Lula se transformou na casa do meu vizinho André, por Laura Santos

Lula se transformou na casa do meu vizinho André

por Laura Santos

Há muito tempo Lula deixou de ser corpóreo e virou uma ideia. Mais precisamente, dizem as boas línguas, naquele lamentável 7 de abril de 2018, em que foi preso por conta de uma das maiores fraudes processuais da história desse país, revelada graças à deusa Fortuna e ao hacker Delgatti.

Lula não morre, não vai preso e jamais perderá uma eleição. É o verdadeiro mito. Lula é o nordestino, é o metalúrgico, é o negro, o indígena, o famélico, o trabalhador, a mulher e a criança. Lula, ao mesmo tempo, é e não é. E está em quase todos os lugares. Nesses últimos tempos, Lula se transformou na casa do meu vizinho André. Apareceu por lá, numa casa simples, mas que podemos perceber os dizeres pintados: Lula 2026.

Mas como é que ele apareceu por lá desse jeito? Por que André resolveu deixar a casa toda enfeitada? Simplesmente porque estava cansadíssimo de colocar bandeiras de Lula e os narinhos da rua arrancarem. Por diversas vezes eles fizeram isso. A solução de André, ousado e alegre, foi, ao invés de ficar com medo, pintar sua casa. E me disse: “agora quero que tirem com gancho”. E mais: colocou as bandeiras de volta e comprou câmeras de segurança Shopee para pegar os meliantes.

Dois fatos curiosos sobre meu vizinho André são que ele é carteiro, funcionário dos Correios, e é um negro retinto. Isso me faz pensar na grandeza de Luiz Inácio. A maioria da população negra, incluindo a cronista que vos fala, vota nele. Daí às vezes penso que Lula tem e não tem cor. Se considerarmos as coisas da terra, diremos que ele é um homem branco. Mas se considerarmos as coisas inefáveis, diremos que ele é multicolor.

Atentemos para as coisas do céu e ousemos sonhar. A hora do milagre se aproxima. Tivemos um primeiro turno difícil. Mas Lula é um sujeito de sorte e tem chances reais de virar o jogo. E o melhor: por ser uma ideia, ele está em todos os lugares.  Nos últimos dias, apareceu aqui bem pertinho, apareceu na casa do meu vizinho André. Sorridente e animado com a aparição, André pediu que eu anunciasse a todos e todas. “Prepara. O sol há de brilhar, mais uma vez”.  


Laura Santos, também conhecida como Neguinha da Fé. Advogada, esp. em Direito Penal e Criminologia Crítica, doutoranda em Filosofia Política pela Universidade Federal de Sergipe. Parte de sua pesquisa, em andamento, foi realizada na Universidade de Westminster, na cidade de Londres/UK.

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