Meu vizinho Vandré aos 91 anos: Memória, Farsa e Silêncio, por Armando Coelho

Meu vizinho Vandré aos 91 anos: Memória, Farsa e Silêncio

por Armando Coelho Neto

Nego: termo gravado na bandeira da Paraíba, estado onde nasceu Geraldo Vandré. Essa mesma palavra batizava uma brochura tratada pelo poeta como um futuro livro. Na prática, tratava-se de uma longa petição jurídica iniciada por essa negação e dirigida ao Poder Judiciário, por meio da qual ele recusava oficialmente a anistia concedida aos cidadãos perseguidos pela ditadura militar de 1964. Fato real.

Eu o tratava por poeta, e ele gostava. Mostrava-se sempre avesso a perguntas sobre o seu passado e, usando um termo próprio, preferia nossos dialogos “marcados pela fenotipia”. Leia-se: traços de origem comum, modo de vestir, informalidade e leveza. Usava de sofisticação conceitual na nossa descontração, ainda que a curiosidade histórica, comum a todos, me corroesse por completo as entranhas.

Fomos vizinhos por quase trinta anos, mantendo visitas esporádicas e recíprocas. As minhas eram programadas, as dele não. Ele surgia em minha casa a qualquer momento, atraído pelo cheiro de uma comida, por um acorde de música ou pela algazarra de minhas bagunças noturnas. Entrava, tomava uma cerveja sem gelo por considerar mais gostosa e provava o prato. Nunca rendeu confidências no fim.

No cotidiano, eu sempre respeitava seus pequenos hábitos, driblando a forte curiosidade de qualquer pessoa que um dia se encantou com “uma certa canção popular”. O que de fato aconteceu com Geraldo Vandré? Se depender do seu próprio testemunho, o Brasil talvez jamais saberá a verdade, exceto se revelada por algum biógrafo com acesso definitivo aos seus segredos mais ocultados em vida.

A traumática volta de Vandré ao país pode estar na raiz desse mistério. Entre os anos de 1970 e 1975, os militares adotavam uma tática cruel de guerra psicológica para humilhar publicamente os militantes de esquerda. Após violentas torturas físicas e mentais, as vítimas eram forçadas a elogiar o regime militar, dizer que eram bem tratadas nas prisões e chamar antigos companheiros de terroristas.

Uma das retratações mais polêmicas ocorreu na TV Tupi com Massafumi Yoshinaga, de 21 anos, militante da Vanguarda Popular Revolucionária. Livre, ele enfrentou isolamento político, distúrbios psicológicos profundos e o estigma de traidor, preso aos traumas da tortura sofrida. Após duas tentativas de suicídio, aos 27 anos, ele se enforcou usando a mangueira do chuveiro em sua própria casa.

A ditadura era dominada por essa tática de coerção psicológica pós-tortura. Vandré foi torturado? Não se sabe. O mistério persiste, embora se especule o contrário devido às supostas boas relações de seu pai com oficiais militares. Ele desembarcou no Galeão em junho de 1973. Nada se sabe sobre o seu paradeiro até 21 de agosto do mesmo ano, data em que foi encenada a sua oficial volta ao país.

Com a farsa pronta e o cenário mudado, Vandré desembarcou de um avião da Varig no Aeroporto de Brasília. O rosto jovial da era dos Festivais deu lugar a um homem magro, abatido, de barba densa e desgrenhada, com semblante exausto. Vestia roupas simples e exibia o cansaço típico de quem vinha da Europa como um vagante do exílio, conforme relatam bem os jornalistas Vitor Nuzzi e Jorge Fernando Santos.

O falso desembarque e a retratação pública de Vandré foram transmitidos pelo Jornal Nacional. O regime militar usou a voz empostada de Cid Moreira para anunciar solenemente o retorno. Diante da aeronave, falsos repórteres com gravadores faziam perguntas combinadas. Durante a farsa, a censura prévia era rigorosa e proibia terminantemente qualquer menção ao seu nome.

A exemplo de outros “arrependidos”, Vandré retratou-se do que os militares lhe atribuíam. Declarou não ter vínculos com a esquerda e afirmou que sua música era usada sem autorização. O roteiro aprovado pelos censores federais foi seguido à risca. Para o grande público, parecia o arrependimento sincero de um subversivo; para a história, apenas mais uma farsa encenada pela ditadura militar.

Meu primeiro encontro com Vandré ocorreu em sua casa, onde vi o projeto do livro “Nego”, quando tratou “Caminhando” como “uma certa canção popular”. Até hoje, parece que o lema da bandeira paraibana guia sua trajetória, na qual prevalece a negação. Querendo ou não, ele entrou para a história nacional e transformou-se no acervo sentimental de gerações de fiéis admiradores da sua obra rica.

Para não dizer que não falei das flores, aos 91 anos de idade, Geraldo Vandré ainda representa uma dolorosa ferida aberta e uma memória viva a ser reverenciada por todos nós, principalmente diante deste cenário de um preocupante fascismo em ascensão. O seu silêncio voluntário é, por si só, uma forma ativa de resistência política contra o brutal apagamento histórico que tentaram impor à sua vida.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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