Sakamoto: Vorcaro bancou o tarifaço contra o Brasil montado no Dark Horse?

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro – Foto: Daniel Ramalho/AFP; Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL

Apesar de as quebras de sigilo até aqui sugerirem que o ministro André Mendonça gastou mais sua energia para buscar informações sobre o adversário Alexandre de Moraes do que para investigar o aliado Flávio Bolsonaro por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o pouco revelado até agora reforça as suspeitas de que milhões transferidos por Daniel Vorcaro a pedido do senador tiveram um fim ainda menos nobre do que o filme Dark Horse. E pode ter bancado traição à pátria.

Flávio solicitou (e cobrou, e cobrou, e cobrou…) R$ 134 milhões do dono do Master em tese para a obra sobre a vida de seu pai — dinheiro que até um suricato desatento sabe que não pode ser chamado de “privado”, uma vez que o Master mamou em fundos de aposentadorias de servidores públicos e no Banco de Brasília. É dinheiro público — e sem a necessidade chata de prestação de contas da Lei Rouanet.

Enquanto o deputado Mario Frias (PL-SP) e Karina Gama, dona da produtora do filme, recebiam recursos de outras fontes nacionais — a Polícia Federal investiga o desvio de emendas parlamentares, ou seja, mais dinheiro público — para que o filme fosse rodado no Brasil, pelo menos R$ 70 milhões foram enviados aos Estados Unidos por meio do fundo Havengate, sob a tutela do advogado migratório de Eduardo Bolsonaro.

Mario Frias, Karina Gama e Eduardo Bolsonaro. Foto: Reprodução/ Geraldo Magela/Agência Senado

As informações disponíveis até aqui indicam que não é possível dizer que todo o dinheiro que mandado para fora acabou empregado no filme. A PF investiga se a grana foi usada na produção ou para manter as atividades dele enquanto conspirava junto ao governo Donald Trump. Isso — segundo afirmou o próprio deputado na época — ajudou a estabelecer o primeiro tarifaço contra o Brasil no ano passado. Um dos elementos que corrobora essa hipótese é que a Procuradoria-Geral da República aponta que o ex-deputado, que está em autoexílio no Texas, orientou a gestão desses recursos.

Confirmado que a grana manteve Eduardo enquanto ele tentava barrar o julgamento e a condenação de Jair por tentativa de golpe, podem-se somar “coação no curso do processo” e, por que não, a “traição” ao rol de investigações envolvendo Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. É um belo currículo a um pretendente à Presidência da República.

Sempre que é confrontado sobre o cascalho do Vorcaro, Flávio Bolsonaro diz que a produtora Go Up já fez uma perícia privada e provou que estava tudo em ordem. Mentira. Artur Rodrigues e Amanda Rossi, no UOL, apontam hoje o contrário: a ação da PF identificou conflitos em relação ao volume de recursos que teria voltado do exterior para o Brasil para a execução do filme.

Enquanto isso, Natália Portinari, Cézar Feitoza, Artur Rodrigues e Fabio Serapião, também no UOL, revelam que o braço da produtora de Dark Horse nos EUA se recusou a entregar às autoridades brasileiras os documentos contábeis e bancários da empresa, mantendo sob sigilo informações relativas a 72% do custo da produção do filme. Basicamente, exige uma ordem de um juiz norte-americano. Para tanto, precisaríamos que o STF fizesse esse pedido. Mas Mendonça só tem olhos para Moraes.

Imagem de divulgação de “Dark Horse”

Traduzindo: o boteco da esquina tem contas mais redondas e transparentes do que as de Dark Horse.

Outra dúvida é se toda a informação coletada foi realmente divulgada por Mendonça ou se dados apurados em diligências da PF ainda em curso não vieram a público sob a justificativa de não atrapalhar as investigações. Isso sem contar os dados dos oito celulares de Daniel Vorcaro, que foram apenas parcialmente revelados, prejudicando uns e beneficiando outros.

Na atual conjuntura, em que dados de ministros do STF foram divulgados mesmo sem autorização para tanto, seria importante que toda a informação viesse a público. O dano à Justiça e ao país provocado pela atual percepção de tentativa de interferência eleitoral por meio do vazamento seletivo de informações é pior do que qualquer prejuízo às investigações da polícia.

A percepção, até aqui, é a de que o filme foi um grande aríete contra o próprio Brasil. O problema, portanto, já não é saber se Dark Horse é ruim, mas descobrir por que tanta gente poderosa parece tão pouco interessada em chegar aos seus créditos finais.

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