
A Polícia Federal afirma que um grupo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro acessou informações de processos sigilosos por consultas registradas em logins funcionais de servidores do Ministério Público Federal (MPF). O relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) reproduz mensagens nas quais ele pede documentos sobre investigações envolvendo o Banco Master e o BRB.
As conversas atribuídas a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário e identificado como Felipe Mourão nas mensagens, indicam que ele encaminhava a Vorcaro resultados de buscas em sistemas internos. Em julho de 2025, após Mourão compartilhar uma consulta com os termos “BRB AND MASTER”, o ex-banqueiro respondeu: “Quero tudo. Atenção total”.
A investigação relata que, em junho de 2024, Mourão enviou uma lista de pessoas e empresas e disse que Vorcaro poderia incluir outros nomes “pra puxar os sigilosos”. Quando ele perguntou quais documentos o então banqueiro queria receber, a resposta foi: “Todos, obviamente”.
No dia seguinte, Mourão afirmou que tinha “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF, mas disse não saber por quanto tempo as consultas continuariam disponíveis. A PF atribui a ele o oferecimento de buscas sobre pessoas e empresas, além do compartilhamento de documentos de procedimentos protegidos por sigilo.

PF ainda apura como logins de servidores foram usados
Parte dos documentos analisados constava em consultas feitas a partir do login funcional de uma servidora do MPF. Os investigadores também localizaram uma busca pelo CPF de Vorcaro, em 23 de julho de 2024, registrada no login de outro servidor: ela encontrou 15 procedimentos ligados ao ex-banqueiro, dos quais 11 tramitavam sob sigilo.
A PF ainda não definiu se os próprios servidores fizeram as consultas, se cederam as credenciais ou se terceiros acessaram as contas sem conhecimento dos titulares. O relatório não atribui participação consciente aos donos dos logins e aponta, em um dos casos, indícios de tentativa de ocultar a identidade do responsável pela consulta.
Os investigadores também descrevem um episódio ocorrido em janeiro de 2025, quando Vorcaro enviou a Mourão uma imagem de helicóptero e afirmou que a aeronave havia sobrevoado sua casa na Bahia durante 40 minutos. “Fazendo todo perímetro”, escreveu o ex-banqueiro, que disse querer apresentar uma queixa à polícia.
Mourão respondeu que seria necessário descobrir quem contratou o helicóptero e quem estava a bordo, acrescentando: “E pedir para a turma ir em cima”. Ainda naquele dia, ele enviou um arquivo com brasão e identificação do MPF, classificado como “URGENTE/SIGILOSO”, para pedir a uma empresa aérea dados sobre contratante, itinerários, horários e passageiros.
O documento não trazia assinatura digital ou manuscrita, fato que a PF considerou incomum diante da classificação de urgência e sigilo. Em 16 de janeiro, Mourão encaminhou a Vorcaro uma resposta atribuída à empresa, que informava ter recebido a requisição e detalhava voos, contratante e itinerários; as páginas examinadas não mostram confirmação do MPF sobre a autenticidade do ofício nem autorização expressa de Vorcaro para seu envio.
Segundo a PF, Mourão integrava o núcleo chamado de A Turma, descrito na investigação como uma suposta milícia voltada a monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias ou ligadas às apurações sobre o banco. Ele morreu após se enforcar em uma cela da Superintendência da PF em Minas Gerais, em 4 de março, depois de ser preso na Operação Compliance Zero.
Na conclusão, a PF sustenta que o grupo acessava de forma recorrente e irregular procedimentos em sigilo no MPF e em outros órgãos, com uso de logins funcionais de terceiros, extração de documentos e consultas não autorizadas. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos relacionados ao caso, além do inquérito principal, após pedido do presidente do STF, Edson Fachin.