Debate no Código do Poder reúne Manoela Mayrink e Romero Venâncio Silva para discutir fé, política, desinformação e a disputa por valores no ambiente digital
Da Redação
A relação entre religião, política e comunicação esteve no centro da edição do Código do Poder exibida pela TV Código Aberto neste domingo (27). A conversa reuniu a jornalista e pesquisadora Manoela Mayrink e o professor de filosofia Romero Venâncio Silva, com mediação de Reinaldo Aragon e participação de Luís Delcides. O debate partiu da controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida nas redes sociais e avançou para temas como conservadorismo religioso, atuação política de igrejas, desinformação e transformação das instituições religiosas na sociedade brasileira.
Manoela Mayrink, que desenvolve pesquisa de doutorado em comunicação na Universidade Federal Fluminense, contou que passou seis meses na Itália durante o período de pesquisa. Seu trabalho investiga as relações entre religião, política e mídias digitais, com atenção ao conservadorismo católico e à atuação de grupos religiosos nas redes. Segundo ela, a experiência contribuiu para aprofundar uma investigação que tem a Brasil Paralelo como um dos principais objetos de estudo.
Ao falar sobre a Brasil Paralelo, Manoela explicou que o catolicismo nem sempre aparece de maneira explícita, mas pode ser identificado em referências, conteúdos e concepções de intelectualidade presentes na plataforma. Ela citou, entre outros exemplos, cursos relacionados à história dos santos e uma concepção tradicional de formação intelectual que, segundo sua pesquisa, apresenta características associadas ao conservadorismo católico.
Romero Venâncio Silva também relacionou a trajetória da Brasil Paralelo ao conservadorismo católico e mencionou a influência de Olavo de Carvalho sobre o grupo em seus primeiros anos. Para o professor, estudar a direita brasileira tornou-se uma tarefa relevante para compreender fenômenos políticos contemporâneos que durante muito tempo receberam pouca atenção sistemática de pesquisadores vinculados à esquerda.
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida foi um dos principais pontos da conversa. Manoela argumentou que a repercussão do episódio demonstra a dimensão cultural da religiosidade no Brasil. Ela observou que a identidade católica não se limita à frequência às missas ou à observância formal dos preceitos da Igreja.
“Catolicismo é cultura. Catolicismo no Brasil é cultural”, afirmou.
A pesquisadora lembrou que símbolos católicos atravessam diferentes experiências religiosas e culturais brasileiras. Para ela, Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar que ultrapassa a prática religiosa estrita e alcança a memória familiar, as manifestações culturais e a própria maneira como parte dos brasileiros compreende sua identidade.
Romero também destacou o caráter paradoxal da experiência religiosa no Brasil. Para ele, compreender a relação entre as pessoas e sua fé exige observar situações concretas da vida cotidiana, nas quais a religião aparece associada a momentos de sofrimento, esperança e busca por sentido.
“As pessoas rezam porque precisam”, afirmou Romero, ao defender que a experiência religiosa não pode ser reduzida a uma fórmula abstrata de alienação.
O professor criticou ainda leituras que desconsideram a dimensão cultural da religião e defendeu que setores progressistas compreendam melhor as experiências religiosas presentes na sociedade brasileira. Na avaliação apresentada durante o programa, a disputa política contemporânea exige compreender também a linguagem da fé e os símbolos religiosos mobilizados no debate público.
A conversa também abordou a transformação da desinformação nas redes sociais. Reinaldo Aragon afirmou que, ao longo dos últimos anos, as estratégias de circulação de conteúdos falsos passaram por mudanças. Segundo ele, mensagens que antes eram construídas a partir de afirmações inteiramente falsas passaram a recorrer cada vez mais a elementos verdadeiros, reorganizados para sustentar interpretações que os fatos originais não comprovam.
Nesse contexto, o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida foi apresentado como exemplo de uma dinâmica na qual fatos, documentos e conflitos reais podem ser reunidos para produzir uma conclusão que não é sustentada pelos próprios elementos utilizados como base. Aragon destacou que a existência de acontecimentos verdadeiros no entorno de uma narrativa não transforma automaticamente a conclusão produzida a partir deles em verdadeira.
Manoela acrescentou que a atuação das grandes plataformas digitais precisa ser analisada em conjunto com transformações econômicas e sociais mais amplas. Para ela, o funcionamento das redes influencia o que ganha visibilidade no debate público, enquanto a lógica das plataformas também se relaciona ao fortalecimento de determinadas concepções sobre sociedade, política e comportamento.
A pesquisadora chamou atenção ainda para a redução do espaço disponível para debates complexos nas redes. Segundo ela, formatos curtos favorecem conteúdos rápidos e dificultam discussões que exigem contextualização histórica, leitura e aprofundamento. A perda de autoridade de instituições tradicionalmente reconhecidas, como a Igreja Católica, também faria parte desse processo mais amplo de transformação.
A relação entre fé e experiência pessoal apareceu novamente quando Manoela contou que, durante sua permanência na Itália, levou consigo um terço entregue por sua mãe. Embora tenha afirmado que não frequenta uma igreja há muitos anos e que atravessa dúvidas sobre sua própria fé, relatou que recorreu ao objeto religioso em momentos de solidão e sofrimento.
“Eu peguei esse terço e eu rezava o terço e eu lembrava da minha mãe”, contou.
Para a pesquisadora, o episódio ajuda a compreender como a religião pode permanecer presente mesmo quando a relação formal com uma instituição religiosa se enfraquece. Ela também citou a experiência de um devoto do Círio de Nazaré que mantém uma promessa feita após a recuperação da filha como exemplo da permanência da fé popular na vida cotidiana.
Outro ponto discutido foi a presença de grupos religiosos na política institucional. A conversa abordou a atuação de setores neopentecostais, a formação de partidos ligados a grupos religiosos e a ideia de ocupação de espaços de poder. Manoela observou que parte dessas mobilizações pode envolver pessoas que acreditam genuinamente estar agindo em defesa de sua comunidade e de suas convicções religiosas, enquanto interesses de poder também podem atravessar essas disputas.
Romero, por sua vez, apresentou uma análise histórica sobre o crescimento do pentecostalismo no Brasil. Ele destacou o uso dos meios de comunicação por igrejas desde o rádio e descreveu como determinados grupos religiosos desenvolveram estratégias próprias de expansão e presença social. Para o professor, o crescimento dessas denominações não pode ser explicado apenas pela fé, mas também pelo trabalho organizado de ocupação de espaços sociais e comunicacionais.
O professor relacionou esse processo também à presença das esquerdas nas periferias. Segundo ele, a ausência de determinadas organizações políticas e movimentos sociais em comunidades populares abriu espaço para que igrejas desenvolvessem uma presença cotidiana mais intensa. O Rio de Janeiro foi citado como exemplo para analisar as relações entre religião, política e organização social.
Questionado sobre a possibilidade de o Brasil caminhar para uma teocracia, Romero fez uma distinção entre esse conceito e a ampliação da presença religiosa na política. Para ele, o crescimento da participação de grupos protestantes no espaço institucional é uma tendência que pode ser observada, mas isso não significa automaticamente a implantação de uma teocracia.
Manoela concordou com a distinção e afirmou que o conceito de teocracia corresponde a uma realidade diferente daquela observada atualmente no Brasil. Ao mesmo tempo, recorreu à série “The Handmaid’s Tale”, adaptação de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, para discutir como determinadas ideias podem ganhar espaço progressivamente quando encontram circulação nas redes sociais.
A pesquisadora destacou que a obra de Atwood não constrói suas situações apenas a partir da imaginação. Segundo ela, diferentes formas de opressão retratadas no livro encontram precedentes na história. A reflexão foi utilizada para discutir como transformações políticas e sociais podem ocorrer gradualmente, com a normalização de determinadas ideias antes que elas alcancem posições de maior influência.
No encerramento, os participantes defenderam a continuidade das pesquisas e do debate sobre religião, política e comunicação. Manoela afirmou que estudar a Brasil Paralelo permite observar como determinadas concepções de conhecimento, formação intelectual e sociedade são construídas e disseminadas. Para ela, compreender esses processos é necessário para interpretar o cenário político contemporâneo.
A edição do Código do Poder terminou com a proposta de manter o espaço de discussão aberto para novas pesquisas e debates. O programa também anunciou uma próxima edição dedicada ao tema do imperialismo de plataforma, com participação de Alonso Afonso de Albuquerque.
Referências citadas na entrevista
“Cadernos do cárcere”, de Antonio Gramsci.
“Cartas do cárcere”, de Antonio Gramsci.
“A sagrada família”, de Karl Marx e Friedrich Engels.
“A inteligência brasileira”, obra mencionada por Romero Venâncio Silva ao citar um ensaio de Marilena Chaui sobre Plínio Salgado e o integralismo.
“Diferença e repetição”, de Gilles Deleuze.
“Mil platôs”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
“O conto da aia”, de Margaret Atwood.
“The Handmaid’s Tale”, série baseada na obra de Margaret Atwood.
“Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.
“Romaria”, de Renato Teixeira.
“Atlas da religião no Brasil”, publicação mencionada por Romero Venâncio Silva a partir de dados do Censo de 2010.
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