Sakamoto: Dez coisas que o jornalismo pode fazer diante de um candidato que mente

Um dos maiores riscos ao futuro são políticos que mentem sobre a não existência de aquecimento global Imagem: Imagem gerada com ajuda de IA

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Candidatos que mentem compulsivamente não participam de entrevistas para esclarecer o eleitorado, mas para sequestrar a credibilidade do veículo e usá-la ao seu favor. Sabem que uma afirmação falsa, quando transmitida ao vivo, recortada em vídeos curtos para as redes sociais ou distribuída sob a logomarca de um jornalismo respeitado, ganha a aparência de informação.

Entrevistar um mitômano político, portanto, não é apenas fazer perguntas e anotar respostas, mas impedir que uma operação de desinformação se disfarce de cobertura eleitoral. Não se trata de abandonar a imparcialidade, mas de compreender que objetividade não significa oferecer à mentira o mesmo tratamento dispensado aos fatos.

Atire a primeira pedra o jornalista que, depois de encerrada uma entrevista tensa ou complexa, na solidão do banho ou antes de dormir, nunca pensou algo como “merda, eu devia ter retrucado” ou “putz, poderia ter feito de outro jeito”. Todos nós falhamos ou erramos, e isso faz parte. Mas a responsabilidade não é de um indivíduo, mas do veiculo como um todo.

A mentira está presente nas relações de poder desde que o primeiro hominídeo contou lorota para garantir o controle do bando. A mentira faz parte da política, da mesma forma que revelá-la é trabalho de fiscalização do jornalismo. Tenho conversado com colegas professores de jornalismo, contudo, sobre o desafio de cobrir eleições em um ambiente em que a mentira viraliza em tempo real. Pois não basta fazer perguntas duras, é preciso reagir diante das respostas.

Jornalista durante entrevista
Debate contou com Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante)

Dado o início da campanha eleitoral, trago aqui algumas sugestões que enumeramos. São cuidados para não virarmos figurantes no espetáculo de quem fabrica realidades.

1) Desmentir um mitômano começa dias antes

Um candidato que mente de forma sistemática raramente improvisa tudo. Ele é ensaiado por equipes de media training para reciclar números falsos, distorcer acontecimentos conhecidos e repetir histórias já desmentidas porque sabe que a insistência produz familiaridade. E familiaridade, para muita gente, soa como verdade.

Mapear previamente essas narrativas, reunir dados, documentos e declarações anteriores e preparar contestações curtas. Quem chega desprevenido passa metade da entrevista tentando entender a falsidade e a outra metade ouvindo sua repetição.

2) Não permita que a mentira fique sem contestação

A entrevista não pode seguir normalmente depois de uma afirmação comprovadamente falsa, como se o candidato tivesse apenas expressado uma opinião controversa. Fato não é questão de opinião.

O jornalista deve interromper, apontar a falsidade e pedir que o entrevistado apresente provas. “Isso não é verdade” pode ser uma frase jornalisticamente mais responsável do que o tradicional “há controvérsias”. Quando não há controvérsia, inventá-la em nome de uma pretensa neutralidade é prestar um serviço ao mentiroso.

3) Use a tecnologia a seu favor

Para quem está ao vivo pode ser difícil dizer que algo é uma mentira com certeza absoluta, só quem já esteve lá sabe como tudo é complicado. Para isso, ter uma equipe nos bastidores dando respostas rápidas é importante.

Outros jornalistas podem fazer checagem em tempo real, com ferramentas de pesquisa e uso de inteligência artificial, e informarem aos entrevistadores através de ponto ou mensagem, fornecendo também as provas de que aquilo é falso. Ou apontarem que o entrevistado está recorrendo a uma mentira que já foi, várias vezes, desmentida.

4) Não repita a mentira no título

Uma das maneiras mais eficientes de espalhar desinformação é publicar a falsidade na manchete e deixar a correção para o quarto parágrafo, sob a justificativa de apenas repetir a declaração. Milhões verão o título, mas só uma pequena parcela chegará ao esclarecimento.

“Candidato diz que urnas foram fraudadas” transforma uma acusação sem provas em acontecimento jornalístico. Melhor seria informar que ele voltou a atacar o sistema eleitoral sem apresentar evidências. O destaque precisa estar no fato (a ausência de provas), não na fantasia que o candidato deseja distribuir.

5) Use o sanduíche da verdade

Comece pelo que é verdadeiro, mencione a falsidade apenas quando necessário e termine reafirmando o fato. A ordem importa.

Em vez de abrir dizendo que o candidato acusou vacinas de provocarem determinada doença, explique primeiro o que mostram as evidências científicas. Depois, informe que ele contrariou essas evidências e conclua retomando o consenso existente. A mentira não pode ser a porta de entrada nem a última lembrança deixada ao público.

Nessa mesma linha, outra sugestão útil é fazer perguntas sobre resposta. Ou seja, dar um fato como existente e questionar sobre a atitude do candidato diante dele, reduzindo a margem para que ele conteste algo que todos sabem ser verídico.

6) Não aceite uma avalanche de falsidades

Alguns candidatos praticam a técnica da metralhadora: disparam tantas mentiras em poucos minutos que qualquer tentativa de checagem parece lenta, enfadonha e impotente. Enquanto o jornalismo verifica a primeira, o candidato já produziu outras dez.

Nesses casos, o entrevistador precisa controlar o ritmo. Deve interromper, escolher uma afirmação por vez e impedir que o candidato avance antes de responder pela anterior. A liberdade de expressão não inclui o direito a minutos minutos ininterruptos de propaganda enganosa transmitida pela infraestrutura de um veículo jornalístico. Isso não é livre debate, mas manipulação do debate público.

7) Exija documentos, números e fontes

“O povo sabe”, “especialistas afirmam” e “há estudos mostrando” não são provas. São esconderijos retóricos.

Pergunte quais especialistas, quais estudos, quais números e quais documentos sustentam a declaração. Se o candidato não souber responder, isso precisa ficar evidente. “Então, o senhor não tem provas do que diz.” O jornalismo não deve completar com imaginação as lacunas deixadas por quem fala com certeza sobre aquilo que não consegue demonstrar.

Flávio Bolsonaro durante sabatina da Globo. Foto: reprodução

8) Não confunda equilíbrio com equivalência

Se um candidato diz que dois mais dois são quatro e outro afirma que são 27, o papel do jornalista não é colocar as duas respostas lado a lado e anunciar que o eleitor decidirá. Isso é abrir mão da função da profissão.

Dar tratamento equivalente a uma informação verdadeira e a uma falsidade não produz equilíbrio, mas desinformação com boa diagramação. A imparcialidade exige usar critérios iguais para todos (mesmo tempo de perguntas sobre corrupção, por exemplo), não indiferença diante dos fatos. Se qualquer candidato mentir, seja de esquerda, direita, centro ou da dimensão fantasma, deve ser confrontado da mesma maneira.

9) Mostre por que aquela mentira importa

Checar números é necessário, mas insuficiente. O público também precisa compreender a função política da falsidade.

Uma mentira sobre urnas pode preparar o terreno para a contestação de uma derrota. Uma invenção sobre determinada grupo social pode estimular perseguições. Uma falsidade sobre vacinas pode provocar mortes. Uma fraude sobre contas públicas pode justificar o desmonte de políticas sociais.

Mentiras políticas não são apenas frases erradas. São ferramentas usadas para produzir medo, ódio, lucro, impunidade ou poder.

10) Não transforme o mentiroso em celebridade da mentira

Candidatos sabem que declarações absurdas rendem manchetes, vídeos, memes e convites para mais entrevistas ou participação em debates —mesmo que, pelas regras eleitorais, um, emissora não precise chamá-lo. Quanto maior o despautério, maior a audiência. O escândalo vira estratégia gratuita de marketing para o político e, consequentemente, o veículo de comunicação.

Nem toda mentira precisa ser reproduzida em todas as plataformas. Às vezes, a decisão jornalisticamente mais responsável é não ampliar uma provocação fabricada exclusivamente para dominar o debate. Informar não significa entregar ao incendiário a transmissão ao vivo do incêndio que ele quer provocar.

E se uma mentira foi transmitida sem contestação, a correção não pode ser escondida em uma nota de rodapé publicada horas depois. Deve receber destaque proporcional ao alcance do erro.

Também é importante manter arquivos acessíveis das falsidades recorrentes, mostrando datas, versões anteriores e evidências que as contradizem. O candidato conta com a amnésia coletiva. O jornalismo precisa funcionar como memória documentada.

Algum semovente radicalizado certamente gritará que essas medidas significam impedir um candidato de falar. Na verdade, elas dificultam que o político use o jornalismo para fraudar o direito do público à informação. Quem concorre à Presidência deve ser submetido a mais escrutínio, não a menos, porque suas mentiras podem movimentar mercados, destruir reputações, estimular violência e corroer instituições.

Como afirmar em público que não existe aquecimento global, processo que já está matando muita gente ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

O candidato mitômano espera encontrar diante de si jornalistas incapazes de interrompê-lo, despreparados para confrontá-lo e preocupados demais com acusações de parcialidade para chamar uma mentira pelo seu nome real.

Quando isso acontece, ele não concede uma entrevista. Sequestra um veículo.

Artigo Anterior

Restaurantes dos EUA eliminam gorjetas e aumentam salários

Próximo Artigo

Brasil fica em 5º lugar entre os melhores países para estrangeiros viverem em 2026

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!