
A cena é reveladora. Diante de uma grande manifestação em apoio ao presidente Lula em Copacabana, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (12), uma repórter da GloboNews, segundo o registro que circula nas redes, gagueja e se refere ao ato como um “protesto”. A palavra chama a atenção porque os participantes estavam nas ruas para apoiar a reeleição do presidente, e não para protestar contra ele.
Poderia ser apenas uma escolha infeliz de vocabulário. Afinal, manifestações e protestos são termos frequentemente utilizados como sinônimos no jornalismo. Mas, quando se trata da Globo e de sua relação histórica com os movimentos populares brasileiros, a memória recomenda que o episódio seja examinado com atenção.
O ato de Copacabana reuniu estudantes, sindicalistas, famílias e militantes políticos em apoio à candidatura de Lula no segundo turno contra Flávio Bolsonaro. A mobilização integra um movimento mais amplo, impulsionado também por iniciativas espontâneas de apoiadores, organizações estudantis e movimentos sociais, que vêm ocupando ruas e redes sociais desde o primeiro turno.
A participação da juventude é um dos elementos mais importantes dessa movimentação. Estudantes universitários e secundaristas já haviam realizado manifestações no Rio, inclusive um ato convocado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), que percorreu o centro da cidade. A campanha pela reeleição passou a contar com uma mobilização que ultrapassa as estruturas tradicionais dos partidos.
É justamente essa capacidade de mobilização que pode alterar o ambiente político. Uma multidão nas ruas não garante uma vitória eleitoral, mas pode produzir entusiasmo, estimular a participação e convencer eleitores que estavam desanimados ou inclinados a não votar. Para uma emissora com a influência da Globo, reconhecer a dimensão de um movimento popular significa também reconhecer sua força política.
E a Globo já enfrentou uma situação semelhante. Foi em 25 de janeiro de 1984, quando cerca de 300 mil pessoas ocuparam a Praça da Sé, no centro de São Paulo, para exigir eleições diretas para presidente da República. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, e aquela manifestação se transformaria em um dos momentos decisivos da campanha das Diretas Já.
Os organizadores escolheram deliberadamente o aniversário de São Paulo, feriado municipal, para facilitar a participação popular. Nem a chuva impediu que a praça fosse tomada por uma multidão. Trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais e lideranças políticas se reuniram para reivindicar um direito elementar que a ditadura havia retirado dos brasileiros: escolher diretamente o presidente da República.
Naquela noite, o Jornal Nacional apresentou o acontecimento de uma maneira que entraria para a história do jornalismo brasileiro. Em vez de destacar imediatamente a gigantesca mobilização política, a chamada do telejornal enquadrou o comício entre as comemorações dos 430 anos de São Paulo. O apresentador Marcos Hummel anunciou: “Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé.”
Não era uma simples festa de aniversário. Era uma multidão exigindo o fim da escolha indireta dos presidentes, um dos mecanismos de sustentação política da ditadura. Ao colocar a manifestação sob a moldura das comemorações municipais, a Globo reduziu, na abertura da notícia, a importância de um acontecimento que desafiava diretamente o regime militar.
HISTÓRICO! A GloboNews acaba de mostrar, em rede nacional, uma multidão de pessoas de direita e esquerda nas ruas de Copacabana, no Rio de Janeiro, contra o bolsonarismo. Espalhe esse vídeo ao máximo! ❤️🇧🇷👏🏼 https://t.co/4IOtWuxRwh
— Washington Quaqua Oficial (@Quaqua13_) October 12, 2026
A emissora sustenta, em sua própria memória institucional, que a reportagem de Ernesto Paglia informou expressamente que os manifestantes exigiam eleições diretas. Isso é verdade. Mas também é verdade que a Globo reconhece que Roberto Marinho havia determinado que os primeiros comícios fossem noticiados apenas nos telejornais locais, por receio de que uma cobertura nacional estimulasse a mobilização política.
A decisão é particularmente reveladora. Não se tratava apenas de escolher quais acontecimentos mereciam espaço no noticiário. O proprietário da maior rede de televisão do país considerava os possíveis efeitos políticos de informar a população sobre um movimento que crescia contra a ditadura.
A reação à cobertura da Praça da Sé foi intensa. O episódio se tornou um dos exemplos mais conhecidos da relação conflituosa entre a Globo e a democratização do país. A emissora acabaria ampliando a cobertura das Diretas Já à medida que o movimento ganhava uma dimensão impossível de ignorar. Em abril daquele ano, milhões de brasileiros já participavam das manifestações pela volta das eleições diretas.
Há uma diferença evidente entre a cobertura de um comício contra a ditadura militar, em 1984, e a utilização da palavra “protesto” durante uma transmissão em 2026. Não seria rigoroso afirmar que os dois episódios têm a mesma gravidade. Também não há elementos suficientes para demonstrar que a repórter recebeu orientação para diminuir o ato de Copacabana.
Mas a comparação histórica levanta uma questão legítima: por que uma manifestação de apoio a um presidente é apresentada de uma maneira que pode produzir no telespectador uma impressão diferente da natureza do evento?
A Globo não é uma observadora neutra da história política brasileira. Sua trajetória inclui o apoio editorial ao golpe militar de 1964, posteriormente reconhecido pela própria empresa como um erro, e episódios de cobertura que provocaram questionamentos sobre seu papel na formação da opinião pública.
É nesse contexto que a escolha de palavras na GloboNews ganha significado político. A manifestação de Copacabana ocorre em um momento no qual Lula tenta ampliar sua base de apoio, reduzir a abstenção e transformar a mobilização popular em votos no segundo turno. A presença de estudantes e de cidadãos organizados fora das estruturas oficiais de campanha acrescenta um elemento de imprevisibilidade à disputa.
Quando uma emissora com esse passado parece ter dificuldade para reconhecer a natureza de uma mobilização popular, é inevitável perguntar se existe também uma preocupação com seus desdobramentos. Trata-se de uma interpretação política, não de uma intenção comprovada, mas a história da Globo oferece razões para que suas escolhas editoriais sejam examinadas criticamente.
Em 1984, a multidão da Praça da Sé não estava ali para comemorar o aniversário de São Paulo. Estava ali para exigir democracia. Em 2026, os manifestantes de Copacabana não saíram às ruas para protestar contra Lula. Saíram para defender sua reeleição.
A Globo pode escolher suas palavras. O que não pode é esperar que o público esqueça sua história. E, se a emissora começa a dar sinais de desconforto diante da força das ruas, talvez seja porque sabe, melhor do que muitos, que a mobilização popular pode mudar o rumo de uma eleição.
