Quem é o “Reinaldo” das mensagens de Vorcaro?, por Luís Nassif

Nas conversas de Daniel Vorcaro divulgadas pela revista Veja, o advogado Walfrido Warde aparece cobrando um pagamento pendente a alguém chamado Reinaldo. O sobrenome não é mencionado, e fica a pergunta: de quem se trata?

A associação com Reinaldo Azevedo é imediata, já que ele manteve durante algum tempo um podcast com Warde. 

Quando veio a público a relação profissional entre Warde e Vorcaro, o UOL encerrou o contrato com Reinaldo. Circulou a informação de que o distrato teria relação com a parceria com Warde. Logo depois da demissão, vi o jornalista pedir apoio moral aos ouvintes, em cenas tão pungentes que imaginei estar ele abatido por alguma doença grave. A saúde voltou quando o Metrópole o contratou.

Sem a identificação do destinatário e o contexto completo da conversa, não se pode atribuir o pagamento ao jornalista. Minha hipótese, é que Warde bancou o patrocínio do podcast para exibir a relação com um influenciador e depois sugeriu a Vorcaro que o programa fazia parte da blindagem ao Master. De qualquer modo, cabe a Warde e a Reinaldo explicar.

O ódio na linguagem jornalística

Reinaldo foi um dos pioneiros, na internet e na imprensa brasileiras, do uso de ferramentas baseadas na psicologia de massa do fascismo. Não se tratava de simples discordância política. O ódio foi incorporado à linguagem jornalística: o adversário deixava de ser alguém cujas ideias deveriam ser contestadas e passava a ser um alvo a desqualificar.

Eu já identificara esse movimento nos textos de Tales Alvarenga, na Veja, o primeiro a se valer do novo estilo, ainda que com escasso talento. Com Reinaldo, ganhou outra intensidade. A virulência imobilizava o alvo. Como responder quando a discussão já não se dava no terreno dos argumentos, mas no da humilhação pessoal? Como entrar no jogo sem se rebaixar? O estilo desorientava quem se subordinava às regras até então em vigor.

A trajetória

Procurei conhecer melhor o personagem. Encontrei um jornalista talentoso, em busca de reconhecimento, com passagens pelo Diário do Grande ABC e pela Folha. Por onde passou, deixou vestígios de uma violência tão explícita no dia a dia da redação que despertava nos colegas interpretações psicológicas para tentar entender tamanho ódio.

Sua projeção começou quando Luiz Carlos Mendonça de Barros o levou para dirigir a revista A República, concebida como publicação próxima ao PSDB. A revista naufragou, e colegas atribuíam parte das dificuldades ao excesso de protagonismo de Reinaldo.

Depois passou a pilotar um blog, no qual exercitou a linguagem virulenta, muitas vezes chula, e estabeleceu uma relação de cumplicidade com os leitores. Foram os primeiros ensaios da psicologia de massa do fascismo, que tomou conta do país e, cuja porta de entrada foi a Internet.

O covil onde se gestou essa excrescência foi a revista Veja e seus dois colunistas, Reinaldo e Diogo Mainardi.  Olavo de Carvalho tratava ambos como seus discípulos, até o dia em que Reinaldo rompeu com o mestre e passou a usar o mesmo arsenal na montagem de comunidades fundadas no ódio e no preconceito. 

O movimento teve sua “bíblia”, o livro O país dos petralhas. Em cada lançamento aparecia um grupo local vociferante, denominados A Confraria do Chapéu. O chapéu-panamá virou símbolo de identificação, e nas eleições de 2010 surgiram grupos em vários estados, mobilizados contra os “comunas” e a favor de seus candidatos.

O que me preocupava não era o acessório, mas o recurso de transformar a linguagem de ódio na ferramenta de pertencimento, transformando a agressão em demonstração de fidelidade ao grupo. 

No blog, nas conversas com os seguidores, Reinaldo passava a imagem do sujeito bem-sucedido, criado nos melhores ambientes, provador de uísque caro. Tempos depois, numa crônica na Folha, revelou com notável sinceridade uma cena de infância: a mãe, empregada doméstica, expulsa da casa da patroa por ter gastado demais o detergente, levando o filho pela mão e, num acesso de raiva, atirando o detergente na patroa. 

Estava ali os sinais de o Coringa, que eu havia identificado anos antes.

O caso de Veja

Quando iniciei, em um blog, a série “O caso de Veja“, examinando os métodos e interesses da revista, já havia sofrido ataques de Diogo Mainardi. Esperei algum tempo para entender as mudanças que ocorriam na mídia. Foi a primeira vez que um mero blog teve a audácia de enfrentar a maior máquina de destruição de reputações já criada na mídia brasileira, sob o comando de Eurípedes Alcântara e Mário Sabino.

Veja contratou Reinaldo, então, aparentemente para montar o contra-ataque. De fato, fui alvo de ataques pesadíssimos dele. Reuni cerca de 500 páginas de agressões dirigidas a mim e à minha família. Mainardi também cometeu suas baixarias, mas tinha menos peso próprio e dependia mais da máquina de exposição da revista. Reinaldo reunia talento, repertório e uma agressividade aprendida diretamente da fonte: Olavo de Carvalho. 

O ataque não terminava na tela: entrava em casa. Pela manhã, antes de as caçulas irem para a escola, precisávamos prepará-las para o que poderiam ouvir dos colegas, a partir do que era publicado no portal da Veja. Naquele início de Internet, éramos poucos blogs, onde se concentravam os ataques de ódio da ultradireita, alimentados diretamente por Reinaldo.

Indignado, Nirlando Beirão me encaminhou relatos sobre Reinaldo, e colegas do Diário do Grande ABC fizeram o mesmo. Não os usei, em respeito às filhas dele. Não queria reproduzir contra outra família o método que condenava quando atingia a minha.

Os alvos

Um dos episódios que mais me marcaram foi a campanha de Reinaldo contra uma professora de psicologia da USP, então com cerca de 70 anos, por orientar uma pesquisa sobre redução de danos no uso de ecstasy. Ela chegou a ser tratada como traficante por ele. A pressão alcançou a Fapesp e ameaçou a bolsa da pesquisadora. Tive que ligar para a direção da Fundação e alertar que, se cedessem à chantagem da Veja, seria a desmoralização da entidade.

Minha intervenção salvou a bolsa da aluna e aumentou os ataques de Reinaldo.

Houve também ataques a alunos e professores do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, que acabaram denunciados por um promotor irresponsável. Mais uma vez, o debate público cedia lugar à exposição de pessoas como inimigas.

Luís Roberto Barroso também foi alvo de campanhas de Reinaldo e Augusto Nunes. Um dossiê sobre sua sogra, atribuído a Ari Kara, alimentou semanas de desqualificação no portal da Veja. Aquela pressão compôs o ambiente em que Barroso se afastou de posições garantistas e se aproximou do lavajatismo. 

Tempos depois, Reinaldo foi contratado pela Folha. Sua chegada ao jornal foi marcada por um ataque a Jânio de Freitas, um dos últimos vínculos da Folha com sua tradição crítica. Foi claramente uma tentativa de constranger Jânio e empurrá-lo para fora. E Reinaldo aceitou esse papel.

A mudança

Depois de cometer as maiores indignidades da história da imprensa brasileira, Reinaldo resolveu lustrar sua biografia. Em determinado momento, começou a mudar. Tornou-se crítico da Lava Jato.

Mais tarde, no UOL e na Bandeirantes, Reinaldo começou uma reconstrução da imagem. Continuou talentoso, mas passou a direcionar sua verve à defesa da democracia, até que apareceu o caso Master e o envolvimento de Warde, como advogado de Daniel Vorcaro.

A pergunta que fica

Minha curiosidade alcança também Miriam Leitão, que começou no jornalismo econômico como minha repórter no programa Cash, da TV Abril. Ambos demonstram conhecer os princípios democráticos e compreender os riscos do autoritarismo. Como conciliar essa consciência com a atuação anterior? O que levou profissionais capazes de reconhecer abusos a participar de campanhas de desqualificação e a tolerar, no ambiente da Lava Jato, práticas que afrontavam as garantias que hoje defendem?

Ambos se tornaram, hoje em dia, duas vozes relevantes em defesa da democracia.

A pergunta é maior do que Reinaldo ou Miriam: o que leva pessoas com formação democrática a embarcar numa dinâmica coletiva em que a hostilidade ao adversário suspende os limites éticos e atacar todos os princípios democráticos? E o que precisa acontecer para que voltem a enxergá-los?

Antes, seria relevante que a conversa de Warde com Vorcaro pudesse ser esclarecida.

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