Advogados pedem investigação urgente sobre gravação com acusações contra Lula e integrantes do governo; representação quer identificar origem do material, intermediários e eventual ligação com a campanha do candidato do PL
Da Redação
A Polícia Federal foi acionada para investigar uma possível articulação envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e pessoas ligadas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A notícia de fato foi apresentada pelos advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, integrantes do grupo Prerrogativas, e pede que a PF investigue com urgência a origem e a circulação de um material gravado com acusações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros do governo e outros personagens políticos.
O documento foi apresentado na quinta-feira (8), em pleno segundo turno da eleição presidencial, e parte de informações recebidas pelos advogados sobre a existência de um HD que conteria um depoimento de Vorcaro. Segundo a representação, esse material teria sido entregue a terceiros fora dos canais formais de uma colaboração premiada e poderia ser utilizado publicamente nos dias que antecedem a votação de 25 de outubro.
O Prerrogativas sustenta que existe a suspeita de uma operação destinada a produzir impacto eleitoral e, simultaneamente, alterar o ambiente político em torno das investigações do Banco Master. Essa é, neste momento, uma alegação dos autores da representação. Não há decisão da Polícia Federal confirmando a existência de uma articulação entre Vorcaro e a campanha de Flávio Bolsonaro, nem prova pública de que o candidato tenha participado da produção ou distribuição do material.
A iniciativa dos advogados ganhou outra dimensão horas depois, quando a revista Veja publicou gravações e documentos atribuídos a Vorcaro. O ex-banqueiro afirma, nesses materiais, ter destinado dinheiro a um documentário sobre Lula e relata supostas negociações envolvendo o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, integrantes do governo e dirigentes ligados a fundos de pensão.
As acusações são graves, mas não equivalem a fatos comprovados. A própria reportagem registra que parte do material havia sido apresentada anteriormente às autoridades e não avançou por insuficiência de provas. Lula negou ter solicitado ou recebido qualquer vantagem financeira de Vorcaro. Alexandre Padilha e Olavo Noleto também negaram relação ilícita com o ex-banqueiro.
É exatamente a forma de produção e circulação dessas acusações que o Prerrogativas quer colocar sob investigação.
HD teria circulado fora dos canais formais
Segundo a notícia de fato, os advogados receberam informações de que um HD contendo um depoimento gravado de Vorcaro teria sido entregue a terceiros antes da divulgação pública.
O material, de acordo com a representação, conteria acusações contra adversários políticos de Flávio Bolsonaro e integrantes do governo federal. O grupo afirma que não teve acesso prévio ao conteúdo completo da gravação e pede que a Polícia Federal confirme sua existência, identifique quem produziu o arquivo, quem recebeu cópias e por quais caminhos o material circulou.
Os advogados também pedem que sejam identificados eventuais intermediários responsáveis por aproximar Vorcaro de veículos de comunicação ou pessoas vinculadas ao ambiente eleitoral.
A preocupação declarada é com uma possível divulgação de acusações de grande repercussão em período muito próximo da votação, quando haveria menos tempo para investigação, contraditório e verificação independente.
Essa hipótese precisa ser investigada, mas não pode ser tratada como conclusão antecipada. A publicação de uma denúncia jornalística, por si só, não constitui interferência eleitoral ilícita. Para que exista responsabilização, seria necessário demonstrar eventual combinação prévia, finalidade ilegal, falsidade deliberada ou participação de agentes sujeitos às regras eleitorais e penais.
Vorcaro negociava entrevista com emissoras
Outro elemento citado na representação é a movimentação de pessoas próximas a Vorcaro para viabilizar uma entrevista de grande repercussão nacional.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, interlocutores do ex-banqueiro procuraram emissoras de televisão para negociar uma entrevista exclusiva. A Globo teria sido procurada e a Record também demonstrado interesse.
A escolha da emissora, segundo os relatos publicados, levaria em consideração fatores como espaço e tempo concedidos ao entrevistado.
Novamente, negociar uma entrevista não constitui irregularidade. A questão levantada pelos advogados é outra: eles querem saber se essa movimentação estava vinculada a uma estratégia previamente combinada com atores políticos interessados em produzir efeitos no segundo turno.
A representação pede que a PF preserve a liberdade de imprensa e o sigilo das fontes jornalísticas. O foco solicitado pelos advogados está na cadeia de produção e circulação do material e em eventuais contatos políticos associados a ele.
Relação de Vorcaro com Flávio já é investigada
O pedido não surge num terreno vazio.
A Polícia Federal já investiga a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro no caso Dark Horse, cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro.
Documentos da investigação apontam Flávio como interlocutor direto do ex-banqueiro em negociações para obtenção de recursos destinados ao projeto. A PF apura suspeitas relacionadas à origem, movimentação e destino de valores enviados para estruturas financeiras ligadas à produção.
A investigação inclui suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os recursos relacionados ao filme correspondiam a uma operação legítima de financiamento privado.
Parte dos recursos atribuídos a Vorcaro chegou efetivamente ao projeto, segundo documentos já tornados públicos. As autoridades investigam, porém, se todo o dinheiro teve a finalidade declarada e se parcelas teriam sido utilizadas para outros objetivos.
É nesse contexto que os advogados do Prerrogativas enxergam possível interesse comum entre Vorcaro e pessoas ligadas ao candidato do PL.
A existência dessa relação anterior não comprova a articulação denunciada agora. Constitui, porém, um elemento objetivo que justifica a pergunta feita pelos representantes à Polícia Federal: houve algum contato entre os dois ambientes relacionado ao material divulgado durante o segundo turno?
Colaborações de Vorcaro já enfrentaram resistência
A credibilidade das declarações do ex-banqueiro também entrou no centro da disputa.
A Polícia Federal já havia demonstrado resistência a propostas anteriores de colaboração de Vorcaro. Investigadores consideraram que parte das informações apresentadas não trazia novidades suficientes ou não vinha acompanhada de provas capazes de sustentar as acusações.
A Veja afirma que o material divulgado agora faz parte de relatos e documentos reunidos pelo ex-banqueiro e apresentados anteriormente às autoridades.
Entre as acusações divulgadas está a afirmação de que Vorcaro teria destinado cerca de R$ 30 milhões, em dinheiro vivo, a despesas relacionadas a um documentário sobre Lula e ao Instituto Lula, dentro de uma negociação para obter acesso a investimentos de fundos de pensão.
Segundo a revista, Vorcaro também afirma que havia sido discutida uma taxa equivalente a 10% das captações que o Banco Master conseguisse realizar junto a determinados fundos.
A Procuradoria não levou adiante aquela parte do relato naquele momento porque não encontrou provas suficientes para sustentar as acusações apresentadas.
A publicação também registra mensagens e contatos que demonstram que Vorcaro buscou interlocução com integrantes do governo e tentou abrir portas para o banco junto a autoridades e fundos de pensão. A existência desses contatos, entretanto, não comprova automaticamente as propinas narradas pelo ex-banqueiro.
Lula afirmou que nunca solicitou nem recebeu qualquer vantagem financeira de Vorcaro e que nunca autorizou terceiros a receber recursos em seu nome.
Padilha negou relação com Vorcaro. Olavo Noleto também rejeitou qualquer participação em esquema financeiro.
Prerrogativas fala em possível interferência eleitoral
Para Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, a sequência precisa ser examinada justamente porque ocorre nos dias que antecedem o segundo turno.
Os advogados sustentam que pode haver uma tentativa de utilizar acusações ainda não comprovadas para alterar o debate eleitoral e desviar simultaneamente a atenção das investigações sobre as relações de Vorcaro com outros personagens políticos.
A representação também levanta a hipótese de que o ex-banqueiro buscaria melhorar sua própria situação judicial com uma colaboração de forte impacto político.
Essa tese também permanece sem comprovação.
Não há, até o momento, informação pública demonstrando que Flávio Bolsonaro ou integrantes formalmente identificados de sua campanha tenham oferecido vantagens judiciais a Vorcaro em troca de declarações contra Lula.
É precisamente esse tipo de ligação que os advogados querem que a PF procure.
A notícia de fato solicita identificação dos destinatários do HD, análise dos intermediários envolvidos, preservação dos elementos digitais e apuração de eventuais contatos com a estrutura da campanha de Flávio.
Também pede que as conclusões relevantes sejam comunicadas ao Supremo Tribunal Federal e às autoridades eleitorais.
Caso Master atravessa o segundo turno
A nova frente mostra como o escândalo do Banco Master passou a atravessar praticamente todo o sistema político brasileiro.
Mensagens e documentos extraídos das investigações revelaram contatos de Vorcaro com figuras de diferentes partidos, integrantes do governo, parlamentares, empresários e autoridades.
O próprio ex-banqueiro tentou se aproximar de Lula e de integrantes do governo enquanto buscava soluções para a situação financeira do Master. Ao mesmo tempo, sua relação com Flávio Bolsonaro e o financiamento de Dark Horse passaram a integrar investigação específica conduzida pela Polícia Federal.
Por isso, separar relações políticas comprovadas de acusações criminais ainda não demonstradas tornou-se fundamental para compreender o caso.
Vorcaro mantinha uma rede ampla de contatos. Isso está documentado. Outra questão, bastante diferente, é determinar quando esses contatos envolveram crimes, pagamentos ilícitos ou troca de favores.
A mesma cautela vale para a nova denúncia apresentada pelo Prerrogativas.
Existe uma representação formal. Existe um material atribuído a Vorcaro com acusações contra integrantes do campo governista. Existe uma investigação anterior sobre sua relação financeira com Flávio Bolsonaro. Existem também acusações e negativas de todas as partes.
O que ainda não existe é a prova pública de uma operação combinada entre o ex-banqueiro e a campanha do candidato do PL para interferir na eleição.
É esse vazio que a Polícia Federal foi provocada a preencher.
A proximidade do segundo turno torna o tempo parte do problema. Se houver uma articulação ilegal, sua identificação depois da votação pode ser tardia para o processo eleitoral. Se não houver, a investigação também é necessária para impedir que suspeitas sem prova sejam apresentadas como fatos.
No centro do pedido apresentado à PF está, portanto, uma pergunta objetiva: quem produziu, distribuiu e negociou o material de Daniel Vorcaro divulgado às vésperas da decisão presidencial — e havia algum acordo político por trás dessa movimentação?