Trump sanciona sul-africanos por suposta discriminação contra brancos

Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Joyce N. Boghosian/Casa Branca

O governo de Donald Trump anunciou nesta terça-feira (15) novas restrições de visto contra cidadãos sul-africanos que Washington considerar responsáveis ou cúmplices de leis ou ações que facilitem expropriações sem indenização, discriminação racial ou incitação à violência contra minorias.

A medida reforça o recorte racial da política de Trump para a África do Sul: enquanto ameaça sancionar indivíduos enquadrados nesses critérios, a Casa Branca concede prioridade aos afrikaners brancos no programa estadunidense de refugiados. A nova política foi confirmada pela Reuters e pela Associated Press.

Marco Rubio afirmou que o governo sul-africano não teria respondido adequadamente às preocupações dos Estados Unidos e anunciou que vistos poderão ser negados ou revogados. O secretário de Estado não indicou quem será atingido. O comunicado oficial cita nominalmente os afrikaners entre as populações que Washington considera vítimas de “discriminação patrocinada pelo governo” e diz que familiares de pessoas enquadradas na política também podem ser alcançados.

A seletividade fica mais evidente quando a nova punição é comparada à política de refúgio de Trump. Até o fim de junho, os Estados Unidos já haviam admitido mais de 7.700 afrikaners enquanto o programa de refugiados foi drasticamente reduzido para pessoas de outras origens. O movimento começou em 2025, quando Trump abriu uma via especial para sul-africanos brancos e depois reservou a maior parte das vagas de refugiados de 2026 a esse grupo.

Os afrikaners são descendentes sobretudo de colonos europeus e ocuparam papel central no regime de apartheid que manteve a maioria negra sul-africana sem direitos políticos e submetida a segregação institucional até 1994. A própria AP ressalta que o grupo não é homogêneo e que houve afrikaners que combateram o apartheid, mas registra que eles estiveram “no coração” do sistema de domínio da minoria branca. A política de Trump desloca justamente essa população para a posição de grupo racial prioritariamente protegido por Washington.

Parte da ofensiva estadunidense se apoia na lei de expropriação adotada pela África do Sul para enfrentar desigualdades herdadas do regime segregacionista. Checagens da AFP mostram que a legislação substituiu uma norma de 1975, da era do apartheid, e admite expropriação sem compensação apenas em circunstâncias específicas. Quando Trump passou a acusar Pretória de confiscar propriedades de brancos, nenhuma terra havia sido tomada sob a nova lei. Além disso, pessoas brancas detinham 72% das terras agrícolas privadas em levantamento oficial de 2017, apesar de representarem uma parcela muito menor da população.

Rubio já havia levado essa defesa dos afrikaners ao X. Em 2025, escreveu que líderes sul-africanos deveriam agir para proteger o grupo e outras minorias e afirmou que os Estados Unidos tinham orgulho de receber pessoas que se qualificassem para admissão no país. No mesmo período, o secretário expulsou o embaixador sul-africano Ebrahim Rasool, veterano da luta contra o apartheid, depois que o diplomata relacionou o movimento MAGA a uma reação ao declínio da predominância branca nos Estados Unidos. Rubio o chamou de “político incendiário racial”.

Pretória rejeita a tese de perseguição sistemática contra pessoas brancas. A Reuters registra que o governo sul-africano considera a narrativa uma ameaça à unidade construída após o apartheid e lembra que, embora o país tenha uma das maiores taxas de homicídio do mundo, a maioria das vítimas é negra. A nova política de vistos não apresentou nomes de possíveis alvos, e a embaixada da África do Sul em Washington ainda não havia respondido à agência até a publicação da informação.

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