A sede da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), em São Paulo, tornou-se palco de um encontro histórico nesta semana, recebendo Alireza Mahmoudi, secretário-geral adjunto da Casa dos Trabalhadores Iranianos e chefe da delegação iraniana no BRICS 2026. O evento reuniu dirigentes da CTB, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), marcando um momento de intensa articulação internacional frente à escalada de conflitos liderados pelos Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica.
Ronaldo Leite, vice-presidente da CTB, explicou que a iniciativa partiu da necessidade estratégica de estreitar laços com entidades coirmãs globais. “No caso do Irã, a visita teve um significado especial uma vez que há uma agressão imperialista ao povo iraniano”, afirmou Leite ao Portal Vermelho. Para ele, o encontro permitiu compreender duas realidades fundamentais: a alta organização da classe trabalhadora iraniana mesmo sob turbulência e a clara esperança popular por libertação e soberania. “O Irã é simbólico, pois você vê que a maior potência militar do planeta não conseguiu derrotar, ou está sendo derrotada pelo Irã. Não por conta da sua maioria bélica, mas sim por conta da resistência do povo”, analisou o dirigente sindical brasileiro.
Mahmoudi foi enfático ao dizer que o povo iraniano entende o que está em jogo nessa guerra e o papel que o povo iraniano cumpre no mundo hoje. “Até aqueles que tinham dúvidas agora entenderam claramente a face do imperialismo norte-americano. Não resta quase nenhum iraniano que duvide do que Trump e Netanyahu estão buscando. Eles buscam apenas e somente nossos recursos, buscam um país submisso na região, dada a posição geopolítica especial do Irã, e nós não daremos isso a eles de forma alguma. Lutaremos até o último homem”, disse ele em entrevista ao Vermelho.
Desmentindo narrativas oficiais
Durante a palestra aberta ao público, Mahmoudi apresentou dados contundentes sobre as consequências dos ataques norte-americanos e israelenses. Ele relatou que, após dois episódios de guerra — o primeiro com duração de 12 dias e o segundo de 40 dias — houve milhares de mortes civis, incluindo crianças, além do assassinato do líder supremo, Ayatollah Ali Khamenei. O dirigente iraniano refutou categoricamente as justificativas utilizadas pelos EUA para a invasão.
“Eles atacaram pelo motivo da energia nuclear, que não existe lá no Irã. Quantas vezes mais o governo do Irã tem que explicar para todo mundo que é proibido ter bomba nuclear? Nós somos muçulmanos. Qualquer coisa que nosso líder religioso fala, nós temos que obedecer”, declarou Mahmoudi. Segundo ele, a narrativa de “liberdade” imposta pelos EUA é contraditória diante do bloqueio aéreo e econômico atual, que impede a chegada de alimentos e restringe a saída de cidadãos iranianos do país.
Mahmoudi também destacou o papel ativo dos sindicatos na resistência global. Informou que cartas foram enviadas à Federação Sindical Mundial (FSM/WFTU), recebendo apoio irrestrito de centrais sindicais de diversos países, inclusive daquelas sem convênio direto com Washington. “Isso dá força para os iranianos, saber que outros povos no mundo têm fé no caminho deles”, pontuou.
Contexto eleitoral e geopolítico no Brasil

A presença de Mahmoudi coincidiu com um período crucial para o cenário político brasileiro: as eleições presidenciais de outubro de 2026. Nádia Campeão, presidenta nacional interina do PCdoB, ressaltou a importância do testemunho iraniano para desmistificar a cobertura midiática local. “Esclareceu muitas coisas que aqui no Brasil… careciam de esclarecimento do que realmente estava passando com o povo”, disse Nádia à reportagem. Ela enfatizou que a unidade entre os trabalhadores globais é vital para combater o imperialismo estadunidense.
Em entrevista, Mahmoudi aponta que, devido à onda sionista criada na mídia, o mundo não conhece muito bem a realidade. “Nós, através de comunicações virtuais e presenciais, contamos a realidade às pessoas do mundo, aos sindicatos, onde quer que possamos alcançar, para que saibam o que realmente aconteceu no território iraniano. Muitas das notícias que os dominadores dão são fake news e mentiras. A realidade é aquilo que existe publicamente e pode ser visto, é tangível. Nosso dever é vir e dizer isso, para que seja também uma força de ânimo para vocês, e para que saibam o que está acontecendo no mundo. Saibam que resistir pode ser difícil, mas é viável e necessário”, afirmou.
Para Mahmoudi, o resultado das eleições no Brasil transcende fronteiras nacionais. Em tom enfático, ele alertou contra o retrocesso democrático, comparando a influência do presidente Donald Trump a um “vírus”. “Não deixe que aconteça isso no Brasil. Lutem para isso. Não tem nenhuma coisa a perder”, aconselhou. O dirigente iraniano elogiou a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, classificando-o como um líder honesto que prioriza a economia do povo e se mantém firme na defesa da verdade, mesmo em meio à pressão midiática.
José Reinaldo, presidente do Cebrapaz, corroborou essa visão, afirmando que a civilização iraniana vencerá apesar da brutalidade das agressões. “Nossa convicção profunda é que o imperialismo e o sionismo podem ser poderosos militarmente… mas serão derrotados. O povo iraniano vencerá. Os povos do mundo vencerão”, proclamou.
Um novo Vietnã?
Questionado sobre a capacidade dos EUA de reconstruir suas bases militares destruídas no Oriente Médio e o isolamento de Israel, Mahmoudi foi categórico: “Nós não voltaremos a um ano atrás. Nós não deixaremos voltar para as condições de antes. Não pararemos. Nossa nação decidiu dar um fim à presença norte-americana na região. Expulsaremos a América da região.” Ele mencionou que, embora haja insatisfações internas relacionadas à inflação econômica decorrente das sanções, estas não justificam a intervenção externa. “Iranianos estão um pouquinho nervosos… Mas isso não é motivo para entrar outros países no Irã”, assegurou.
Alireza Mahmoudi não respondeu diretamente à analogia histórica entre Irã e Vietnã. Em vez disso, ele aproveitou a oportunidade para fazer uma crítica contundente à estratégia militar dos Estados Unidos no conflito atual. Ele argumentou que os EUA ainda não conseguiram “entrar no terreno” iraniano (como fizeram no Vietnã), comparando-os a alguém que briga à distância ou a um cachorro latindo sem morder efetivamente.
Ele questionou retoricamente se os EUA alcançaram seus objetivos, destacando que o regime iraniano não mudou, o poder dos mísseis não diminuiu e que Washington gastou bilhões apenas para garantir o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, sem obter ganhos estratégicos reais. ”Muito dinheiro gastou e não ganhou nada”.
Mahmoudi deixou claro que, se os EUA quiserem aumentar o volume da guerra, o Irã fará o mesmo. O objetivo declarado é expulsar as forças americanas da região. Ele enfatizou que os povos e países da região do Golfo Pérsico são capazes de estabelecer relações pacíficas entre si, sem a necessidade de potências externas, marcando o fim do imperialismo na área.
Portanto, a resposta de Mahmoudi à comparação foi usada para desconstruir a narrativa de vitória norte-americana e afirmar a superioridade da resistência iraniana em manter sua soberania frente a uma potência que, segundo ele, age de forma intimidatória mas ineficaz em solo iraniano.
O dirigente também abordou a situação dos trabalhadores nas monarquias do Golfo Pérsico, apontando a fragilidade das estruturas sindicais nesses regimes, frequentemente compostas majoritariamente por mão de obra migrante sem direitos plenos. Em contraste, citou a robustez das centrais brasileiras, como a CUT e a CTB, que representam cerca de 20 milhões de trabalhadores, servindo de modelo para o movimento sindical global alinhado ao BRICS.
“Sim, houve dificuldades na nossa economia, mas rapidamente os oficiais e o povo recuperaram e revitalizaram isso. Agora, exceto por questões petroquímicas e petróleo, em outras áreas, especialmente alimentares, não temos problemas, graças a Deus. No nosso país, não há escassez agora. Todas as lojas estão fornecendo serviços, as pessoas vivem suas vidas. Houve inflação, o que é natural; toda resistência tem um custo, e nossa nação conscientemente aceitou esse custo”, relatou em entrevista.
Ao encerrar sua participação, Mahmoudi deixou uma mensagem de união e determinação: “Viva a liberdade! Viva a justiça! Viva Lula! Viva os trabalhadores!”. A atividade reafirmou o compromisso da esquerda brasileira e das centrais sindicais em construir uma alternativa geopolítica multipolar, onde a solidariedade entre os povos do Sul Global se torna a principal ferramenta contra a hegemonia unilateral.