nas tratativas entre China e Mercosul. É uma pauta que mostra como a parceria está progressivamente entrando em setores ligados diretamente à capacidade produtiva e tecnológica dos Estados.

O que aparece agora com maior nitidez é a dimensão geopolítica dessa aproximação. Wang Yi afirmou que Brasil e China, como grandes países em desenvolvimento situados nos hemisférios ocidental e oriental, deveriam aprofundar a coordenação estratégica e contribuir para introduzir estabilidade numa conjuntura internacional marcada por conflitos. O chanceler chinês falou ainda em preservar a “chama do multilateralismo” e promover unidade e capacidade de ação do Sul Global.

Essa linguagem está diretamente relacionada ao papel que Pequim pretende atribuir ao BRICS. A cúpula de Nova Délhi, encerrada poucos dias antes, reforçou a agenda de cooperação econômica, reforma da governança global e ampliação dos instrumentos próprios do agrupamento. A China assumirá a presidência do BRICS em 2027, o que coloca a coordenação com o Brasil — um dos fundadores do grupo — dentro de um horizonte que vai muito além das relações comerciais bilaterais.

Brasil e China, porém, não formam uma aliança militar nem possuem posições idênticas sobre todos os assuntos internacionais. Brasília mantém relações econômicas e diplomáticas importantes com Estados Unidos, União Europeia e outros polos de poder e historicamente procura preservar margem de autonomia entre as grandes potências. A aproximação com Pequim deve ser entendida nesse contexto: ela amplia alternativas e capacidade de negociação brasileira, mas não equivale automaticamente a um alinhamento integral com a política externa chinesa.

É uma distinção fundamental. Para o Brasil, multipolaridade pode significar aumentar o número de parceiros e reduzir dependências excessivas; substituir uma dependência por outra produziria resultado diferente. A própria experiência das potências emergentes mostra que autonomia internacional depende menos de escolher um centro de poder contra outro do que de desenvolver capacidade econômica, tecnológica, financeira e institucional própria.

Pequim, por sua vez, possui razões estratégicas para aprofundar a relação. O Brasil é a maior economia da América Latina, importante produtor de alimentos, energia e minerais, membro fundador do BRICS e ator relevante do G20. Em junho, durante o diálogo estratégico entre os chanceleres Wang Yi e Mauro Vieira, o governo chinês já havia descrito Brasil e China como força importante para estabilidade e desenvolvimento internacionais e destacado a evolução da parceria bilateral.

A relação econômica fornece a base material para essa aproximação. A China é há anos o principal parceiro comercial brasileiro, e a interdependência construída desde o início do século tornou o relacionamento muito mais resistente às mudanças de governo do que era anteriormente. Em 2025, por exemplo, Brasília decidiu instalar uma representação tributária em Pequim, justificando a medida pela crescente complexidade das relações comerciais e pela necessidade de aprofundar a cooperação fiscal e aduaneira.

O movimento atual procura acrescentar uma segunda camada a essa base econômica: coordenação política e tecnológica.

É nesse ponto que a viagem de Amorim ganha importância. O assessor de Lula não discutiu apenas comércio com Wang Yi. Os dois trataram da guerra na Ucrânia, do Oriente Médio e da situação latino-americana. O comunicado chinês registra que houve troca aprofundada de posições sobre essas crises. Isso demonstra que Pequim considera Brasília um interlocutor para questões que ultrapassam a América do Sul.

Essa dimensão também se relaciona à tentativa brasileira de preservar uma política externa baseada em negociação e multipolaridade. Brasil e China participaram conjuntamente de iniciativas diplomáticas relacionadas à Ucrânia e vêm defendendo maior peso dos países em desenvolvimento nas instituições internacionais. Existem diferenças entre os dois países, mas também uma convergência recorrente em torno de reforma da governança global, fortalecimento das Nações Unidas e ampliação da representação do Sul Global.

A expressão utilizada por Xi — e reiterada agora por Wang Yi — de que Brasil e China devem contribuir para a “unidade e autossuficiência” do Sul Global merece atenção especial. Autossuficiência, nesse contexto, não significa isolamento econômico. A ideia chinesa está relacionada à ampliação da capacidade de países emergentes financiarem, produzirem, comercializarem e desenvolverem tecnologia sem depender exclusivamente das estruturas controladas pelas economias desenvolvidas.

O BRICS é uma das plataformas onde essa estratégia vem sendo testada. Bancos de desenvolvimento, pagamentos transfronteiriços, liquidação comercial em moedas nacionais, infraestrutura, inteligência artificial e mecanismos de continuidade institucional passaram a ocupar a agenda do agrupamento. Isso não significa que o BRICS esteja construindo uma moeda única ou se transformando numa organização supranacional. O grupo permanece heterogêneo e baseado em consenso entre Estados soberanos.

Para o Brasil, a oportunidade e o desafio aparecem simultaneamente. A aproximação com a China pode abrir acesso a investimentos, infraestrutura, mercado, financiamento e tecnologia. Mas seu resultado estratégico dependerá da capacidade brasileira de utilizar essa relação para ampliar produção nacional, conhecimento tecnológico e autonomia, em vez de simplesmente aumentar a exportação de recursos naturais.

É nesse sentido que a pauta discutida por Amorim em Pequim — IA, minerais críticos, terras raras e agregação de valor — pode ser mais importante do que o volume comercial isoladamente considerado. Ela toca diretamente na estrutura produtiva que determinará quais países controlarão setores decisivos da economia nas próximas décadas.

A mensagem de Xi a Lula, portanto, não deve ser lida apenas como elogio diplomático entre dois governos. Ela expressa uma estratégia chinesa mais ampla para o Brasil e para o Sul Global e encontra, do lado brasileiro, uma política externa que busca ampliar espaços de autonomia numa ordem internacional em transformação.

O teste decisivo estará na materialização dessa linguagem. Se a “comunidade de futuro compartilhado” produzir fábricas, pesquisa, processamento mineral, inteligência artificial, infraestrutura tecnológica, financiamento e cadeias produtivas de maior complexidade instaladas no Brasil, a relação terá efetivamente mudado de natureza. Se permanecer concentrada no intercâmbio entre matérias-primas brasileiras e produtos tecnologicamente sofisticados chineses, a retórica estratégica terá avançado mais rapidamente do que a estrutura econômica.

A reunião de Celso Amorim com Wang Yi mostra que os dois governos querem trabalhar justamente sobre essa fronteira. E a mensagem transmitida por Xi deixa claro que, para Pequim, o Brasil de Lula já não é tratado apenas como grande fornecedor e mercado latino-americano, mas como parceiro político relevante na disputa pela forma que assumirá uma ordem internacional mais multipolar.

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