O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na noite desta quinta-feira (1º), em entrevista ao Flow Podcast, que o Brasil deve evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas e avançar no processamento de terras raras e minerais críticos em território nacional. Segundo ele, China e Estados Unidos podem participar desse processo como parceiros tecnológicos, desde que o país preserve sua autonomia.
Ao tratar das riquezas minerais brasileiras, Lula resumiu sua posição: “A gente não vai deixar mais exportar nossos minérios, a gente quer transformar aqui no Brasil. Tem um plano real para isso.”
O presidente também defendeu a cooperação tecnológica com os dois países. “A China pode ser parceira nossa, trazendo tecnologia para nós, como os Estados Unidos também. Eu não tenho cerceamento aos Estados Unidos”, afirmou.
Na sequência, reforçou a defesa da autonomia brasileira diante das pressões do governo Donald Trump: “Agora, o Trump tem que saber que ele cuida dos Estados Unidos; do Brasil, tomo conta eu.”
Terras raras como parte da estratégia tecnológica
Na entrevista, Lula associou a exploração das terras raras e dos minerais críticos a uma estratégia mais ampla de industrialização, formação científica e autonomia tecnológica. Para o presidente, o objetivo não é apenas ampliar a extração mineral, mas desenvolver no país as etapas de maior valor agregado.
“A gente quer fazer uma revolução na formação de engenheiros e pesquisadores de geofísica para a gente explorar terras raras e minerais críticos”, disse.
Lula também relacionou a política mineral à produção de tecnologias consideradas estratégicas para o futuro da economia. “O futuro do Brasil é ser uma potência econômica, uma potência energética, uma potência da transição energética com minerais críticos e terras raras.”
Em seguida, citou setores como baterias, semicondutores, telefonia e inteligência artificial: “Você acha que a gente vai ficar dependendo do chinês para fazer baterias elétricas? Vamos fazer chips aqui, celular aqui. Inteligência artificial em português”, afirmou.
A fala ocorre poucas semanas depois de o governo sancionar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A Lei nº 15.506/2026 criou a política e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), com diretrizes para estimular pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral e agregação de valor no país.
A legislação também estabelece mecanismos de controle sobre determinadas mudanças de controle societário e participações estrangeiras relacionadas a ativos minerais considerados críticos ou estratégicos.
Nióbio e a relação com os Estados Unidos

Lula citou ainda o nióbio como exemplo da importância estratégica dos recursos minerais brasileiros. Segundo o presidente, os Estados Unidos dependem de importações brasileiras do mineral.
“O Trump sabe que nós temos coisas estratégicas que ele precisa. Eu ainda não coloquei em prática a lei da reciprocidade, mas ele [Trump] é importador de nióbio, e 60% do nióbio dele é daqui do Brasil”, declarou.
Ao comentar a disputa comercial com Washington, acrescentou: “Eu vou jogar do mesmo jeito que ele jogou.”
O nióbio é utilizado em ligas metálicas e possui aplicações industriais e tecnológicas. Na política brasileira de minerais críticos, a discussão sobre esses recursos está vinculada à busca por maior agregação de valor, desenvolvimento tecnológico e redução de vulnerabilidades em cadeias estratégicas.
O governo também aponta a formação de profissionais e a produção de conhecimento geocientífico como gargalos para transformar o potencial mineral brasileiro em capacidade industrial. A Agência Nacional de Mineração destacou recentemente desafios que vão da formação de pessoal à necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa mineral.