
Renan Santos (Missão) defendeu nesta quarta-feira (26) que o Brasil inicie um processo que permita, no futuro, desenvolver armas nucleares. Em sabatina da TV Globo, o candidato à Presidência chamou o país de “vassalo da China” e afirmou que é necessário recuperar a capacidade militar para ganhar soberania e peso nas disputas entre as grandes potências. Ele reconheceu que não considera possível produzir uma bomba nos próximos dez anos, mas afirmou que o tema precisa começar a ser discutido.
Renan partiu de um diagnóstico de mudança da ordem internacional construída depois da Segunda Guerra Mundial. Citou a ascensão da China, a disputa com os Estados Unidos e conflitos recentes para sustentar que países com grande território, população e recursos naturais precisam de capacidade própria de dissuasão. “O Brasil tem que iniciar um processo de recuperação de soberania, de pesquisa, para ele poder se sentar à mesa e discutir com o mundo”, afirmou. Segundo o candidato, o país precisaria ter “condições de ter uma arma atômica” inclusive para reforçar sua pretensão de integrar permanentemente o Conselho de Segurança da ONU.
A preocupação com uma nova corrida armamentista não é inventada por Renan. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o Sipri, estima que nove países possuíam cerca de 12,2 mil ogivas nucleares no início de 2026 e afirma que todos continuaram modernizando seus arsenais. O instituto também aponta uma reversão de décadas de redução do papel das armas nucleares nas estratégias de segurança. A tese da dissuasão — segundo a qual possuir capacidade de destruição nuclear desestimularia um ataque externo — voltou a ganhar espaço em diferentes países diante da deterioração dos mecanismos de controle de armamentos.
Isso não significa, porém, que todas as premissas apresentadas pelo candidato se sustentem. A bomba atômica não é requisito jurídico para integrar o Conselho de Segurança da ONU. Alemanha e Japão, duas das maiores economias do planeta e países sem arsenais nucleares, reivindicam juntamente com Brasil e Índia assentos permanentes no órgão. Também é imprecisa a descrição do Brasil como praticamente a única grande nação sem esse armamento: potências econômicas e demográficas como Alemanha, Japão e Indonésia não possuem bombas. E a União Europeia, usada por Renan na comparação, não é um Estado nuclear; entre seus integrantes, a França mantém seu próprio arsenal.
ELEIÇÕES 2026 | Candidato do Missão associou armas nucleares à defesa da soberania, chamou o Brasil de ‘vassalo da China’ e citou Coreia do Norte como exemplo.
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Imagens: Globo pic.twitter.com/V2CgOnfkm1— Estadão 🗞️ (@Estadao) August 27, 2026
Renan também atribuiu ao PT o alinhamento brasileiro ao BRICS, descrição que reduz a trajetória do grupo. O Brasil é um dos integrantes fundadores do bloco, estruturado durante o primeiro período de Lula no Planalto, mas permaneceu nele durante governos de diferentes orientações. Jair Bolsonaro chegou a presidir a cúpula do BRICS realizada em Brasília em 2019 e participou dos encontros seguintes. O grupo funciona como fórum de coordenação política e econômica e não como aliança militar comandada por China e Rússia.
A proposta encontraria ainda uma extensa barreira jurídica. A Constituição determina que toda atividade nuclear em território brasileiro tenha finalidade pacífica. Desde 1998, o país também integra o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e está submetido ao Tratado de Tlatelolco, que mantém a América Latina e o Caribe como zona livre desses armamentos. Brasil e Argentina construíram ainda, desde 1991, um sistema conjunto de inspeções destinado justamente a garantir que seus programas nucleares não sejam desviados para a fabricação de bombas. Uma mudança de rumo exigiria alterar a Constituição e romper ou rever compromissos internacionais que ajudaram a encerrar décadas de desconfiança nuclear na América do Sul.
A crítica de Renan à desigualdade da ordem nuclear, contudo, não é exclusiva do Missão. Em junho, Lula lembrou que votou pela não proliferação de armas na Constituinte porque havia a expectativa de que as potências reduzissem seus arsenais. “Alguém desativou?”, questionou, antes de citar Paquistão, Coreia do Norte, Índia, China, Rússia e Estados Unidos. Lula não chegou a defender explicitamente uma bomba brasileira e mantém um histórico de defesa do desarmamento, mas sua fala mostrou que a frustração com uma ordem internacional na qual poucas potências conservam arsenais nucleares também alcançou o governo.
O ponto mais delicado da proposta de Renan é transformar uma constatação correta — a deterioração da segurança internacional e o peso crescente da força militar — em argumento suficiente para uma bomba brasileira. Um programa desse porte teria consequências diplomáticas, econômicas e estratégicas para o país e poderia desmontar o sistema de confiança construído com a Argentina e na América Latina. Armas nucleares podem aumentar o poder de dissuasão de um Estado, mas também criam riscos de escalada, acidentes e novas corridas armamentistas. Até o Sipri, ao registrar o fortalecimento mundial desses arsenais, alerta que a dependência crescente da dissuasão nuclear pode ampliar justamente os riscos que ela pretende conter.